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sábado, 14 de março de 2015

AVONMORE, MAIS DE BRYAN FERRY

   O som de Bryan Ferry começou a ser criado em 1982, no último disco do Roxy Music, o luxuoso Avalon. Esse som, criação única, é um tipo de delicada tapeçaria, pontos musicais que se entrelaçam. Podemos também chamar de flocos de neve em caleidoscópio. É um som frio, cheio de volteios, ângulos que se abrem para serem fechados em seguida, riffs que ameaçam nascer e desaparecem. As batidas são sempre negras, mas elas são partidas, retomadas, perdidas. Em meio a essa massa sonora vagueia a quase sonâmbula voz de Ferry, sussurrante e aliciante. Sempre.
   Desde então ele nunca mais mudou. Disco após disco, ele apenas se contentou em aperfeiçoar essa tapeçaria, às vezes com grande sucesso ( Taxi ), às vezes errando feio ( Olympia ). Mesmo ao gravar seu disco de standards da música pop dos anos 20/30, As Times Goes By, ele conseguiu fazer trompetes e banjos soarem como seu costumeiro tricot. Avonmore não atinge as alturas de Taxi, ou mesmo de Frantic, ( estou falando apenas dessa fase costureira. Os discos solo anteriores a 1982 não contam ). Por outro lado, o novo disco nunca desce a ladeira como o citado Olympia, ponto mais baixo de toda a carreira do romântico maior da Inglaterra. 
   Como é esse som? O clip que postei, apresentação no show de Jay Leno em 1993, duas faixas de Taxi, demonstra esse som em seu modo mais simples. Em disco Bryan chega a usar 3 baixos, 3 baterias e 4 guitarras tocando juntas. É um sinfonia de eletricidade, mas que mesmo com essa montanha de som, soa sempre leve, delicada, fina como gelo. No novo disco ele volta a usar Johnny Marr, Flea, Jonny Greenwood, David Gilmour, Marcus Miller... e claro, o maestro, o grande Nile Rogers. 
   Nile está presente nesse clip de 1993. Egresso da cena disco, lider do delicioso Chic, em seu auge, entre 1982/1990, Nile produziu Bowie, Madonna, Duran Duran, Debbie Harry, Robert Palmer e um imenso etc. A guitarra dele pulsa e ela é a linha que une todos os instrumentos que gemem e arremetem durante as sonhadoras canções de Ferry. Nesse video temos também Robin Trower, guitarrista inglês que por volta de 1975 foi chamado de novo Hendrix. Sua guitarra cheia de ecos e wah wah enfeita e dá feeling ao som. São duas guitarras no palco, no disco são quatro, o efeito se expande. 
   Bryan Ferry abraçou esse estilo e nesses trinta anos jogou fora uma de suas maiores características, a surpresa. Em entrevistas ele diz ter se encontrado após as buscas feitas entre 1972/1982. Esse estilo, em seus auges, é muito sedutor, ele pega nossa alma e a leva para fluir por aí. E tem o espírito de amores perdidos e amores novos. 
   Bryan Ferry não muda. E aqui é um prazer dizer isso. Ferry é Ferry. Again.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Ultravox - Sleepwalk (Live St Albans 16.08.1980) HQ



leia e escreva já!

Ultravox - Vienna - Live 1983



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VIENNA=ULTRAVOX. O TEMPO PASSA...

   Estranho. Para onde foi a emoção? Aos 22, 23 anos eu me emocionava profundamente com este disco. Agora eu o acho bonito, mas não arrepiante. Seria porque eu evolui? Mas então porque um disco como Magic, de uma cantora chamada Cheryl Dilcher, um disco pop, comum, que eu amava aos 15 anos, hoje me comove como sempre comoveu? Magic não é melhor que Vienna. Será que encontro uma resposta satisfatória?
   Acho que sim. O garoto que amou o disco de Cheryl aos 15 anos era um garoto que desejava de um disco apenas aquilo que Magic tem, música e diversão. E isso ele sempre vai ter. Músicas de um pop festivo, às vezes tristonhas, sempre simples. O que eu buscava em Magic no ano de 1978 continuo obtendo em 2015. Vienna não. Porque?
   Em 1984, ano em que comprei Vienna ( ele é de 1980 ), os críticos mais interessantes se chamavam Pepe Escobar, Matinas Suzuki e Luis Antonio Giron. Nos textos de Pepe ele citava Keats, Huysmanns, Cocteau e Miró. Matinas falava de brumas londrinas, chá na madrugada e dores suicidas de amor. Já Giron escrevia como quem pinta porcelana, com extremo cuidado. Essa é a chave. Todos eles partiram, à partir de 1989/90 para outros campos. Giron foi escrever sobre música erudita e literatura, Matinas se debruçou sobre tecnologia e futurologia e Pepe foi viver fora, escreve sobre tudo, menos rock. Os três eram apaixonados pelo rock e pelo pop mais britânico dos anos 80, pop do qual Vienna é um belo representante. O que houve?
  Aos 22 anos eu tinha em Vienna a porta de entrada para um mundo novo. O mundo que ia da primeira geração romântica até Andy Warhol. O disco prometia o acesso, fácil e simples, ao mundo da Arte. identifiquei isso na primeira vez em que ouvi, anos depois, uma banda como Radiohead. Ele facilita a entrada na Arte, mas sem ser Arte. O ouvinte sente toda a emoção de coisas como poesia, pintura abstrata, cinema japonês e romances modernistas, SEM PRECISAR TIRAR OS FONES DO OUVIDO. ( Basta dizer que em todo o ano de 1984 eu li apenas 5 livros ). O que acontece então?
   Com o tempo eu conheci a fonte, o artigo genuíno, a tal Arte, e as emoções refinadas que Vienna parecia conter empalideceram. O que eu sentia escutando o disco agora sinto, de uma forma muito mais complexa, lendo, vendo ou ouvindo outras coisas. Vienna ficou lá. Foi trocado.
   Isso não pode acontecer com, por exemplo, o Led Zeppelin. Ou mesmo Bowie. O que eles dão só em música pop ou rock podem dar. O meu amor por eles sempre foi puramente musical e rock`n`roll, no caso do Led, e no caso de Bowie, musical e estilosa. Bowie era um dos artigos autênticos que Vienna anunciava. A emoção de ouvir Beatles ou The band permanece porque amamos ""apenas""suas canções. Em Vienna eu amava a música, mas essa música simbolizava e anunciava mais do que ela era. Essa é a tragédia de tudo que se torna passado sem volta.
  Mas é bonito. 

