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terça-feira, 17 de março de 2015

O MAL EM SER CRIANÇA PRA SEMPRE. EXISTE?

   Um amigo me pergunta qual seria afinal o mal causado a esses eternos homens-criança que habitam todo o mundo ocidental mais desenvolvido. Ele não escreveu isso no sentido de alguém que acha que ser criança para sempre seja algo de desejável. O que ele interroga é especificamente qual seria o mal, onde ele se manifesta. Minha primeira resposta seria: abra a janela.
 Manifestantes com blusas amarelas querendo derrubar, na raça, um governo corrupto, porém eleito, têm uma atitude infantil. Pensam que politica é um eu quero. Esquecem do processo, dos trâmites legais, da chatice toda de ser adulto. Isso dá a todo ato uma cara de brincadeirinha. Tanto que eu tenho a certeza de que se a policia reprimisse a coisa eles chorariam. E procurariam o colo de alguém. 
  Meu foco não é comentar a politica brasileira. E não pensem que condeno a manifestação contra o PT. Tudo indica que o governo errou e de forma infantil a reação deles é falar que é tudo mentira. Mais um faz de conta. O que digo é que crianças nunca sabem lidar com o mundo material. Não é a praia delas. Acabam bufando e fazendo birra e no fim tudo sai do jeito errado. 
  Mas vamos em frente. Antes de falar o que pode haver de mal na infância eterna, devemos ver o que há de bom em ser adulto. O primeiro fato é esquecer as dores da adolescência. Um adulto olha para a adolescência como águas passadas. O segundo fato é possuir uma certa independência. Não depender de alguém que cuide dele, seja mãe, esposa, psicólogo ou guru. E o principal, um adulto pode jamais vir a saber quem ele seja de fato, mas ele cessou a busca constante pela sua turma. O adulto deixou de se preparar para a vida, ele já mergulhou. 
  Então eu diria que mais que ser dependente ou estar paralisado pelas brigas da adolescência, o eterno criança fica eternamente no quase. Ele olha a vida mas nunca mergulha nela. Vive na expectativa, desgastante, do inicio de sua vida ""de verdade""'
No mínimo isso lhe causará os sintomas clássicos da ansiedade. 
  Posso saber o que seja um adulto por filmes ou livros, professores ou conhecidos, mas eu ainda tive um adulto em casa, meu pai. E ele, pobre homem, foi profundamente odiado por isso. Além de eu ter comprado a ideia de que ficar adulto é negar tudo no pai, eu fui um adversário muito forte. E joguei sempre sujo. Em cada briga, que podiam ser quase comuns aos 14 anos, mas que se tornaram ridiculas aos 30, eu achava que estava caminhando rumo ao mundo do cowboy, o mundo do cara auto-suficiente. Claro que não. Era tudo um brinquedo de gosto ruim. 
   Meu pai trabalhava. E seu mundo era o do trabalho. Meu pai era um cara pronto. Ele tinha arrependimentos, dores e dúvidas, muitas, mas estava pronto. A vida para ele havia começado muito antes de que eu nascesse e sobre isso não havia volta. A corrente do rio da vida o apanhara. E ele procurava nadar. Mas não eu. Meu ideal era nunca sair da margem, ou melhor ainda, trocar de rio quando quisesse.
   E posso então falar de mais um mal:: a sensação engasgante, amarga, que todo cara como eu tem, de que a vida passa e eu fico. Melancolia que pode ser raiz de belas depressões, a sensação de que o trem passa sem voce pode te levar a imagem de que o mundo é algo que foge e sua vida uma estação vazia, pois os outros já partiram.
   Então voce brinca. Trens e rios imaginários. Partidas sempre repetidas, Voce vai à África, ao Japão, em carne e osso, mas a grande viagem voce nunca faz, mergulhar no rio da vida. A vida de adulto, que antes o horrorizava, agora lhe é tão distante que voce nem sabe mais do que se trata. E brinca. Como eu disse, brinca de ter um filho, de ter um casamento, de ter um emprego. Mas tudo pode ser revertido ou anulado. Sem compromisso. Tudo é um ensaio. O rio continua a passar.
  Me lembro que aos 16 anos meu maior medo era: adultos trabalham para sempre. A vida do adulto é dura. Eu não quero isso. Em seguida foi: o adulto é o homem que começou a morrer. A contagem regressiva começa nesse momento.
  O mundo moderno nos dá milhões de fugas para dentro de Neverland. Eu aceitei o convite.
  E a mulher nisso tudo? Ela passa a ser, e me dói dizer, mais um brinquedo. A chamamos para a festa, queremos brincar de ser namorado, de fazer sexo como nos filmes, de ter um grande amor. Quando elas percebem que aquele cara forte, bravo, maduro, decidido, está brincando de parecer adulto, e que ela É A PROVA DE QUE ELE CRESCEU, bem, nesse momento ela foge. A mulher, ter uma, se torna o objeto que prova ao mundo e a ele que o garoto virou homem. Virou?
   Assim como a briga com os mais velhos nunca foi maturidade, ter uma mulher é apenas uma ideia torta de ser GRANDE. Nas sociedades tribais voce não virava homem ao fazer sexo. Voce era primeiro um homem e depois fazia sexo. A mulher era um merecimento. A cereja do bolo. Agora ela é o caminho, a casa, todo o bolo e a cereja. Coitadinha. Coitadão.
   E agora vou parar por aqui porque cansei e vou dormir.

domingo, 15 de março de 2015

COMO SER UM HOMEM HOJE?