The English Beat - Get A Job/Stand Down Margaret (Live at US Festival 9/...



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The English Beat - Mirror In The Bathroom (Live at US Festival 9/3/1982)



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I JUST CAN`T STOP IT!- THE ENGLISH BEAT ( politica na ilha )

   No tempo de Clash, Police e Costello o que vendia ( na Inglaterra ) era ska. O movimento, chamado de Two Tone ( branco e preto ) misturava festa com o desejo socialista. Era tempo do começo da era Thatcher, ela batia forte na classe operária e o bando do ska botava fogo nas passeatas diárias. A ilha estava em convulsão. Os brancos da esquerda se uniram aos negros pobres de Brixton e juntaram tudo: deu no Two Tone. Pra mostrar a ideologia, roupas pretas e brancas. ( Me dá banzo do tempo em que visual era uma atitude politica ). A direita mandou os new romantics pra rua. Anti-ideológicos, deslumbrados com o glamour, amantes da nova Inglaterra made in USA, os romantics faziam um som que falava de noite, frio, viagens espaciais e bissexualidade. Sim, filhos de Bowie e de Ferry. Sim, a direita os amava. A esquerda....não. Os romantics venceram a guerra. No som houve um empate.
   Aqui falo de The Beat. Da trinca suprema foi o de menos sucesso. Mas menos sucesso em 1980 ainda é muito sucesso. Se o Madness era o que mais vendia e os Specials os mais radicais, The Beat tinha a pegada mais rock. É ska, mais ska que aquilo que foi feito na retomada do ritmo, nos anos 90 pelos americanos, mas é um ska com velocidade de punk, o que não acontecia com os outros dois. O disco que cito é seu auge. Depois viria o comercialismo maior e as brigas.
   Poucos discos possuem um som de baixo tão poderoso. Ele comanda tudo e ele pipoca nos ouvidos como uma bala ricocheteando em ravina. Seus pés  vão tentar acompanhar esse baixo coriscante, não conseguirão, irão morrer tentando. David Steele é o nome do cara. E tem a bateria. Essa é tipo pulga. Ela pula para onde voce menos espera. A velocidade no chimbal é alucinógena. Nesse contexto a guitarra poderia ser esquecida, mas não. Duas guitarras, uma se dedilha, a outra faz chung chung.... Tá feita a coisa. Mesmo após o arrastão de tantos anos de dance music, este disco ainda é soberba e aliciantemente dançante. E o discurso é punk. Punk estilo The Jam. De partido. Uma festa.
   Eu estive por lá. Em 1982. Vi as meninas de laranja e verde, minis e óculos escuros, no verão, bebendo os últimos goles do ska. Vi os new romantics começarem a dominar tudo, e transformarem a ilha nessa pasmaceira que dura até hoje. Acabaram com todo o fabianismo, toda a tradição de Shaw e Keynes e jogaram tudo ao ar. Londres optou pela festa de luz e droga. Deixou de lado a festa na rua, de ska e tambor.
   Escuta isto. 1978-1983 foi o penúltimo orgasmo da música inglesa. The Beat foi um de seus centros. Enjoy.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