   Em Rastros de Ódio, o mitico filme de John Ford, Ethan, o personagem de John Wayne, parte em busca de uma menina que foi raptada pelos indios. Com ele vai um jovem mestiço e no filme vemos a transformação desse jovem em homem. O momento de sua transformação seria aquele em que ele se rebela contra Wayne. O filme, feito em 1956, coincide com esse que foi o ano do rock, o ano de Elvis. De repente, com a ajuda dos beats, se vendeu para a primeira geração americana criada em frente à TV, a ideia de que virar adulto era se rebelar contra os adultos. Estranho não? Ser adulto era brigar com um adulto, na maioria das vezes, o pai. As gerações seguintes aceitaram com alegria essa verdade. Essa nova verdade. Para ser um adulto voce tinha de enfrentar o mais velho e além disso criar um modo novo de ser. Voce tinha de nascer outra vez. 
   Nesse processo muitos afundaram, outros se perderam e ficaram brigando para sempre e a maioria simplesmente desistiu. Se para ser adulto eu tenho de ser brigão, rebelde, e ainda criar um novo EU, bem, eu prefiro ficar onde estou. Começou aí a infantilização. O jovem, que tinha de ser herói, entrega os pontos. As mães adoraram isso. Abriram os braços para aquele novo filho, um filho que queria ser novo para sempre. E o filho, perdido entre o dever da rebeldia e a incapacidade de se recriar, ficava num meio termo irritado. Vergonha e prazer. Vergonha de ter desistido, prazer pelo conforto. 
  Essa a minha hipótese. E mais uma vez sou obrigado a jogar a culpa sobre os teens do rock. Os hippies e etc. Vamos voltar ao filme. O jovem, papel de Jeffrey Hunter, amadurece ao se afirmar perante Wayne. Mas, e Ethan? O que ocorre com John Wayne? Ele parte porque odeia os indios. Quer na verdade se vingar. Encontrar a menina é secundário, ele quer o sangue. Mas ao encontrar a menina, agora crescida após anos de busca, Ethan faz o mais belo movimento da história do cinema ( segundo Godard e segundo este que vos fala ), ele a perdoa, a aconchega e a leva de volta para casa. Devolvida a menina à comunidade, o jovem que o acompanhou prestes a se casar, Ethan-Wayne parte. E temos o mais belo final de filme da história, Wayne na porta, indo, mas na verdade sem querer mais partir. John Wayne, e tinha de ser ele, mostra para quem quiser ver, o que significa ser adulto. Ethan começa imaturo e é ele aquele que realmente se transforma. Gosto de pensar que a partir dali ele encontrou uma mulher e foi viver numa cabana de madeira, onde criou dois filhos. 
  Escrevi mais de uma vez aqui que esse filme salvou minha vida. E que sempre que o revejo sinto meu pai próximo de mim. Fosse refeito hoje eu tenho a certeza que todo o foco seria no jovem e o personagem de Wayne seria secundário. 
  Agora falo sobre o cinema de 2015. Gostei da última entrega do Oscar. Mas uma coisa sempre me incomoda. A cada ano que passa os atores parecem mais e mais crianças. Pensava que era pelo fato de que a cada ano fico mais velho. Mas não. Eles são cada vez mais frágeis, delicados, vulneráveis, ou seja, infantis. Sua forma fisica e suas vozes combinam com os filmes que lhes são oferecidos. Filmes para crianças que brincam, sem saber, de ser adultos. Gosto muito, às vezes adoro, dos filmes de Tim Burton por exemplo. Como agora gosto dos filmes de Wes Anderson. São filmes bonitos, às vezes tristes, às vezes cômicos. E sempre profundamente infantis. O visual é o mesmo dos livros para crianças e eles têm uma imensa incapacidade de exibir relações entre homens e mulheres que não se pareça com um cartoon. Ou um conto de fadas. Isso não os desqualifica. São ótimos. E no caso dos dois, são honestos. Nenhum dos dois fica fazendo pose de adulto. São assumidamente infantis. E essa pode ser, eu não sei, uma característica adulta: assumir suas criancices. 
  O trágico é quando um filme infantil é visto como obra de um adulto. Não vou citar Lars Von Trier, um adolescente de 14 anos, embirrado, que brinca de chocar os pais.  O que devo dizer é que a maioria dos filmes de arte de agora são filmes de arte feitos por colegiais. Eles falam daquilo que teens conhecem, tristeza, solidão e raiva, e se perdem completamente quando falam do que teens não sabem, mas imaginam saber, amor, familia, trabalho, morte. Tudo é borrado com as cores de um adolescente egocêntrico que se imagina inteligente, culto e cheio de verdades a serem ditas. Nada é mais infantil que isso. Desse modo temos montes de filmes que brincam em ser Kubrick, Hitchcock ou Bergman. Mal sabem eles que nada foi menos infantil que Kubrick, Hitchcock e Bergman. Se soubessem de seus limites eles imitariam Bunuel, Fellini ou Welles, que foram gênios, mas que sempre mantiveram um pé na infantilidade. No caso dos três, consciente. 
   Preciso falar agora que quando Picasso diz que passou a vida lutando para voltar a ser criança, isso não significa que ele lutou para voltar a colecionar brinquedos ou a brincar de Batman. Como adulto, ele queria poder adentrar o mundo simbólico e sem palavras da criança. Era um adulto vendo o mundo infantil. Não pensem que Lewis Carroll ou James Barrie eram infantis. Walt Disney entendia as crianças. E por isso não poderia ser uma delas.
  Crianças odeiam ser crianças. Teens detestam não ser adultos. Só adultos infantilizados amam essa fase da vida. Ser criança é ter medo. Medo de ser abandonado. Medo de se perder na rua. Ser criança é estar sempre de olho em si-mesmo. Ligado na sua fome, sua sede, sua dor, seu desejo. Não existe o voce. Tudo é eu. O mundo mágico e lindo existe. Mas a criança não pensa nele, ela está dentro dele. É o adulto que percebe sua beleza quando já saiu dele. Ele é real. Tão real que na infância mal se percebe. Adolescentes são como crianças em quase tudo. Menos no contato com o voce. O voce existe e esse ser dá ao adolescente raiva, por ter invadido seu mundo, e desejo, por se parecer com uma porta. O adulto de 2015 muitas vezes fica na ansiedade dessa porta. Com a mão na maçaneta. Sem a abrir. E pode crer, eu sei do que falo.
   Ele usa bermudas. Fala montes de palavrões. Adora brincar. Nada parece muito sério. E é cheio de teorias adultas, verdades filosóficas. Vive mudando de metas. Viaja, experimenta, procura descobrir quem vai ser quando crescer. E tem 45 anos. 
   Mora com uma mulher. Mas não têm filhos. Quem sabe um dia. Moram juntos como quem brinca de casinha. Sem nenhum compromisso do mundo dos adultos. Sem filho, sem papel e sem casa comprada. Tudo provisório. Tudo de brincadeira. A palavra :: para sempre:: os apavora. 
   Não falarei do fim das cerimônias tribais. Dos atos que faziam do menino um adulto. Prefiro falar de duas que viraram brinquedo. 
   Meu irmão serviu o exército. E servir poderia ser um ato de virar adulto. Ele mudou, endureceu. Mas não ficou adulto. Por dois motivos. Primeiro porque servir é um ato sem significado algum. Ninguém mais fala que servir é virar homem. E o principal, voce sai de lá como entrou. O mundo não reconhece em voce um adulto, Na verdade te chama de azarado.
  O outro ato eu o cumpri. Entre católicos, aos 14 anos, voce é crismado. Crisma é o momento em que o menino, que foi batizado quando bebê, confirma a opção dos pais pelo Papa. É quando ele deve pensar na sua fé e a aceitar. Ou não. Eu a fiz como um zumbi. Não fazia a menor ideia do que era aquilo. E nem meus pais sabiam muito bem. 
  O limite do exército seria a guerra. E eu acho que nem a guerra hoje deixa de ter seu aspecto de brinquedo. E o passo após a crisma é o casamento na igreja. Cerimônia que hoje pode ser revertida em divórcio. O casamento é agora uma festinha de conto de fadas.
  A saúde da mente se exerce no equilibrio, impossível, entre o mundo sólido e o mundo interno. Toda dualidade deve ser aceita. Não podemos ser adultos absolutos, isso seria outra doença, mas ser adulto significa ser responsável por decisões, ser capaz de defender e abrigar pessoas, ser parte de uma comunidade que se aceita e não que se impõe. E ao mesmo tempo ter contato com esse mundo criativo e simbólico da infância. Mas sabendo que é o mundo DA infância, vivo e presente, mas nunca o único mundo possível e desejável.
   Nada  mais infantil que um filme de Tarantino, de quem eu também gosto. 
   Você consegue recordar um só casal adulto nos seus filmes? Há apenas um, Bruce Willis e Maria de Medeiros em Pulp Fiction. Ele cuida dela. Ela não é perfeita. Eles estão na cama apenas conversando. Um lapso na obra de Quentin, toda ela feita de mulheres gostosas e perigosas e de homens que falam como garotos na lanchonete da esquina. 
   Em um mundo de Homem de Ferro, onde Batman e James Bond são levados a sério e onde cada vez mais as bandas de rock se parecem com menininhos brincando no quarto,  ser adulto se tornou a maior e a única das rebeliões.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

DA MELANCOLIA

   A vida de um artista, digamos Rembrandt, digamos Dante, podia ser cheia de dramas, de tragédias até. Dor, desespero, lágrimas. Mas por volta de 1850 começa a surgir um novo sentimento entre artistas. Ele não tem a força tempestuosa da tragédia, e nem a teatralidade do drama derramado. É pequeno, quase mudo, discreto e por ser assim, persistente. Melancolia é seu nome.
  Pelo que sabemos, artistas não eram melancólicos. Mulheres podiam ser. Idosos provavelmente. Pensar num Goethe melancólico é quase impossível. Mas a partir do meio do século XIX, desse século vagabundo que insiste em nunca terminar, melancolia passou a quase ser sinonimo de artista. Porque? 
  Nesta excelente aula, com textos de Adorno, Benjamin, Oehler e Bergson, alguns dos quais discordo, e ainda com testemunhos de Baudelaire e Proust, analisamos o que seria essa tal melancolia, se ela ainda existe, e o que a fez nascer. 
  Vários motivos são listados. Um dos mais sedutores é o que a relaciona com a falência da revolução. É em 1848 que a ideia de revolução vai a falência ( será revivida em 1917, por pouco tempo ). Como consequência, temos gerações de revolucionários obrigados a conviver com ""o fim do sonho"", a salvação apenas no individualismo, e a auto-censura em relação ao sonho. Se misturarmos tudo damos com o melancólico, um ser que descrê do sonho, teme as ideias compartilhadas e vive preso em si mesmo. 
  Será?
  Me convence mais a ideia do "" novo mundo"", tão clara em Baudelaire, o primeiro homem moderno e não `a toa, o primeiro melancólico. Baudelaire em 1850 faz algo que para nós é infelizmente banal, mas para ele era novidade: anda pelas avenidas de Paris. Anda não como um turista, um trabalhador ou um cidadão, anda como um flanêur. Jogando fora suas defesas, desfilando vafarosamente, sem pressa e sem objetivo, Baudelaire percebe o que nos outros e em nós passa anestesiadamente. A anti-humanidade da vida em cidade. Ele anda em meio a gente que não conhece. Vê pessoas que são estranhas e que lhe serão estranhas para sempre. Vive na beira da possibilidade: aquela mulher que passa poderia ser um grande amor, ela olha seus olhos, ele olha os olhos dela, mas se vão...Obrigados pela cidade, nunca mais irão se ver. Baudelaire percebe que tudo na cidade NÃO remete ao novo, ao encontro, mas sim ao velho e à despedida. Tudo o que vemos, mesmo e principalmente o recém inaugurado, vive na beira da destruição. É um adeus sem fim: adeus voce que passa, adeus rua que muda, adeus casa demolida, adeus amigo que some no fluxo da avenida, adeus, adeus, adeus....Nada permanece, nada consegue se tornar familiar. O homem no bonde é um estranho. PELA PRIMEIRA VEZ convivemos intimamente com pessoas que nos são completamente desconhecidas. Pior, pessoas que desprezamos. Viver me metrópoles é ser obrigado a exercitar o desprezo. Daí a melancolia, se o DESPREZO não for aprendido, a MELANCOLIA torna-se constante. Viver dizendo adeus e lutar contra esse adeus, eis o artista. Eis o melancólico.
  Para mim essa formulação é inquestionável por espelhar o meu sentimento perante a vida. E outra conclusão baudelairiana é a de que a melancolia se torna uma resistência invencível. O melancólico é aquele que desafia, que desanda a marcha, que vê o não-natural naquilo que parece certo. É preciso falar do choque.
  A cidade nos dá constantes choques. Ruídos, cores, riscos, medos, possibilidades, surpresas. Nossa mente não aceita choques facilmente. Choques são sempre ameaças. Algumas boas ameaças, mas sempre um choque. Na multidão, na super excitação, somos obrigados a viver como anestesiados. Ignorar os choques, mal percebe-los. O melancólico, que estranho, que parece o mais ausente dentre todos, é exatamente aquele que mais os sente. E que, falho em suas defesas, não consegue ignorar. Ele sente o ruído. Vê as ameaças. E como reação, defende o antídoto. 
  Sentirei falta dessas aulas...