EU SEI PORQUE VOCE NÃO GOSTA DE ELTON....ELTON JOHN, A BIOGRAFIA, DE DAVID BUCKLEY

   Elton John é feio. Não a feiura que pode até criar um certo interesse, como a de Alice Cooper ou de Lemmy. É a feiura medíocre. O feio que voce mal nota que existe. Isso marcou toda a vida de Elton. Ele jamais aceitou sua aparência, sempre odiou sua imagem. Em seus melhores momentos ele relaxou e quase ficou bonitinho. Em seus piores ele se auto-zombava e no processo desacreditava sua música. Se vestia de pato, de Mozart, de rei ou de Liberace. Dizia para o mundo, eu sei, eu sou ridiculo. Os fãs se sentiam incomodados, o resto olhava e pensava: -eu sempre soube, Elton é um palhaço.
  Mas não foi sempre assim, tão evidente. Esse martírio, que sempre houve, mas que se intensificou nos anos 80, foi aditivado por muito pó e muito álcool. Como aconteceu com Rod Stewart, David Bowie e Paul MacCartney, dentre muitos, a década viu a credibilidade dos reis dos anos 70 derreter. A maioria por excesso de drogas, dinheiro e puxa sacos, alguns por tédio e outros por medo de envelhecer ( o que fez com que tentassem se fingir de adolescentes ). Bowie foi dos poucos que conseguiu se reerguer. Elton, para todos nascidos depois de seu auge, permanece como um tipo de bobo rei do pop brega. Nada mais distante da verdade. Assim como Rod, que entre 69/76 foi um grande artista do folk, do rock e criou algumas das melhores letras de todo a cena, Elton foi entre 1970/1977 um grande artista. E era levado a sério. Todos os seus discos, 14 até então, dois por ano, eram ótimos e algumas de suas faixas, 3 ou 4 por disco, eram geniais. Dentre seus fãs, John Lennon, Leonard Cohen, Joni Mitchell e depois Elvis Costello. 
  Improvável sempre foi a marca de Reginald Dwight, o nome de batismo de Elton. Filho único da baixa classe média, nunca se deu com o pai, piloto de avião. Se dava com as mulheres da casa, mãe e tias. Na escola adorava todos os esportes e era bom em tênis e crickett. Baixo, gordinho, ele se isolava com livros e o piano. Teve aulas de piano clássico, mas se interessava por rock, Little Richard, Jerry Lee Lewis, e aos 15 anos começou a tocar numa banda, a Bluesology. Profissionalmente. Era 1962. Ao mesmo tempo Elton se torna um dos maiores colecionadores de discos da cidade. Gosto que ele manterá por toda a vida, ele é capaz de dizer quem toca no disco de uma obscura banda punk de 1980. E mais, qual a gravadora, onde foi gravado e a ordem das faixas. É um fato que pouca gente sabe, mas Elton até hoje continua escutando tudo de novo que surge todo ano. É seu maior hobby. 
  Em 1963 ele vai trabalhar numa editora de música. Tem 16 anos. Continua na banda, de noite. Nessa editora ele pode escutar tudo o que ela publica antes de ser lançado. Isso fará com que Elton seja sempre o primeiro cara a escutar tudo o que os Beatles recém produziram, em primeira mão. Todo o aprendizado se dá nesses anos. Piano a noite em pubs, faixas novas e fenomenais de dia. 
  Em 1968 ele sai da banda. Na editora se une a um jovem poeta chamado Bernie Taupin. Essa será a maior dupla do pop depois de voce sabe quem. Bernie escreve poemas e os passa para Elton. Elton faz uma melodia sobre os versos. Estilo de composição mais dificil, rara, que para os dois funcionou. Ainda morando com os pais, e sem nenhum envolvimento físico, Bernie, que é dos cafundós do campo inglês, vai morar na casa da mãe de Elton. Ele se torna o irmão que ele nunca teve. Hetero convicto, nunca haverá nada entre Bernie e Elton. Que na época estava noivo. Uma conversa com o cantor Long John Baldry mostrou a Elton que sua verdade era ser gay. Ele rompe o noivado e ao mesmo tempo se lança ao mundo do rock.
  1970 tem o primeiro disco. Elton John tem a capa escura para disfarçar sua falta de sex appeal. O sucesso é absoluto. Fica 44 semanas nas paradas. Your Song se torna um clássico e o LP, cheio de arranjos orquestrais do grande Paul Buckmaster, é elogiado por colegas e por críticos. Nos próximos sete anos Elton será responsável por 3% das vendas de discos em todo o mundo. Percentual só igualado em 1984 por Michael Jackson e por mais ninguém. Serão sete LPs seguidos alcançando o primeiro lugar nos EUA ( só os Beatles conseguiram isso ) e mais de 14 singles entre os cinco primeiros postos. Ele fará duas excursões por ano, quebrará, junto ao Led Zeppelin, recordes de público, e se tornará mundialmente conhecido por crianças, velhos e roqueiros. Estará em todo canto. TV, cinema, jornais, tudo. Elvis, Beatles, Michael Jackson e Elton, são os únicos quatro reais fenômenos do rock, pois mesmo os Stones, Led, U2 ou Dylan jamais conseguiram penetrar em todas as classes e todas as idades.  Sete anos em que seus rivais foram todos batidos. Gente como Eagles, Pink Floyd, Bowie, Stevie Wonder, Neil Young, Stones. 
  Bowie era seu grande rival. Porque de certo modo os dois corriam, no começo, na mesma raia. Rock glam agitado e baladas ao piano. Com uma grande diferença, crucial. Bowie queria ser um artista completo. Elton queria se divertir. Desse modo o público de Bowie era menor e fiel, o de Elton imenso, e infiel. Bowie podia se dizer bissexual. Seu público aceitava e até queria isso. Quando em 1976 Elton disse ser bissexual foi o começo de seu quase fim. A maior parte de seu público, conservador, o abandonou. 
  Elton diz no livro que Bowie nunca foi gay. Ele era um hetero que se fazia de gay para causar frisson. Já Elton era um gay que tentava esconder isso para não causar frisson. 
  Generoso, mão aberta, até os 28 anos Elton jamais havia se drogado. A partir daí ele se torna um caco. Cocaína e whisky. São os anos 80. Engraçado observar que ele nunca deixou de vender bem, o problema é que a inspiração se foi. A partir de 1979, e até 2002, Elton só lançaria albuns fracos e muito raramente algum single bom. Quanto aos shows, eles se tornaram forçados, frios, esquisitos. Sempre lotados, mas ao mesmo tempo quase constrangedores. Em 2002 ele grava The Captain and The Kid, enfim um grande disco. Os shows voltam a parecer mais reais. Ele para com as drogas, para com as fantasias, o piano volta a ganhar destaque. É um renascimento. Ele se casa, adota um filho, leiloa suas roupas mais ridiculas, e continua trabalhando ativamente em montes de instituições de caridade. É o mais dedicado dos astros de rock. Ele nunca discursa. ele vai e faz.
  Mas antes...
  Em 1971 exsitiam dois tipos de astro do rock: o glamuroso muito louco e o sofrido herói. Pelas músicas em seus discos ele poderia ser os dois. Mas no palco ele mudava. Se fantasiava para tentar esconder sua barriga, a careca e o rosto balofo. E ria, fazia piadas, pulava, conversava, festejava. Elton não tinha vergonha de ser feliz, de demonstrar prazer por estar num show. E, que ironia, isso destruia sua credibilidade!!!!!!
  Apesar de feio ele conseguia ser o maior dos astros. Mas os criticos começaram a não lhe levar a sério. Era como se um cara tão feliz não pudesse ser de verdade. Explico melhor...
  Lembro que no Rock in Rio de 1985, Rod Stewart cantou numa noite. E eu era fã de Rod ( ainda sou ). Só que aconteceu uma coisa horrível. Rod cantou Sailing rindo!!!! E eu escrevi em meu diário que Rod havia naquela noite destruído Sailing. Sailing era pra ser cantada com lágrimas nos olhos...
  Hoje sei que eu estava errado. Mas então foi minha reação. Rod Stewart perdeu a credibilidade comigo e só a readquiriu exatamente dez anos depois, quando o vi no acústico MTV. Com Elton se dava o mesmo. Ele brincava enquanto tocava Rocket Man, Ticking, Sixty Years e tantas outras. Baladas maravilhosas, de cortar o coração, lindas, tristes, e ele alí, vestido de pirata, rindo...O efeito no pessoal que o levava mais a sério era devastador. Era como se Morrissey cantasse How Soon is Now com o Village People, ou Dylan cantasse Like a Rollin Stone dançando no palco e feliz. ( Hoje eu acharia lindo, mas em 1975 isso seria inaceitável ). Rock era coisa séria, e Elton parecia não ser. 
  E não era. Era talentoso, genial até, mas sempre soube que subir num palco e poder cantar era um presente, uma sorte, uma alegria. Como parecer sofrer quando se fazia aquilo que mais se gostava? Elton era o mais anti-hipócrita possível.
  Poxa! Escrevi muito? É que eu amo Elton e este livro é muito bom. Mesmo para quem não gosta tanto, porque o autor, que já escreveu bios de Bowie, Bryan Ferry e até dos Stranglers, dá sempre uma geral no período. E nunca deixa de criticar os baixos, muitos, de uma carreira tão rica. A loucura do glam, a decadência do estúdio 53, os patéticos anos 80, o sucesso nos anos 90, a paz nos anos 2000. E o que fica é o fato de que Elton é sim um grande cara. Nada RocknRoll, um ET no meio, mas um grande cara. Fala-se de sua amizade com Lennon, com Rod ( que é seu melhor amigo ), e de suas coleções de arte. E a aventura de 1978, quando ele comprou seu time do coração, o Watfort, na quarta divisão, e o levou até a primeira e um segundo lugar...Eu tinha esquecido disso!
  Beleza de leitura.
  PS: Captain Fantastic de 1975. Esse talvez seja sua obra=prima. 
  Para quem quer quebrar o preconceito, aconselho The Tumbleweed Connection, de 1971.
  Divirta-se. E se emocione.