terça-feira, 25 de novembro de 2014

SOBRE SENTIMENTOS E A SOMBRA- JUNG

  Eu estava na Cultura e então um livrinho surge em meu caminho. Um sinal? Não posso o ignorar. Pois eu estava lá para comprar, talvez, uma biografia ou um livro de viagens. Andando por essas sessões eis que deslocado estava esse livreto. Alguém pegou em outro andar e o deixou jogado em meio aos best-sellers. SOBRE SENTIMENTO E A SOMBRA de Carl Gustav Jung. Apenas 75 páginas. Capa preta, novo, a transcrição de 3 conversas que Jung teve, informais, em sua casa na Suiça, já ao fim da vida. A última conversa, eu vejo, foi feita no dia 29 de maio, o dia em que nasci. Well....como não comprar esse bilhete jogado em meu caminho? Ainda mais quando leio na capa de trás: """Viver é perigoso, e caso não seja, a vida não valeu a pena"". Caramba! Isso é Jung ou é algum astro do rock? Compro.
  Isso é Jung, um ato intercalado no absurdo da vida. Sentido dentro do acaso. Deus nas entrelinhas. Logo leio, no dia seguinte, um belo domingo, "" Não recuse o que se depara com voce na estrada. Aceite."" Omessa!
  Jung ao fim da vida não fala mais como um médico, fala como um avô sábio. O centro do livro é a seguinte constatação: "" Não pode haver bem sem o mal. O bem sem o mal seria a morte, a não-vida. Viver é pecar. O pecado é necessário para que se encontre o bem. Sem o pecado e o perdão não se encontra Deus. Um homem sem pecado não é humano."" Mas Jung evita habilmente dizer se Deus existe. Ele existe como ideia, como ente histórico, como causador da nossa sociedade, como força central dentro de nós. Nesse sentido, Ele é tão real como o amor, o pecado, a história ou a arte. Existe em nossa mente, e a questão é, Há algo no Universo que não existe como verdade em nossa mente?
  Interessante a afirmação de Jung, a de que todo deprimido ou melancólico é alguém que pecou pouco. A solução, claro que nuca definitiva, para a tristeza é: pecar mais, pecar muito. E depois se redimir.
  Há também toda uma conversa maravilhosa sobre antropologia, em que ele conta dos primitivos da Austrália, que ao perder a libido se recuperam através de todo um ritual com talismãs e totens. A libido sendo transferida para um objeto e sendo recuperada no trato com esse depósito do desejo.
 A maior parte das conversas sendo sobre Cristo e cristianismo, os erros da igreja e a questão central em que se tenta entender o que seja Humano e o que seja Divino. Aí surge a questão da sombra e de como não lidar com ela.
  75 páginas com a voz de um mestre ao preço de 20 reais. Tá de graça!

quarta-feira, 25 de junho de 2014

PSICOLOGIA E ALQUIMIA- CARL GUSTAV JUNG, NEM TANTO EXOTÉRICO ASSIM...

     Quando nossa razão se depara com alguma coisa irracional o medo nasce. E se essa irrazão não for logo domesticada e diminuída, para caber dentro de alguma gaveta classificatória, o medo vira pavor. Para lidar com a falta de razão da vida, alguns criam toda uma filosofia, outros mergulham numa religião e há quem se arvore dono da verdade última. O absurdo é que nossa inteligência tem limites óbvios e a vida escapa.
     Para lidar com o irracional Freud inventou toda uma rede de teorias e de postulados sem nenhuma chance de verificação empírica. Sua dificuldade em aceitar a validade da fé fez com que ele desse o nome de ciência a algo que nada tem de científico, antes sendo uma igreja. A psicanálise só pode funcionar se o paciente tiver fé na teoria e no pastor. Deverá se agarrar aos dois como um crente confia em seu pastor. Vendo de fora, nada prova a existência de complexo de Ëdipo, castração ou transferência. Espero que os doutores tenham desenvolvido e ido muito além da dupla Freud-Lacan. Do modo como eles postularam a coisa é pura vaidade pseudo-científica.
    O mesmo acontece com Jung. Sua teoria irá agradar a quem tiver a pré-disposição de o aceitar. Meu espírito ama o artístico, para esse tipo de gosto, Jung cai melhor que Freud, que nada entendia de criatividade. Mas nada no que ele escreve pode ser provado, então se dá o mesmo, tudo passa a ser uma questão de fé. Talvez a vantagem sobre Freud é que para Jung fé não é um palavrão. A fé é positiva, real, e pode ser considerada em igualdade com a ciência. O melhor em Jung é que ele nunca nega o óbvio, que seja, Deus existe, mesmo sendo uma criação maravilhosa da mente universal. Deus deve então ser sempre considerado, seja na mente, nos costumes e na história. O cristianismo formou a nossa sociedade, o modo como damos valor as coisas, o modo como agimos e como percebemos a vida. Formou nossa sociedade em termos ideais, pois o paganismo sempre irrompe como a grande força visceral do homem.
   Mas há um problema nisso tudo: o cristianismo jamais venceu o paganismo. Ser cristão sempre foi um ideal distante e a igreja, sabendo disso, da impossibilidade de se tornar cristão, espertamente, fez dois movimentos: simplificou e humanizou o cristianismo, e principalmente adaptou o impulso pagão a fé cristã.
   O livro, árduo, pois Jung, e ele sabia disso, escreve mal, Freud é muito melhor escritor, postula que dentro de nosso ser existe esse inconsciente pagão. Simplificando Jung, eu diria que é como se houvesse uma zona escura, no centro de nós, onde o fato de eu ser Paulo, brasileiro, vivendo em 2014, nada importa. Essa zona negra, inconsciente geral e universal, igual em todos nós desde sempre e para sempre, não reconhece tempo e espaço. Nela o eu nada é. O conflito se faz aí: um eu que luta para ser racional, educado e ter um ser-si-mesmo, e o inconsciente, escuro, insondável e que irrompe em momentos de extremo pavor. Ou de fulgurante encanto.
   Jung criou essa bela teoria observando símbolos comuns a todos os seres e todas as épocas. Costumes que se repetem, atos que se fazem sem um porque. Escrito antes da segunda-guerra, a teoria alcançaria popularidade máxima no pós-guerra. O nazismo, pagão e escuro, é a confirmação da teoria. Ou não.
   E a alquimia nisso?
   Alguns homens, antes filósofos, hoje artistas ou cientistas, sentem a proximidade do inconsciente. Vivem quase na fronteira. Para tentar entender o que os aflige, eles procuram penetrar e compreender essa área de sua alma. Alguns, talvez Blake, Dante, Picasso, conseguem entrar nessa região e retornar. Atente ao fato que não há como compartilhar essa experiência. Como falar de um mundo além do verbo?
   Os alquimistas eram homens que tentavam encontrar a chave do inconsciente via ação manual, ambiente e trabalho árduo. Misturando sangue e mercúrio, fervendo e destilando, lendo e lendo e lendo, mergulhando cada vez mais em seu inconsciente, eles acabavam por ter visões: a transformação do chumbo em ouro, a visita de um unicórnio, um anjo, o elixir da luz escura. Por volta de 1700 a razão divide a mente humana: de um lado a ciência e de outro a irrazão. A alquimia passa a ser chalatanismo, magia para se ganhar dinheiro. ( Algo parecido com aquilo que se tornou a astrologia antes e a igreja agora ).
   Recordo que aos 7 anos meu brinquedo favorito era um estojo de quimica. Eu me trancava no porão de casa e ficava todo o dia misturando cores. Vendo vapores. Sentindo cheiros. Meio tonto, a grande viagem da brincadeira não era tentar fazer aquilo que vinha no folheto de receitas do brinquedo, mas sim crer que seria possível criar um monstro, uma explosão ou uma coisa NOVA. Nesse movimento de mãos, mente e criatividade minha mente se deixava aumentar e a viagem começava: para dentro, sempre para dentro, em meu porão.
   É isso. É mais ou menos isso.

sábado, 26 de abril de 2014

ABANDONE-SE HOJE

   Eu já lera isso ( em Nietzsche, em Agee ) e volto a ler a mesma ideia em Chesterton. A ideia de que o homem tem se tornado cada vez mais frio, contido, reprimido, inumano. Já tenho algumas décadas de memória para contar e devo dizer que o mundo que vi em 1975 ou em 1985 é bastante mais quente que aquele que agora vejo.
 Cada pensador dá sua opinião sobre o porque dessa transformação gradual, mudança que tem feito das pessoas ilhas de indiferença. Para Chesterton o problema é da própria mudança. Uma época que ama a mudança em si-mesma não consegue lutar ou dar valor a nada. Mudar se torna rotina e mudam-se os objetivos, os ideais. Mudar a meta é mais fácil que a alcançar. Derrubam-se totens, a vontade se desfaz e o homem se torna indiferente. Mudar todo o tempo vira rotina. Tudo muda todo o tempo para que nada se construa. 
 Inclusive relações ou arte. Como tudo vai mudar, e assim sabemos que tudo será destruído, para que construir algo de realmente bom, eterno, perdurável ? Se sabemos que o amor não é eterno, para que amar ? Para Chesterton, o primeiro passo para a felicidade do homem ( e ela é possível, aliás, mais que possível, ela existe aqui ), é retomar o conceito de eternidade. E com ela reavivar a moral. Existem coisas que são eternas SIM. E com essa eternidade vive uma moral que é imutável. 
 Um erro repercute para sempre. Um crime será punido com completa reciprocidade. A bondade mora na verdade e a verdade é real e eterna. O amor dá acesso a vida sem fim onde tudo é maior e melhor. A violência é um mal sem nada que o redima. E o principal: Somos todos nós um campo infinito onde se dá a luta sem fim entre o bem e o mal. E, como seres donos de liberdade e de missão escolhida, devemos lutar essa luta. Honrar a vida. 
 Se todo esse modo de pensar parece medieval é porque tudo de mais profundo e imutável que possuímos é medieval. Amamos como homens da idade do romance, cremos como homens de fé, lutamos por um pouco de honra e justiça e sentimos os pavores dos pastores e lavradores de então. Ou, se todo esse mundo agoniza ( é o que observo ) temos a missão, sublime, de defender seus últimos, e derrotados, testemunhos. 
 O coração perdeu. A razão dogmática nos faz crer que o coração é o menos confiável dos orgãos por ser simplesmente o menos controlado. E o que menos aceita dogmas que o reduzem a nada mais que músculo e sangue. Bilis secou.
 Não mais a ira divina, não mais a vingança maligna. Nunca mais iremos morrer por uma ideia. A paixão que move a vida ou a dor que faz com que a vida se revigore. Não mais o mistério. E se voce é cego ao mistério, creia-me, o tédio irá lhe matar. Gota a gota.
 Se um amigo é apenas um contato, se a arte é apenas um evento e se a criatividade nada mais pode ser que uma distração futil, a vida terá o valor da futilidade. Será nada mais que o tic tac de um relógio.
 Vá além. Enlouqueça. E cometa os piores vexames. Seja infantil como todos são e temem parecer. Exiba sua originalidade. Mesmo que ela seja burra. Ame e fale que esse amor é pra sempre. Mas acima de tudo, jogue seu cinismo no lixo e com ele seu egozinho. Confunda-se com a vida. Rasteje. Rasgue. Sangre. E beije. Perca a vaidade de nunca se ajoelhar. Ajoelhe-se. Admita que alguém sabe o que voce nunca irá saber. Apequene-se. E se abandone. E então encontre. 
 É isso.

sábado, 12 de abril de 2014

EROTISMO, ALLAN BLOOM, ROUSSEAU

   Voce pode fazer uma pesquisa e divulgar os dados de quantas trepadas a população dá em média por mês. Voce pode até mesmo tabular quem teve orgasmo. Quem é hetero, gay e bi. Mas voce não tem como perguntar ou responder NADA sobre o erotismo. Sexo se aplica a pesquisa científica, erotismo nunca. Porque sexo pode ser reduzido ao ato sexual. Erotismo é o que?
  No mundo da ditadura cientifica, o sexo, como tudo o mais, é reduzido. A ciência trabalha com quantidades e com medidas, o sexo pode ser simplificado ao máximo e reduzido ao que se pode medir e contar matematicamente. O erotismo não. Na verdade, no mundo da ciência, Eros nem sequer existe.
  O relatório Kinsey começou o trabalho de morte do erotismo. O sexo foi colocado a luz e tudo se reduziu ao comum. Todos passaram a pensar em ser como todos. Se vinte por cento são assim, eu também posso ser assim. Mais, o homem jogou o erotismo no lixo e passou a seguir a massa: saudável é ter cinco orgasmos? Eu os terei !
  Freud nos brochou antes. Pensou que criatividade fosse sublimação, quando na verdade criatividade é ser humano. Sublimação é palavra criada por Rousseau e seu sentido vem de sublime. Sublime é o ato, apenas e tão somente humano, de se tomar um ato físico ou uma coisa e torná-la sublime, mais do que aquilo que ela é na natureza. É quando o homem se apropria de algo natural e o torna humano. Seja dando contornos de deus ao mar, sendo fazendo de mármore uma obra de arte ou transformando uma necessidade física, como o sexo, em algo sublime, o erotismo.
  Nosso tempo vive o capítulo final deserotização do homem. Mulheres esqueléticas ou bombadas, homens meninos ou frágeis demais. Pornografia. Aulas de sexo seguro. O orgasmo discutido com a mãe no café da manhã. Esquecemos que o sexo nivela os homens aos bichos, e que o erotismo nos define.
   O bicho trepa. Com qualquer fêmea. O homem imagina. Pensa ser aquela mulher a única. A única que poderá lhe dar prazer verdadeiro. E para ela, ele cria música, poema e luta para ser mais sedutor. Ao contrário dos bichos, o gozo passa a ser secundário, toda a história é um grande prazer. Ele imagina e a imaginação é o homem. 
   Rousseau antecipa o amor burguês. O amor viria a ser um contrato. Muito mais próximo de um advogado que de um poeta. Ele sabia que Eros era questão de amor-próprio. Que o homem vivia pelos olhos dos outros, que o amor-próprio dependia do que ele pensa que os outros pensam de si. E que no erotismo o homem joga com aquilo que ele imagina que ela seja e aquilo que ele imagina que ela sente por ele. Politica enfim. Rousseau sabia que quando a politica morresse o erotismo iria junto. ( Hoje politica é pornografia. Há quanto tempo não se ouve um discurso que signifique alguma coisa? ). 
   Sedução é dar espaço a que o outro imagine algo sobre nós.
   ( Há quanto voce não vê um belo beijo em um filme? ).
   Animais vivem no amor -por-si. Amor por sobreviver e sem levar em conta a opinião dos outros sobre ele. Um cachorro não pensa no que a cadela acha ou sente sobre ele. Nós sim. Até quando? 
   Nossos mestres em amor são cantores de funk. Ou intelectuais que nada sabem sobre Eros. Sabem apenas teorias reducionistas que mecanizam tudo. Como faz a pornografia. 
   O amor deve ser ensinado por aquele que ama. Simples assim. Pelos seres eróticos, pelos grandes amantes, pelos sedutores. 
   PS- Não à toa o melhor livro sobre erotismo que já li foi escrito por Frank Sinatra.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

O HOMEM DO MACHADO

   Depois do calor africano a tribo conheceu a Era Glacial. E tiveram de se unir ainda mais em cavernas e cabanas de pele de rena. Impacientes com o frio que não passava, castigados pelo vento, sentiram então, 50000 anos atrás, um novo impulso. No escuro do inverno sem fim, na nostalgia do sol, no sono temperado por fome, no medo e na insegurança, o impulso de criar surgiu. O desespero podia ser mitigado pela representação daquilo que se precisa e não se encontra. A mão usa a pedra e no osso do mamute faz nascer uma rena. A mão se amplia e na parede pinta o verão. A fala acompanha a mão, foi a mão que deu voz ao pensamento, fazendo o homem canta e fala, ensina, consola. No osso do mamute se guarda aquele dia terrível. Aquele dia que viu nascer o milagre: consolando e aliviando esse homem nos deu sua vida. 50000 anos depois, no fim da Era Glacial, nós ainda sabemos dele. O maior desejo daquele Herói anônimo agora acontece: Chega de gelo!
   Muito tempo antes ( Há um milhão de anos ).
   No luxo de verde sem fim, entre feras e presas, frutas que exalavam perfume por milhas e milhas além, um insignificante número de homens vaga atrás de comida. A vida sendo somente o ato de coletar e tentar vencer a fome que dura desde o nascimento até a morte. Uma vida com fome. Mas acontece um outro milagre: Um dentre eles pega uma pedra e a esculpe. Bate pedra contra pedra e afia e faz uma ferramenta. Um machado. Ele corta a carne, corta a madeira, esfola a pele, mata o inimigo. Quem ele foi? Porque ele o fez? Jamais teremos como saber o porque de um entre tantos executar esse ato definitivo. Porque os outros continuaram macacos? Mas não é disso que desejo falar. O que me importa é a razão, essa voz que só tem paz quando encontra uma ordem naquilo que não tem porque. E que inventa coisas na vã tentativa de ordenar e dar respostas ao que nunca se saberá. Foi a carne que desenvolveu nosso cérebro? Dê carne a um orangotango por meio milhão de anos e ele será apenas um macaco mais forte. E assassino. Tristes tentativas de resposta da razão.
   Daquela tribo, nossos pais africanos, um foi caçador, um ficava observando a vida, um era louco, outro mandava, um era tarado, um foi o mais idiota. Houve o nervoso, o sonhador, o mau. E um criou o machado. Somos filhos deles, eles vivem dentro de nós. A imensidão da savana nos seduz, o escuro das cavernas frias nos faz sonhar. O medo é nosso irmão, o terror de ser caça nos faz avançar. Andamos, precisamos andar, é nosso mais forte instinto, quem não anda morre de fome, de sede, é pego por uma fera. E quando somos obrigados  a parar de nos mover, no gelo, na neve, sonhamos e criamos mundos. Dentro do escuro. A sina humana: dentro e fora, consciente e inconsciente, sonho e sol.
  O homem do machado foi o maior de nossos heróis.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