sábado, 10 de janeiro de 2015

THIS YEARS MODEL- ELVIS COSTELLO AND THE ATTRACTIONS

   O segundo disco do Elvis Costello saiu aqui no Brasil mas ninguém comprou. Em 1978 quem gostava de rock estava ocupado ouvindo Aerosmith e Kiss e tendo a certeza que o Rush era o futuro do rock. Well....de certo modo Aerosmith, Kiss e Rush foram o futuro do rock. BUT! Se a gente ouvir uma bandinha nova inglesa e ouvir Elvis Costello de 1978 em seguida vai perceber que o som é o mesmo. Talvez a única diferença é que a bandinha nova parece limpinha e os Attractions eram very dirty. Hoje o rock é feito por gente que nasceu mimada e cresceu entediada. Elvis cresceu na insegurança e nasceu com genes de raiva. Com a idade ele virou um tipo de Paul MacCartney azedo, mas nos seus primeiros anos ele era um principe. A idade nos rouba anger, raiva, indignação e acrescenta o medo e a preguiça. Fazer o que? Iggy ou Lou não são a regra.
  Em meio ao rock pretensioso e muito produzido dos anos 70, Elvis e sua turma criaram um tipo de rock meio retrô. Limaram os solos, as orquestras, os super shows, os meses de estúdio, e passaram a gravar rápido, cantar direto e tocar simples. Com urgência e com raiva. A fórmula em 2014 me irrita de tão manjada, mas é predominante no dito indie-rock. O interessante agora seria fazer discos com gigantismo. 
  Pump It Up é uma obra-prima, mas não é a única. As 12 faixas variam do bom ao genial e a banda é sempre perfeita. O teclado é tosco e ritmico, o baixo dá um show de swing e o batera, como disse Ezequiel Neves na época, era um maluquete. 
  Reouvi Elvis após uma entrevista de Bruce Springsteen, de 2013, em que ele conta que em 1978 escutava muito Elvis Costello. E que Darkness in The Edge of Town, o disco mais descaralhado de Bruce foi feito sob esse clima. Bem, em 1978 eu ouvia de novidade apenas Cars e Blondie. Ah, e Kraftwerk. Nada chegava aqui e o que chegava era atrasado. Não é desculpa, claro, nas importadoras havia Specials, Clash e até o Talking Heads.  A novidade parecia ser Queen.
  Ouvir este disco hoje nada te trará de novo. Parecerá apenas um bom disco de rock inglês tipico. O que voce deve ter em mente é que Elvis é o cara que ajudou a criar esse tipo de sonoridade. E entender que num meio saturado de Supertramp e de Pink Floyd, esse som era uma ofensa. 

Elvis Costello & The Attractions (Rockpalast 15/6/78) - Pump It Up



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domingo, 21 de dezembro de 2014

INGLESES PERDEM A VIRGINDADE EM NEW YORK....