O QUE É A BELEZA

   Pessoas infelizes perdem o senso de beleza. A tristeza pode ser bonita, mas a infelicidade não consegue reconhecer esse fato. Algum psicólogo deveria estudar isso. A capacidade de perceber o que é belo pode salvar uma vida. Mais que isso, salvar um povo.
  Pintores são os divulgadores daquilo que seu tempo pode ver. Se Giotto pintava a pureza de anjos em paredes de igrejas pobres, isso se devia a capacidade de seu tempo em perceber anjos em cada manhã. E se Monet via movimento e cor como tudo que existe no mundo, era porque seu tempo tomava a consciência de que tudo era velocidade e fugacidade. Os artistas percebem antes. O Zé da esquina só notou isso 50 anos mais tarde. Cézanne lutou contra isso. Sua obra é uma tentativa de parar o que se move. 
  Pollock viu que tudo é uma energia nervosa e que na verdade a vida é desfeita. Um ato aleatório que espiritualmente faz sentido, mas esse sentido nos escapa. O Zé só começa a perceber isso agora, sessenta anos depois. Warhol viu nos supermercados nossa nova igreja e nosso museu. Acertou na mosca. Mesmo que hoje a arte pareça esquecida, sua mediocridade é ainda testemunho relevante da futura hiper-mediocridade dos Zés. 
  Porque o artista percebe antes. Bowie brincou em 1972 de artista Pop e em 2014 todos são Bowie ( produzidos, calculados, frios, profissionais, atores ). Assim como Welles percebeu antes que o cinema era arte do ego do diretor e Shakespeare sentiu que a escrita podia ser um campo de guerra entre o eu e o anti-eu.
  A beleza se faz em todos eles. Sem o maravilhamento, mesmo que brega, mesmo que rápido, não se faz nada que permaneça. O que mais nos deixa aturdidos é quando percebemos a beleza da tragédia. 
  O senso do belo, sei disso com absoluta certeza, nasce na infância. E não por se crescer em lugar bonito, ou ter a sorte de ser feliz e amado. Mas quando temos tempo para ver. Na infância, quando deixados em paz, entregues a nós mesmos, vemos um mundo inteiro numa tarde de marasmo, intuimos a poesia numa manhã de calor, criamos uma lenda entre pedras e panos velhos. Cheiros, cores, ruídos, tudo é novo e tudo se fixa em mente vazia e virgem. Se não somos perturbados por horários, barulho e pressão, criamos a certeza da beleza. Ela se afirma e existe para o resto da vida.
  Em Sochi, nesta Olimpíada de Inverno, vive beleza para quem a conhece. Uma suiça que desce em seu snowboard e erra tudo. O rosto com um olhar que é mais triste que morrer. Os olhos não conseguem ver, ela vira a face para o chão, a boca se contrái, os cabelos parecem dizer: Eu errei. Eis a beleza se dando para ser notada por quem a conhece.
  Foi John Keats quem falou que uma coisa bela é uma alegria que dura para sempre. Mais que isso. Uma coisa bela nos faz viver para sempre.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

SAGA DOS VOLSUNGOS- SAGAS ISLANDESAS.

   Feira de Livros da USP. Não ia desde 1999. Melhorou muito e valeu muito a pena! Rocco e Companhia das Letras não foram. Mas eu comprei 12 livros! Nos meus cálculos, em preços da Cultura, teria gasto mais de mil e quinhentos reais. Na Feira gastei 400. Comprei livros de luxo. Um com fotos de SP no século XIX. A bio de Matisse. Um livro com fotos de Doisneau. O livro escrito por Capa, com imagens raras. O recém lançado livro sobre o glitter rock. A bio de Bergman com intro de Woody Allen. A bio de Pete Townshend. E mais Chaucer, Marlowe, um livro catalão Tirant Lo Blanc, um álbum de Snoopy, Guerra e Paz em capa dura, um sobre decoração, e ainda este livro, sobre sagas medievais da Islândia.
   Porque Islândia? Na introdução de Théo de Borba Moosburger, fico sabendo que a Islândia ocupa um lugar privilegiado na história do romance europeu. Primeiro, foi o país que antes de qualquer outro escreveu em língua própria e não em latim; e segundo, escreveu em prosa e não em verso. Tolkien adorava essas sagas e muito de sua obra vem daqui. Do que trata? Da fundação da ilha islandesa, de seus primeiros reis e heróis. Um mundo que nos é quase incompreensível.
   A primeira coisa que salta aos olhos: A ausência de clemência ou de piedade. Matar é coisa absolutamente corriqueira. Mata-se por que se gosta de matar, pois para se poder ir para o céu dos vikings era preciso morrer em luta. Morrer de doença ou velhice era ir para o reino de Hel, o inferno, morrer lutando era ir para Asgard, onde se podia lutar mais. Pois a vida era isso, uma briga sem fim. Sangue e vísceras. Um homem vivia pela espada, por sua familia e por seu rei.
   Não posso nem discutir sobre sua coragem. Em barcos pequenos eles chegaram a Groenlandia e até a América!!! Eles eram mais que corajosos, não tinham noção alguma de preservação da vida. Tinham muitos medos, mas ao contrário de nós, seus medos não se ligavam a morte ou a dor. O maior medo era a desonra, ter o nome sujo, ser um fraco. Dor fisica e morte eram nada.
   Algumas cenas espantam. Além de assassinatos sem culpa ( e não falo de guerra, as mortes eram em simples passeios na floresta ), o reino começa com um filho que é fruto de um casamento entre irmão e irmã. Sem qualquer culpa, a irmã seduz o irmão e têm um filho que será um rei e um herói.
   Dragões, bruxas, adivinhações, tudo entra nessa saga como fato normal, conhecido, cotidiano. É um mundo pré-cristão e não-greco-judaico, é o mundo da mais pura raiz européia ( nos esquecemos sempre que Atenas e Judéia, Pérsia e Egito são reinos orientais. A Europa pura é a celta, ou seja, a dos vikings, suevos, francos, saxões, íberos ). Uma sociedade familiar, voltada para a guerra e para a magia.
   O estilo da escrita, sem qualquer adaptação, traduzida a crú, é rústica. As coisas são narradas de modo direto. Nada de descrições, nada de ambiente, nada de clima. É ação e mais ação. Briga e mais briga, viagem e mais viagem, mortandade sobre mortandade.
   Anti-europeus gostam de falar que a Europa e sua cultura são violentas, a mais violenta do mundo. Não sei. A China nunca foi um mar de rosas e Maias ou Incas estraçalhavam os inimigos sem dó. Talvez a velha cultura judaica, os cartagineses e os hindús tenham sido menos cruéis. Talvez. Mas nos choca muito ver um massacre inutil de crianças e mulheres ser louvado como ato heróico, o que ocorre todo o tempo aqui. Para passar o tempo, o herói vai a uma cidade para "saquear e matar um pouco".
   Jung estudava muito essas histórias medievais e via nelas a raiz de sonhos e de sintomas. Se ele estiver certo, chega a ser aterrador a imensa carga de violência que temos em nosso sangue. Porque neste mundo, o grande, o supremo prazer é o de matar. Se assim for, nosso mundo cristão e pós-cristão cometeu uma obra ainda maior do que eu pensava. A substituição da guerra pela convivência e do sangue pela fé. Mas o guerreiro, o doido e sem freio assassino, o irrefletido e puro impulso, o vaidoso e inconsequente está lá, está cá e está em todo canto. Desse duro ponto de vista, um moleque briguento e ladrão está muito mais perto da verdade humana que um dinamarquês hiper-civilizado e do bem. Não a toa o alto indice de suicidio na Suécia, o reino dos vikings tendo se transformado no país da paz e da sociedade justa.
   É um livro dificil.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

A CAVERNA, O SÍMBOLO, O LIVRO

   Uma experiência verdadeira, profunda, transformadora é petrificada em forma de igreja. Se voce quer viver uma profunda experiência religiosa não a procure dentro de uma igreja. Porque começo este texto dizendo isto?
    Não vivemos para comer ou para procriar. Vivemos para ser. O mais antigo testemunho de um ser que pode ser chamado de humano nos mostra: Um longo labirinto escuro e aterrador. Após rastejar, se machucar, ter medo eis que conseguimos chegar ao núcleo: as pinturas na caverna! O centro da montanha. Esse é o símbolo primordial daquilo que somos. Dentro de nós, em nosso escuro interior vive o infinito. A psique em sua totalidade. Onde não existe tempo, espaço ou fim. Aquilo que só eu posso ser. Mas para chegar até esse âmago a coisa dói. Como dói!
   A teoria de Jung é básicamente otimista. Daí sua desvantagem. Nosso tempo é profundamente pessimista. Em Jung tudo tende para a luz. Nosso self, centro mental, não é bom ou ruim, ele é natural. E tem poder de dar vida. Quanto mais longe desse self mais entediados, sem ideias, morto. O contato com o self dá vida. A vontade de viver mora lá.
   Otimismo. Não existem pessoas iguais. Para encontrar o self cada um tem seu modo, seu caminho. Cada louco tem uma loucura única. Cada medicamento age a seu modo particular. A busca pelo self é busca por vida. Essa é a raiz de toda religião. E da arte, religião dos ateus. A busca por transcendência que se dá a cada um a seu modo. Por isso ser impossível uma tese psicológica única. Em sua originalidade cada ser deve mergulhar em sua gruta e encontrar seu centro. Como? Geralmente pela dor. Pela crise. Pela solidão.
   No mundo moderno, sem simbolos verdadeiros, sem ritos que ajudem, sem lendas e sem silêncio, onde tudo se pensa e o discurso interior nunca cessa, encontrar o self se faz quase impossível. O mal de agora é o excesso de controle, de razão, de porques.
   A luz da razão a vida nunca vale a pena. Lutamos para acabar no túmulo. E ser esquecidos. O que nos faz prosseguir é essa força tênue e distante que promete "algo a mais". Pode ser chamada de Deus, duende, anjo, xamã, fé, esperança, missão, consciência...não importa. Está dentro da mente, existe em nós e ao redor ( pois influencia tudo o que podemos perceber ). A razão a teme. Porque ela pede por humildade. A humildade de saber que a razão não é senhora da vida. E que nosso pobre ego precisa do self para continuar a viver.
   Criatividade, o encontro com essa vida nova sempre se dá pela criatividade. Pela ousadia original. Ser o que voce tem de ser. Como saber? Como entender a mensagem daquilo que não tem lingua racional? Lendo com atenção os sinais, as pistas.
    Fomos animais. Fomos irracionais. A razão surge e evolui para podermos sobreviver na luta pela vida. Adaptamos nosso cérebro à técnica, a comunicação, ao pensamento linear e claro. Simples. Mas aquilo que fomos não morre. Está aqui. Em mim. Em nós. Ancestralidade. Instinto. A voz da natureza em mim.
    Duas correntes no século XX. Gente que viveu essa experiência ( Borges, Hesse, Kazantzakis, Yeats, Camus, Rilke, Jung, Mann, Kandinski, Klee ) e gente que nunca a quis escutar. Tenho certeza que Paulo Coelho, por exemplo, viveu uma experiência significativa, mas, mal escritor que é, nunca conseguiu transmitir nada dessa experiência. Então uma multidão de pessoas que sentem esse anseio e mal sabem o que seja vão atrás dele. E nada encontram. Elas têm de escrever seu próprio "Diário de um Mago" e não pegar de barato esse relato de quinta categoria.
    Bem, escrevi aqui apenas um breve testemunho. O livro, a derradeira tentativa de Jung de escrever simples, tem muito, muito mais. De certa forma tudo que escrevo está lá exibido.
   

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O CEPTICISMO ( ASSIM, COM P )

   Cresci como cético. E essa descrença foi tâo forte que marcou meu rosto. Minha face é cética, minha expressão transparece ironia. Tenho enormes dificuldades em convencer mulheres de meu amor.
    Jamais acreditei em Papai Noel. E com oito anos já desconfiava da alma ou da existência do céu. Cresci, e na adolescência eu não acreditava na vida. Tudo acabava em morte e então nada tinha valor. Pra que isso se tudo termina em nada? Passei vinte anos nessa absoluta certeza.
    Mas eu sobrevivi, porque para viver precisamos de ajuda. Usei a arte. Sentia orgulho de meu niilismo. Acreditava em heróis. Homens que viveram em calmo desespero, esses eram meus heróis. Gauguin, Picasso, Heminguay, Tolstoi...músicos de jazz...
    Ao ficar mais adulto comecei a procurar teorias que me fizessem entender a vida. Budismo ( a corrente de reencarnações explica tudo! ), Freud ( o instinto sexual explica a vida ! ), Darwin ( somos bichos e a biologia é nossa sina! ), Jung ( tudo é tão complicado que nada podemos saber )... Mas, cético ao extremo, logo percebia que todos eles dependiam de fé, fé que nunca tive. Voce precisava jogar fora a dúvida e acreditar num sistema arbitrário. Como? Crer em reencarnação é como fazer uma aposta. Nada pode provar seu resultado. Crer no Édipo de Freud é ignorar que nosso instinto básico é a fome. O bebê ama a mãe porque ela tem seios cheios de leite. O pai não. Isso é tão óbvio! Darwin nos obriga a acreditar num poder de transformação que chega ao ponto da magia. E Jung não consegue consolar ninguém porque ele próprio se perde em dúvidas. ( Na verdade Jung é o anti-Freud. Um era tão neurótico que via em tudo o horror do sexo, o outro era tão doido que via  na vida alucinações ).
   No meu extremo ceticismo eu duvidava. Só podia aceitar aquilo que eu-mesmo vivenciara, ou seja, quase nada. Então, quando me deparei com a morte, momento que tudo define e desnuda sua cara, algo aconteceu. Passei a desacreditar de minha própria descrença. Cheguei ao paradoxo: Cético em relação aos céticos.
   Se nada há para se crer, e mesmo assim tudo continua a ser inexplicável, então tudo pode ser válido, tudo pode ser verdade. Acho que foi Bergson que formulou isso: Ou voce descrê de tudo ( e nesse tudo entra até a ciência e a razão ), ou voce crê em tudo ( e nesse tudo entra a ciência e a magia ). O meio termo é sempre tolice, abrir um olho e fechar o outro, tatear.
   Hoje não posso dizer que creio em tudo. Mas a princípio nada condeno. Minha vivência e minha inteligência são limitadas, o que posso pretender saber?
    A única certeza que tenho é a de que ninguém sabe coisa alguma sobre as questões mais importantes. O que conhecemos é aquilo que cabe em nossa pequena e assustada mente. Vemos, sentimos, e pouco compreendemos. Respeito então os darwinistas, freudianos, junguianos, budistas ou ateus radicais. Todos precisam de algum sistema, de algum tipo de explicação PARA AQUILO QUE OS ATERRORIZA. Todos precisam negar o que os assusta e crer naquilo que os consola. Como eu.
   Na pequenez redutora diante da imensa verdade da morte, eu me vi como sou e entendi o porque da necessidade da humildade. Saber que nada se sabe e se deixar nas mãos da vida.
   PS: Claro que continuo aqui divagando sobre meus conhecimentos de cinema, livros, quadros, filosofias, poesia e coisas assim. Sei um pouco dessas coisas. Mas tenho a consciência de que tudo isso é apenas brincadeira, coisas de criança, sonhos ou ilusões bacanas. A vida, a verdade, o estar-aqui e o estar-sempre são coisas bem além de tudo isso.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

O DESESPERO HUMANO ( DOENÇA ATÉ A MORTE )- SOREN KIERKEGAARD

   Antes de falar especificamente sobre esta obra, vale frisar das diferenças cruciais entre Hegel e Kierkegaard, diferenças que dividiram toda a filosofia que veio após seu tempo. O básico é que Hegel acredita na história como coisa universal e ignora o eu. Para o alemão, a história nos faz ser aquilo que somos. Nossas vontades e nosso atos são consequência do nosso momento histórico. O eu pode ser pensado como uma ilusão. Não é preciso ser filósofo para perceber que isso vai dar no marxismo.
   Kierkegaard pensa de forma oposta. O eu é tudo. Estamos presos dentro da dialética que constitui o eu. Esse eu é tudo o que temos e tudo aquilo que podemos experimentar. Porque é para esse eu que sempre olhamos. Como consequência, SOMOS RESPONSÁVEIS POR TUDO O QUE FAZEMOS. Nós escolhemos ser o que somos, desejar aquilo que desejamos e sofrer o que sofremos. Quem lembrar do existencialismo está mais que certo.
   Kierkegaard escolheu e nunca culpou nada ou ninguém. Se sua vida foi sofrida, ele jamais se lamentou. Com seu eu ele fez aquilo que escolheu fazer. Após uma infância de riquesa material e de estudos impostos pelo pai ( com quem nunca rompeu ), ele escolheu uma juventude de prazeres e hedonismo e ao romper com sua noiva, mergulhou no isolamento e na reflexão. Tudo o que ele escreveu foi sentido na carne. Ele escolheu ser seu laboratório vivo. Claro é que isso dá um caráter personalista a sua filosofia. Mas é exatamente isso que o dinamarquês fala, ele diz que cada um experimenta sua própria experiência de eu. Ela é comum a todos nós, mas é COMPLETAMENTE INCOMUNICÁVEL E INTRANSFERÍVEL.
   Falo agora deste livro acima anunciado.
   Ler Soren Kierkegaard nunca é fácil. Ele exige de nós três coisas que nem todos podem querer usar. Comprometimento, disposição ao sofrimento e sinceridade. Todas essas três coisas em relação a si-mesmo. Sua filosofia opta pela vida para dentro e jamais para o mundo. Porque?
   Porque sofremos. Nascemos para envelhecer e daí para morrer. Normalmente estamos doentes ou iremos ficar doentes. Mas vem então a grande sacada do dinamarquês: Toda doença da carne, em homem ou em bicho, tende ao fim. Ela se extingue por si-mesma. Nela habita seu final, seja a cura ou seja a morte. A morte cessa a dor da carne. Mas não a dor do espírito.
   Porque não existe morte para o desespero. Não morremos de desespero. Podemos nos matar, mas isso não o extinguirá pois no ato de morrer por essa via o desespero continuará vivo até o fim. Isso, para ele, é o que mais nos diferencia dos bichos, esse desespero que é uma doença sem CAUSA E SEM FIM. SEM CURA PORTANTO.
   Kierkegaard diz que esse desespero está latente em todo humano. Ele pode ser disparado por um amor que acaba, pelo tédio ou pela doença da carne, mas na verdade o desespero existencial está presente desde sempre. É nossa condição de vida humana. Inescapável. Ou quase isso.
   Mas o que é esse desespero?
   Existiriam dois modos de se desesperar. E primeiro é preciso falar do eu.
   Só temos consciência de nosso eu ao olhar para ele. E esse eu é sempre coisa viva, dialética entre aquilo que se é e aquilo que se deseja ser. Nasce então o desespero. O desespero de se querer DEIXAR DE SER O EU ou A VONTADE VORAZ DE SER OUTRO. E saber, humanamente saber, que sempre se vai ser EU e que nunca, por mais que se deseje, será OUTRO. ( E penso que é um absurdo que um psicólogo sério não leia Kierkegaard ).
   Para ele, sómente humanos sofrem dessa doença sem solução. Mal insolúvel que de certo modo dignifica nossa condição de "ser à parte", "ser responsável" e de ser "em construção". Para ele, esse desespero é a chave para se entender o que seja ser uma pessoa, ser vivo, ser um homem espiritual.
  Vale aqui dizer que muitos negam essa doença e a vivem em forma de tédio e de vazio absoluto. Fogem do desespero pela religião do prazer, pelos sentidos exaltados. Prazeres que morrem e não podem ser vividos novamente. Efêmeros. Morte que se faz a cada gole e a cada trago.
   O desespero que é de todos, é assumido pelo homem em transição. Vem daí a teoria da religião de Kierkegaard, teoria que afirma que só a profunda experiência religiosa pode salvar o homem do desespero. Não entrarei nesse tema. Não é o tema deste livro e o próprio filósofo diz que a verdadeira experiência espiritual não pode ser comunicada em linguagem dos homens. Eu compactuo disso. Voce consegue falar de Deus quando voce procura por Ele. Ou quando O nega. Se voce O conhece é inutil e impossível falar.
   Segundo Kiekegaard, existindo a vida do espírito, toda doença da carne cessa com a morte e deixa de se fazer presente na vida eterna. O desespero permanece. Terrível não? Imaginar que todo o nosso desconforto possa ser "para sempre". É uma conclusão lógica já que se trata de uma dor da alma.
   Para concluir, pois isto é apenas um tipo de fofoca superficial que faço, ele me surpreende ao afirmar que a fonte do medo do homem jamais foi a certeza da morte. Foi sempre o não poder morrer. A dor da carne tem na morte seu fim. A dor da alma, que é o desespero, não aceita a morte. Cada segundo de desespero é uma eternidade. Sentimento que vem do nada, se faz presente e apaga o futuro. Dor que não leva à morte.
   Se tanto os homens primitivos como os homens de hoje encontram na religião a certeza do alivio das dores da carne e das fomes da vida, elas não podem prometer e não prometem, a cura do desespero na outra vida.
   Esse fado humano, essa sina, tem de ser vivida. Aqui- agora e também depois- além.
   A raiz de Kiekegaard, esse filósofo do terrível, se confunde então com a raiz do cristianismo. A vida é dor porque este reino é feito de carência. Jamais seremos completos. Suportar e não se lamentar. Confiar e ajudar. E jamais se esquecer.
   Viver com Dor. Ser gente enfim.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