   ...E quando voce a perde é for ever.
   Penso nos inocentes ainda cabaçudos. Mesmo que parecessem loucos ainda eram caipirinhas ingleses, ainda de pantufas e com seu cup of tea. Achando que vomitar no pub era o máximo! Ou dizer fuck na BBC. 
   Penso no Stone Roses excursionando pela América e se destruindo. No Happy Mondays pirando em becos de Detroit. New York engoliu a virgindade de vários ingleses que lá caíram e se perderam pra sempre. E mesmo os Beatles, que começaram a virar homens com Dylan e guiados por Dylan, melhoraram após a América, mas começaram a se desarmonizar. 
   Penso no Clash experimentando os USA e não segurando a barra. E nos Pistols morrendo a cada milha das highways. USA não é para ingleses, é para irlandeses. O U2 se descobriu na América. Os Stones só se tornaram os Stones após a viagem ao Alabama e New York. E o Led Zeppelin foi inflado pela América.
  Mas a maioria das desvirginizações foi traumática. O Who ficou para sempre a deriva depois de Woodstock. E um monte de gente desistiu por nunca conseguir comer a maçã americana: Roxy, T.Rex, Small Faces, Traffic etc etc etc. Os Smiths perderam o porque nos USA e após a adoração americana o Radiohead ficou preso na dúvida. O Oasis nunca foi big em New York e assim deixou seu destino a deriva. Porque New York é só para aqueles que sabem seduzir a sedutora. É preciso saber mexer a libido. 
  David Bowie caiu de nariz em New York e a conquistou. Fame foi number one. E quem o recebeu de braços abertos foi Lennon, o New Yorker. E em troca a terra de Andy quase o matou. Bowie, como 99% dos stars, pirou em Manhattan. De certa forma morreu. O Bowie londrino morreu aqui for ever. E mesmo o Bowie novaiorquino morreu aqui. Mas voltou em 1983, vampiro.
  TODOS os fãs de Bowie odiaram este disco. No preconceituoso mundo de 75 voce era ou black ou white. E white não fazia música assim. Sem solos, sem berros, sem suor, sem heroísmo. Bowie não se vende como herói. Ele seduz como bitch.
  O disco é um de seus melhores. E em nada lembra seus outros trabalhos. OU....digamos que tudo o que ele fez entre 1983-1990 foi Young Americans piorado. 
  Uma faixa como Win chega ao céu. O final é de uma beleza fria arrepiante. Mas todo o disco é soberbo. É pra dançar. E para escutar com atenção. Depois deste disco Paul Weller, Daft Punk, Blondie, Duran Duran, Madonna, George Michael, Inxs, Bryan Ferry encontraram seu caminho. Sem Young Americans quem abriria o caminho? Quem inventaria o soul branco?
   O disco é luxuoso, conceito inexistente no POP Rock até então. Bowie cria o conceito de luxo, de chic, de finésse.
   Nunca mais seríamos os mesmos.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

The Last Time & Bitter Sweet Symphony



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MOFO ROQUEIRO

   O rock morreu quando deixou de ser futuro e virou saudade. Não existe rock onde gente com mais de 35 anos é cultuada. Entenda, Leonard Cohen ainda é relevante. Assim como Dylan ou Bowie. Mas isso que eles fazem não é mais rock. Pode ser arte, mas rock não é. Porque rock nunca foi música. Era revolta, era moda, era frescor e era juventude. E tinha de se inventar toda hora como futuro. Surpreender. 
 Em 1999 deixei de tentar ouvir bandas novas. The Verve simboliza uma das últimas tentativas. Mas na verdade era um morto revivido por um Dr Frankenstein. Dava até pra se divertir ( foi uma boa safra de covers recém compostos ). Ainda havia Blur e Oasis e mais uma porção de coisas que iam de Red Hot à Fatboy Slim. Na verdade nada de rock, era festa, uma festa que ainda me enganava. Logo o cheiro de bolor voltou, e eu tenho alergia a bolor. O fedor aumentou e passei a procurar novidades nas velharias que eu não conhecia. Se era pra ouvir bolor, melhor colher o melhor bolor. Love, The Band, Steely Dan, Kevin Ayers, Can, Gram Parsons, Nicolette Larson, Flying Burrito Brothers...Descobri tudo isso desde então. 
 The Verve era lindo. Lucky Man ainda me faz chorar. É bonita. Mas é antiguinha. De qualquer modo, os Gallagher ainda pareciam reais. Maloqueiros. Como real parecia Thom Yorke. Ou Flea. Eles sabiam das coisas. E sabiam acima de tudo que eram mortos-vivos. Vampiros. Cantavam canções que vieram tarde. Era rock? Só na forma. Era bonito? Claro que sim. Mas era mofo. Mofo e teias de aranha.
 Não desvalorizo sua obra. Digo apenas que sua obra é uma coisa triste. Repete como réquiem aquilo que se foi a muito tempo. Cantar os mortos é uma forma nobre de arte. Mas não é rock. Que canta a vida, mesmo que trágica. E não é potente, pois um zumbi não reproduz. Se voce notar, o que reproduz, o que fertiliza e inspira continua sendo o rock vivo de sempre, o rock feito quando vivo e confiante. Aquele que se foi no começo da década vazia. 
 Ouça o que postei e fique bem.
 Valeu.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

AFTERMATH É PERFEITO.