QUANDO UM TEXTO MUDOU UM SÉCULO....A VONTADE DE SENTIR, POR SCHILLER

    Vick-Vaporub, começo este texto com esse nome. Logo direi porque. Digo agora então que o texto de Friedrich Schiller, aula de estética, é um dos melhores e mais comoventes testemunhos que li em minha vida. Durante as 3 horas da aula eu fiquei profundamente comovido. Alguém em 1795 havia falado TUDO AQUILO QUE EU SINTO, BUSCO, SOFRO, DESEJO. 
   A professora deixa claro, o texto do alemão genial, melhor amigo de Goethe, contemporâneo de Schelling, Kant, Beethoven, Schubert e Holderlin, mudou o século. Poucas páginas que modificaram todo o mundo ocidental. Lembremos, a época de Schiller é o tempo em que o livro é rei único. Nunca antes ou depois se levou um escritor e sua obra tão a sério. Era um mundo da palavra, do discurso, da pena. Mas é hora de resumir. Do que trata a tão capital obra? 
   Falemos então do sublime...e não pense que esse assunto se restringe a poetas e músicos. Ele é o maior desejo de todos.  Já mostro como e porque.
   No mundo grego o sublime era valor cotidiano. O sentimento sublime era vivenciado na cidade em jogos, na arte e nas festas. Para eles, a função da arte era dar ao homem essa experiência. Por toda a história européia esse desejo permaneceu, às vezes em maior evidência ( idade média e renascimento ), às vezes quase extinto ( era iluminista e século XX ). Schiller ao escrever seu texto rompe com essa tradição iluminista anti-sublime. Demonstra o mecanismo do sublime, sua diferença do belo e prova que onde ele mais se encontra não é na arte mas sim na natureza.  O universo está impregnado do sublime, nossa razão é que o evita. Porque? 
   Primeiro porque ele é súbito e não programado. Segundo porque ele quase aniquila a razão ( mas nunca o eu ). 
  Nosso eu tem como maior desejo seu crescimento. Queremos ser maiores, mais inteiros, livres. Ser livre é ser maior, crescer sem amarras, sem tempo e sem espaço. O belo nos contenta, faz com que nos sintamos em paz com nosso eu, satisfeitos e em equilíbrio. O belo faz com que nos sintamos nobres. O sublime vai além disso. O sublime nos dá medo. O sublime nos desafia a enfrentar a vida. Diante do sublime nos encolhemos, nos apequenamos. Sentimos nosso eu em grave perigo. Vemos o que preferíamos não ver. Nos desequilibramos. Fosse só isso não haveria motivo algum para irmos atrás do sublime. Mas após o horror vem o prazer. Por vencermos o medo, sentimos nosso eu crescer, se fortalecer, prevalecer. No sublime o terrível se torna belo, a vida vence a morte, o medo é destruído pela vitória. O sublime nos move pois aumenta nossa percepção da vida. 
   Aqui faço uma pausa: Liotard e toda a intelectualidade de Paris postula o sublime como única saída possível para a arte em crise de nosso tempo. Para eles, só a volta do sublime poderá fazer a arte voltar a ser relevante e viva.
   A tese de Schiller tem uma história. Antes dele Joseph Addison já dizia que a "imaginação ama ser preenchida por algo que a força a ir além de seus limites".  Nossa mente ama a contemplação do mar, das montanhas, do céu, de tudo que signifique espaço aberto, força, poder, liberdade enfim. Sentimos atração pelo que é maior que nós e nos força a ir mais longe.
  Schiller pega essa tese e a reforça. Amamos o mar. A montanha e o céu. Mas, mais que o mar, amamos o mar tempestuoso, terrível, em vagalhões. Mais que a montanha amamos a avalanche, o vulcão, a tempestade de neve, e mais que o céu, amamos o raio, a chuva, as estrelas que caem. É o sublime, o perigo que ameaça e ao qual vencemos. 
  Edmund Burke antes de Schiller falará em beleza positiva e negativa. Positiva sendo pequena, doce, delicada. Negativa sendo grande, escuro e ácido. 
  Entra na história Immanuel Kant...."O modo como nos relacionamos com o mundo é ditado por nossas faculdades."  Ou seja, o sublime mora na natureza e como somos parte da natureza, mora em nós. Para Kant, o que importa não é o sublime fora de nós, mas sim "o modo como olhamos o sublime, o processo entre o olhar e o sentir."
  Porque certas pessoas, pobres desafortunadas, passam pela vida sem um só momento sublime? A resposta se encontra no tempo. É preciso tempo para se olhar, é necessária uma vida contemplativa, é primordial a experiência cotidiana do belo, é fundamental a educação dos sentidos e dos apetites. Saber ver, saber ouvir e saber ser livre. Mais Kant:
  "Veja: A obra de arte ( verdadeira ) é sem conceito, livre, jogo puramente estético. Imaginação em harmonia com a razão. A imaginação criando e a razão construindo. Nada aqui é conceitual ou lógico. O que se joga é o prazer. A arte é sempre um prazer."  
  Kant ainda afirma que a arte é universal, pois é como se qualquer um pudesse ser atingido pelo jogo. "Como se" é diferente de "é". Necessário um conhecimento para se fazer parte do jogo, o conhecimento do belo e a vivência da liberdade.  O belo nos coloca em harmonia conosco-mesmo, estimula nossa vida, vivifica nosso desejo de estar vivo.
  Voltando a Schiller:
  Se o belo nos harmoniza, o sublime nos coloca em conflito. No sublime a razão entra em guerra com a imaginação. O que é criado não se completa na razão, antes a desafia. A dor da desarmonia é o primeiro sentimento do sublime. 
  Nascem então dois tipos de sublime:
  O matemático e o dinâmico.
  O matemático tem a ver com tamanho e proporção. Diante do muito grande a imaginação sente sua impotência. Não consegue o apreender. A razão força a imaginação a se superar. Podemos então superar nossa própria imaginação. Surgem as ideias supra-sensíveis: Liberdade, Deus, Infinito.
  Só na arte o ser humano pode ser livre. Pois é na arte que todas as categorias lógicas são plenamente usadas, ou seja, o ser transcendental e o ser do conhecimento. Na arte vamos além do mundo sensível, além do conhecido e além do animal. Chegamos a plena liberdade.
  O sublime dinâmico lida com o movimento interno que nasce no sublime. Diante da força vital sentimos medo. Medo diante do que é forte demais, vivo demais. Dinâmico demais. Nossa vitória começa ao reconhecermos nossa ínfima pequenez diante dessa força. Ao mesmo tempo resistimos e aí começa nosso prazer. Nesse sublime sabemos todo o tempo sermos fracos e pequenos, mas resistimos e assim vencemos.  Vencemos porque possuímos nossa razão-moral. Razão-moral que é a liberdade. Liberdade por estarmos além do plano animal, por podermos resistir moralmente a nossos instintos, a nosso medos. O prazer vem do distanciamento diante da ameaça.