   Estas notas foram encontradas num paletó de Anthony Roxy, The Second, pai de meu amigo Anthony Roxy, The Third. Encontrei essa bela peça de vestuário, comprada em Carnaby Street nos idos de 1966, dentro de um belo baú de tiras de ferro. Paletó listrado na vertical, de linho, com um forro de seda vermelha. Segue o texto ( escrito originalmente na bela grafia de Roxy, tinta roxa, caneta tinteiro com pena de ouro ) ...
  " Brian tem o estilo e Mick tem o sexo. Keith tem o rock and roll.
     Brian surge em minha maison com uma blusa de seda rosa e um poá de penas brancas. Sua namorada, Anita, a Diva, se veste exatamente como ele, as mesmas cores inclusive. A calça é justa, veludo branco. Estão ultrajantemente descalços. Mick veste uma simples camiseta de marinheiro e a calça é de alfaiataria. Sapatos de fivela, vinho. Impressiona a fragilidade física de Mick, ele parece feito de vidro. Keith tenta parecer um filho de mineiros de Newcastle. Usa um velho casaco de camurça bastante sujo. As unhas estão pintadas de negro. Os 3 me trazem seu novo disco, Aftermath. Fico feliz em saber que eles não tentam se parecer com "aquela banda"suburbana que insiste em se fazer simpática. Os 3 têm um ar blasé, penso que estão escolados no estilo "nem aí" da nouvelle vague. 
   O disco é escutado e me parece bastante bom. Não se compara aos singles recentes, especialmente a 19th Nervous Breakdown, mas a variedade desse Aftermath me espanta. Eles conseguem cavar seu nicho. Longe da simpatia dos 4 chatos de Liverpool e sem a acidez do bardo marxista dos Kinks. Bravo!!!" 
  Após ler esse rascunho resolvo reouvir o LP, afinal, a BBC escolheu a duas semanas Aftermath como o melhor disco dos Stones e um dos top 5 forever...
  Ele começa bastante atual. Mothers Little Helper fala das pílulas que ajudam as mães a suportar o cotidiano chato. A melodia, urgente, levada acústica, é das mais grudentas. Há algo, mínimo, de Dylan. Quem em 1966 não tinha algo de Dylan?
  Aftermath é uma obra extremamente rica. É o único disco deles em que há o trabalho de Mick, Keith e Brian em doses iguais. Nenhum dos 3 estava muito drogado ou brigado. Essa colaboração tripla dá ao LP variedade e beleza. Stupid Girl fala da mais idiota das mulheres e serve para marcar posição. Enquanto os Beatles falam das musas ( Michelle e Girl ), eles desprezam a estúpida mocinha. E se Lady Jane parece romântica, e é, Under My Thumb, uma obra-prima, conta a história da menina que agora é o "mais lindo animal de estimação do mundo". A riqueza sonora: Brian usa um cravo em Lady Jane, toca xilofone em Under My Thumb. Devo ainda dizer que Mick Jagger nunca cantou tão bem como em todo este disco. Sua voz, mais grave que no futuro, raspa os ouvidos de quem escuta. 
   Doncha Bother Me é um blues. Slide soberbo, curta e grossa, ela prepara a majestosa entrada de Goin Home. Oh....Goin Home....Ela quebra padrões!! Dura 12 minutos, é improvisada, tem sons de um trago num baseado, e antecipa, nos improvisos vocais de Mick, tudo aquilo que Jim Morrison desenvolveria. Um acorde de guitarra anuncia o som, ele vem negro, estradeiro e depois se metamorfoseia em viagem psicodélica. Um voo se ergue.
  Lado B. Flight 505. Tipo Chuck Berry. Mas com um baixo distorcido e mais velocidade. O tal voo é aquele que matou Buddy Holly. High and Dry é o primeiro country gravado pelos Stones. E portanto, é a mais Keith das faixas. Tipo de canção rápida de buteco. Bem suja, ficaria bem em Beggars Banquet. Out Of Time é um baladão para se cantar em coral. Brian arrisca um orgão de igreja. Daí vem It`s Not Easy que traz a marca da banda: riffs maravilhosos e um solo curto e objetivo. I Am Waiting é barroca. Keith e Brian fazem acordes quase religiosos nos violões e no cravo e Mick canta como em Lady Jane, como se ele fosse um Shelley renascido na Carnaby Street. Linda de sonhar, a canção é feita para o amor. Vem depois Take It Or Leave It. Canção de rádio de 1966. Bonita, simples, sincera, boa de cantar junto. Que belo cover daria em 2014 !
  Think anuncia o começo do fim deste magnífico disco. E a dramática What To Do encerra com chave de diamante. Uma música que combina tristeza e raiva. Os últimos segundos do disco ecoam o futuro da banda, fel e beleza. 
  Aftermath é perfeito.

domingo, 10 de agosto de 2014

ASHES ARE BURNING- RENAISSANCE

   Todo músico americano, de rock, cedo ou tarde canta country music. E todo britânico cedo ou tarde experimenta sua música de raiz, o folk medievalista. Isso vale para qualquer época.  Nos dias de hoje é muito fácil encontrar essa influência, que muitos chamam de celta, em inumeráveis bandas. E mesmo aquelas que evitam flautas e violões possuem esse espírito, o estilo campestre e cheio de névoas medievais que ecoa em alguns grupos eletrônicos e no modo heavy metal de ser. 
  Nos anos 70 quase todo o rock inglês perambulou pela forma celta. O glitter e os Stones evitaram esse estilo, mas de Led Zeppelin a Genesis, todos mergulharam em sons de bumbos, violinos e sagas sobre elfos e meninas ruivas. Muito lixo foi gravado. Muito lixo. Muito lixo é gravado ainda hoje, em 2014. E continuará sendo. Está na alma dos saxões europeus essa nostalgia Tolkiana. Esse sonho com Arthur e Guinevere. Não existe uma só banda ou cantor americano que tente esse caminho. ( Mas existem ingleses, vários, que tentam cantar como no Tennessee ). 
  A coisa começou, em 65, com a Incredible String Band, que tinha uma radicalidade anti-pop absoluta. Depois vieram o Fairport Convention, Caravan e Steeleye Span. Daí foi incorporado pelo grupo dos progressivos e dos hard rockers. E foi ficando cada vez mais diluído até sumir por uns cinco anos, durante o auge do punk que os detestava. Volta em 1982 e nunca mais desaparece. Há muito dele em Van Morrison, no Roxy Music e no U2. Os canadenses têm revitalizado esse som, assim como os suecos e belgas. 
  O Renaissance foi dos mais mal compreendidos. Para os progressivos ele era considerado muito pop e para o pop era muito complexo. Eu sempre o achei simplesmente bonito. Annie Haslam cantava como um anjo viking e a banda soava como um trio de câmara. Era intimista. Cristalino e muito inspirador. Seu apogeu foi em 1973, com Ashes are Burning. Depois rolou ladeira abaixo. Hoje é nota de rodapé. Mas tem admiradores fanáticos. Cult. Nada cool.
  Ouvir este disco me traz lindas vibrações. E se lindas vibrações é um adjetivo que te irrita, bem, fique longe deste som. Ele é feito de paz e de harmonia. Pós-hippie, é a Inglaterra falida de 1973. Pubs onde se discutia astrologia, Tolkien, Jung e ecologia. 
  Eu gosto.

sábado, 26 de julho de 2014

PSYCHOCANDY- JESUS AND MARY CHAIN

   Frio? Não faz mais frio. E a garoa se foi com a neblina. Meus lábios aqui não racham mais.
   A gente também esqueceu como é ser artista. Nada produzíamos, mas nos achávamos artistas. Sem medo do ridiculo. 
   Eu queria ser maldito. E triste. Amar era pra ser triste. Porque como dizia Bowie, só a tristeza tem beleza. E sem beleza a vida nada valia.
   O mundo era uma navalha. Brilhava e cortava. Berlin tinha um muro e o preto era preto. Pouco cinza. Voce era ou não era. Sem cinza. Nesse mundo rompido em dois tudo era mais radical. O feliz era absoluto e o triste era de morrer. 
   1985 foi o ano mais triste da história do mundo. Porque teve ASAS DO DESEJO. E este disco. Depois da felicidade esfuziante de 1983, o bode mortal de 84 e a dor terminal de 85.  
   Triste porém contente. Uma masturbação. O auto-erotismo do fatalismo. 
   Os irmãos Reid vinham da Escócia. E eram doces como os Beach Boys e ácidos como os Velvet tocando Sister Ray. Suicide encontra Donovan. 
   O disco foi o epitáfio de uma época. O adorno do túmulo do rock. Todos os críticos amaram. Jesus chegara e era o futuro. ( Não não era não. O futuro morava nos EUA. Nossa crítica sempre erra. Olha para a GB e esquece que o novo sempre vem da América ). 
   O novo seria o RAP. O eletro urdido em Detroit. O som sujo que se armava em Seattle. As misturas feitas na Califa. 
   Mas Jesus era apaixonante. Porque era triste. Belo. Sublime. 
   Nestes quase trinta anos ( Pode isso? ), tanta coisa se fez triste...Mas Jesus era mais radical porque foi o primeiro disco dos jovens desesperados de amor terminal. Isso hoje cheira a banalidade. Esse tipo de murmúrio lamuriento em 2014 serve até pra vender carro e ser trilha de novela.  Mas em 1985 era um som só da gente. Secreto. Nosso. Meu e seu.
   E ainda machuca.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

PÔR DO SOL DE WATERLOO NO CAXINGUI EM 2014

   Ora velho amigo, que música pode ser mais bonita que Waterloo Sunset ? I AM IN PARADISE...
 Vejo o mundo pela minha janela enquanto olho o pôr do sol em Waterloo... 
 Sabe, em um dos comentários no Tube um cara comenta que não amar os Kinks é detestar Londres. Matou a coisa cara. Nada é mais londrino que eles. E Waterloo é uma de suas jóias.
 A canção é um tipo de hino extra-oficial de Londres, é como Aquarela do Brasil pra gente. E não a toa abriu o final dos jogos de Londres em 2012. 
 Um outro comenta: O que se passava na cabeça de Ray quando compôs algo tão simples e tão tocante?
 Ora meu velho amigo, se passava aquilo que se passa em quem a escuta, Gratidão. 
 Waterloo Sunset ficou. Como ficou o LP Something Else by The Kinks. E ficou The Village Green. E também ficou Arthur. E mais alguns muitos.
 Em setembro haverá mais um show de talentos na escola. Um menino e uma menina de 13 anos me chamaram para ajudar eles em sua banda. Querem que eu faça backing vocals e toque pandeiro. Daí me disseram o que vão tocar: Vamos tocar Waterloo Sunset...voce conhece tio? 
 Juro que eu quase cai. 
 Sem mais my old champ, cha la la...

segunda-feira, 31 de março de 2014

THE NEXT DAY, DAVID BOWIE, A FALTA QUE O SILÊNCIO FAZ

   Os melhores discos de Bowie são cheios de silêncio. Ziggy Stardust é todo silencioso e seu disco mais fascinante, LOW, é obra-prima de espaços vazios. Há espaço oco em Diamond Dogs, vive o vácuo em Lodger, e mesmo Pin Ups está cheio de buracos. O som parece incompleto, falta alguma coisa e esse espaço dá toda a respiração, a vida a seus grandes momentos. A maior parte dos discos que adoro são assim. Eles possuem um som que reverbera no vazio. Mesmo os mais barulhentos, Led II ou Raw Power tem essa mistura de fúria barulhenta e silêncio suspenso.
  Na primeira audição deste disco senti aversão. Bowie e Tony Visconti mixaram tudo alto demais. Tem som em excesso e pouco vazio. Nessa sonoridade inflada ele lembra os piores discos de David. A bateria sincopada e gravada sem sutileza, o baixo inaudível, guitarras em excesso, vocais confusos, tudo faz o que Jimmy Page diz que NÃO se deve fazer, exagerar, embolar, misturar os sons.
  Na terceira audição a coisa começa a mudar. Bem, esquecemos o gênio de 1971-1983 e vamos ouvir o disco como se fosse de alguém desconhecido. O que surge é um bom disco de 2014. Digno número 1 da parada inglesa. Riffs muito bons, uma variedade de tempos e um e outro refrão grudento. Não deve nada as boas bandas deste século enfadonho. E as letras são, essas sim, obras que remetem ao camaleão de Londres. Bowie poucas vezes foi tão confessional.
  Eu não ia escrever sobre este disco. Só escrevo daqueles que fazem parte da minha alma. Mas me pediram para tentar. Enfim, devo dizer que So She é o tipo da música que remete aos grandes momentos de Bryan Ferry. Tem uma tristeza fria, uma elegância na dor que é muito dificil de se conseguir. Destaco também a faixa Heat, uma belíssima confissão sobre a dor. Sim, é um Bowie sem enfeites, sem maquiagem.
  Mas, devo dizer, sinto falta do silêncio.
  Sobre a capa do cd.
  Heroes é copiado sem parar, trocam apenas o nome na capa. É isso o que entendi.

quinta-feira, 20 de março de 2014

O MAIS IMPORTANTE INGLÊS VIVO, COMENTANDO O LIVRO LARANJA SOBRE DAVID BOWIE, O POP STAR QUE NOS FAZ SABER DE BARTHES, OSCAR WILDE, BRECHT E KAFKA, A ÚLTIMA POSTAGEM DE TROMBONE COM VARA.

eu não quero ser como todo mundo.

voce pode ser melhor que todos.

seja aquilo que voce sempre quis ser.

o eu é o mundo.

   Em 1977 fui ao cinema assistir um filme de Nicolas Roeg. Tinha Bowie como ator e todos os críticos abominaram o filme. Eu me senti muito incomodado. O filme foi um pesadelo. Nunca mais o revi. Mas Mark Kermode diz que hoje ele é considerado uma obra-prima. Antecipação exata do que é ser jovem em 2014.
   De 1969 até 2000, em todas as entrevistas, Bowie disse que tudo é válido se voce causar algum hype. Essa a filosofia de 99% dos atores e cantores de agora. Mas. detalhe. Bowie desaparece em 2003. E o que acontece?
   Tilda Swinton diz que sem Bowie ela não existiria. E estilistas da St.Laurent, Miu Miu, Dior e Prada, lançam entre 2008/ 2011 coleções baseadas em Ziggy Stardust e na fase Berlin de Bowie. Não há desfile que não toque Fashion, de Bowie. 
   Ensaios fotográficos em revistas chiques, onde modelos posam de Bowie pipocam entre 2007/2012. E ele está calado.
   As bandas inglesas imitam o rock dos anos 80. Todas. Quase todas. As que são interessantes imitam Bowie. Que Bowie? O de 72? O de Berlin? O de Los Angeles? Escolhem um. Nenhuma consegue ser todos.
   A mensagem dele desde o começo foi essa: a revolução não é marxista. É do eu. O sexo, a percepção da vida muda neste mundo agora. Cada um será sua revolução. Bowie falou. E essa revolução aconteceu. E venceu. O eu manda sob a lei de um grande eu. Tudo é a vontade de ser único. Bowie disse isso em 1972. Num tempo em que se falava de socialismo e de irmandade. Bowie soube que isso era utópico. 
  Como artista pop ele não cabe. Suas referências são todas eruditas. Suas palavras são incrivelmente articuladas. Os outros astros pop são caipiras. Ou garotos irritados. Ele sempre foi um adulto culto. De onde? De fora daqui. De fora de todos os daquis.
  Oscar Wilde de nosso tempo, guia o senso estético, irrita os bobos e os imbecis, petulante ao extremo, indefinido, fluido, sem erro. Diferença: de acordo com 1890, Wilde usava a palavra: jornal, livro, teatro e conferências. De acordo com o tempo, Bowie usou o rock, a capa de disco, a moda e sempre o visual. Com Ashes to Ashes ele inaugura o clip como forma de arte. Lançado em 1980, antes da MTV, até hoje ele não foi igualado.
  Como vou falar de um livro que é um dos mais belos que já tive o privilégio de ter me mãos?
  Dividido em partes, cada sessão tem texto de um autor. Camille Paglia fala da importância de Bowie, central, na revolução sexual, na confusão entre gêneros e na liberação do corpo. É o melhor texto. Em outros capítulos se fala sobre a música, as capas de disco, os shows, o cinema, a vida e no fim há uma conversa entre 5 intelectuais. Eles debatem suas experiências na Bowiemania.
  Cheio de fotos, a moda é o centro da coisa. A influência de Bowie na moda e no design. E sua antecipação da internet ( foi o primeiro a dizer que  A MÚSICA SERIA COMO ELETRICIDADE E ÁGUA, FLUIRIA pelas casas ).
  O mundo de David Bowie é agora o da internet.
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  Desde 1983, com os Stones, não tenho uma fase de tanta adoração por um ídolo pop. A expo combinada com este opiáceo livro me deixou de quatro. 
  Como no filme de Roeg, caído no mundo, alien, ele criou uma raça de ETs. E esses Ets são hoje os cabeças de editoras, de TVs, de Hollywood. São líderes de bandas, politicos, fotógrafos e artistas. São os filhos de Ziggy, de Alladin Sane, seguidores de Jean Gennie, do Thin White Duke, do exilado em Berlin, do dandy dos anos 80, do cantor maduro e irriquieto dos anos 90. E eles mandam.
  Frase lapidar do livro: Existencialmente a vida de Bowie é um caminho solitário rumo a se tornar um homem adulto. David é hoje o único adulto do mundo ( ele e Bryan Ferry ). 
  Não falo mais.
  Sigo o exemplo de Bowie. No mundo repressivo fazia sentido gritar. No mundo em liberação fazia sentido falar. Neste mundo em que todos falam e ninguém escuta, faz sentido calar. 
  TROMBONE COM VARA ACABA AQUI.
  NADA MAIS SERÁ DITO. 
  Goodbye.