  Para Schiller, o desenvolvimento estético possibilita a liberdade. Dá a possibilidade da escolha moral. Aprendemos a usar nossas faculdades além do mundo da experiência. Nos tornamos mais do que aquilo que somos.

  Esse texto caiu como uma bomba. Por pouco mais de cem anos a busca pelo sublime ditou o comportamento de todo jovem. Viagens de aventura, experiências com sexo e com drogas, arte pela arte, andarilhos, voluntários em revoluções....A busca pelo sublime não tinha fim e se morria sublimemente. Acima de tudo o amor. A dor que causa prazer= sublime= amor.

  Vick-Vaporub. Em ano de absoluta solidão, sofrendo de asma e cheio de Vick no peito, eu lia, com insônia, ouvindo o vento do inverno de 1977 bater na janela. Ainda quase criança, descobria o desespero de Kafka e de Dostoievskie e amava a Jeanne, menina triste que se foi logo. Cercado pelo cheiro de Vick, nas sombras de meu quarto gelado, eu lia e sofria....e tinha um estranho prazer. Uma sensação de proibido, de perigo, de doença misturada com sensualismo, de vida real tingida por além da vida. Eu crescia, me expandia, ia além, e sofria. Sublime. Não foi belo, foi sublime.
  Como sublime foram meus amores exagerados, como sublime é toda vez que olho para a Serra do Mar: me sinto pequeno e então me sinto grande...pequeno e grande, pequeno e grande, medo e prazer, encolhimento e liberdade.

  Nosso mundo sem tempo e sem o culto do belo desprepara todos nós para a possibilidade do sublime. Pior ainda, quando ele se aproxima paramos assustados no medo e NÃO OUSAMOS IR ALÉM DELE. Ah.....Mas amamos o sublime mesmo sem o saber! O procuramos ao saltar de para-quedas, ao cheirar coca, ao chorar num show de Neil Young ao amar a menina "errada". Lemos poesia, mergulhamos no Caribe, bebemos até cair, tudo em busca desse momento de sublime, dessa queda para cima, dessa morte que dá vida. 

  Crescendo cercado de patos e coelhos, com ruas de barro e lagos limpos, cercado de primas e de pratarias e porcelanas, meu senso de belo foi despertado, meu desejo pelo sublime conhecido e reconhecido. 
  Não tenho feito outra coisa além de procurar esse momento. 
  Que às vezes vem num pote de Vick-Vaporub. Ou no mar ao amanhecer em dia gelado. Numa melodia do Roxy Music ( For Your Pleasure é o sublime no rock ), numa calçada diante da janela da menina amada.
  Na minha única fé verdadeira: A vida vale a pena por ser sublime. E é só isso que me move.

quarta-feira, 20 de março de 2013

O ARCO E A LIRA- OCTÁVIO PAZ, O SIGNIFICADO DA VIDA

   Paz fala do que seria a poesia. Mas ao falar de poesia ele fala do poético. E poético é arte poética mas principalmente vida não racional. A vida é apenas razão? Se fosse apenas isso a Suécia seria o paraíso na Terra. Basta voce ver um filme suéco. Não é um paraíso. É um buraco. A Suécia exemplifica a armadilha da razão: A falta de sentido. É estranho isso! Sem a boa compreensão das forças irracionais, sem a sabedoria de se unir a razão à irrazão, o que resta na vida é o não-sentido. Psiquiatras agradecem. 
   Nosso mundo irracional tem três grandes forças: Amor, Religião e Poesia. Nada há de racional em nenhuma das três, e todas nascem da mesma fonte. A tragédia da modernidade é a de tentar eliminar ou racionalizar as três irrazões. O amor racional não pode ser amor. Se torna tédio, comodismo ou pior, sexo sem compromisso. A religião domesticada se faz politica. Pior que isso, uma farsa. A poesia racional anda em circulos. O poeta, envergonhado de sua irrazão, de sua "tolice", passa a vida analisando a poesia. Procura se justificar. Tenta fazer poesia util, verdadeira, científica. Se perde.
   Porque existem essas irrazões? A pergunta é outra: Porque existe a razão? O que ela nos dá de realmente feliz? Vida sem transformação não é vida. A vida é um tentar ser alguma coisa maior. Vivemos para tentar viver. Somos um nada a procura de Ser. Isso é o que nos define: Um ser em construção. Construção que nunca poderá terminar, se definir, ter um alvo. A razão não suporta indefinições. Ela precisa de clareza, de certezas. Uma pessoa muito racional ao se deparar com o incerto opta até mesmo pela morte. Ela não aceita o "não tem porque e não há explicação". O estado de desequilíbrio lhe e´insuportável por colocar em cheque suas crenças. A crença única no porque, na clara EXPLICAÇÃO. Causa e efeito, fora disso, a morte.
   No amor não existe causa e efeito. Como não há na religião ou na poesia. Porque? Não sei. Como? Não importa. No reino dessas verdades a única coisa que vale é a experiência transcendental, o "É". Para a razão é incompreensível. Logo, inexistente.
   A poesia luta por fazer a palavra voltar a ter sentido. Tenta, e muitas vezes consegue, fazer da palavra uma nova vida. Dar cor, sabor às palavras. Trazer o insuspeito à vida, já que vida é texto. A poesia tem o compromisso de tirar do leitor a certeza, fermentar dúvida, crise, fazê-lo caminhar. A grande poesia nos esvazia e em seguida nos prepara. Faz com que sejamos mais "eu mesmo". Um eu que logo se desvanece. Transcende. 
   Poesia contra técnica.
   Na técnica a palavra, como a vida, é humilhada. Assim como na prosa. O material vira uma coisa só. Perde sua pluralidade natural. Se torna útil. Assim, madeira é parte da árvore. Madeira será cadeira, porta ou lenha. E estará presa apenas a isso. Para sempre. No mundo poético, madeira pode ser um ser vivo. Ou uma canção. Madeira pode ser uma cor. Pode ser uma pista. Um enigma. Veja: Na vida da técnica, o homem é um bicho que pensa. Teia de células e de desejo, ele crescerá, decairá e morrerá. No universo poético o homem é um zilhão de possibilidades. De filho de deuses a vilão diabólico, de nada absoluto a louco vadio, de robot danado a estrela cadente, na poesia o homem é livre, é irrespondível e indefinido. Para sempre.
   Dante Alighieri era livre. Recebia inspiração e a traduzia em palavras. Nada fazia com que ele duvidasse dela. Aceito por todos, o poeta era um cidadão "útil", o homem que eternizava o momento, que cantava a vida. A partir da tomada de poder burguesa os valores se invertem. O burguês despreza o aristocrata. Vê neles o supra-sumo da inutilidade. Aristocratas não trabalham, não produzem riqueza, não suam e labutam no dia a dia. Pior, aristocratas vêem no burguês um tolo, um feio, um absurdo. Poetas são aristocratas. Poetas acreditam em destino, em inspiração. Poetas desprezam o tempo, o lugar, a produção contada e pesada. No mundo do valor que se vende, poetas são párias, vagabundos, inuteis. 
   Baudelaire é um maldito então. Onde Dante era um privilegiado, Shelley ou Rimbaud são bandidos. O poeta passa a brigar com sua inspiração. Tenta torná-la razão, fazer dela coisa util, coisa chã. Analisa a poesia, analisa seu ato, passa a chamar sua arte de TRABALHO. Nasce a bobagem de "90% transpiração"... Tudo para tentar ser aceito pelo burguês, pelo mundo da técnica, da venda, o mundo sem religião ( com igrejas ), e sem amor ( com sexo ). No lugar da poesia, prosa, muita prosa.
   A questão do livro é: Vale a pena viver sem o Sobrenatural? Um mundo feito apenas de razão, vale a pena? Paz nunca é ingênuo. Ele sabe que jamais voltaremos ao mundo de Dante. O Sobrenatural era um fato tão corriqueiro quanto respirar ou comer. Hoje precisamos lutar para fazê-lo existir. Se precisamos pensar e lembrar do Sobrenatural, isso mostra que ele não é mais cotidiano, foi banido e exilado. ( Tentamos lembrar dele em drogas, filmes fantásticos, aventuras arriscadas, visões do espaço mais distante ). Mas a questão é: Valeu a pena renegar o Sobrenatural?
   O que de maior e melhor pode ser obtido pela técnica e pela razão? Fácil responder: a vida eterna. Apaixonada por si-mesma, pelo EU, o único sonho da razão é não deixar de existir. Todo o desenvolvimento da técnica se reduz a isso, vencer a morte. A razão tem como único fim a sobrevivência de si-mesma. Pois a razão se volta "para dentro", conhece apenas aquilo que reflete o seu próprio ser. 
   O que existe de mais negativo para o eu-mesmo que o amor? Que a religião? Ou a poesia? 
   No amor nos damos ao outro e nos sacrificamos por ele. Na religião admitimos nada ser, nada poder e nada saber. E na poesia nos perdemos em simbolos, visões e sensações, saímos de dentro de nós e nos misturamos ao todo. Saiba ( E sei por experiência própria, sou hiper centrado ), a razão abomina se dar, ser humilde ou se deixar perder.
   Sempre desconfiei de pessoas que não toleram poesia. Este livro, magnífico, mostra porque.
   

segunda-feira, 18 de março de 2013

SINATRA, INCONSCIENTE, LINGUA E MEUS BISAVÔS

   Felicidade é dirigir segunda-feira com Sinatra no som. Aristocrata da voz, dicção perfeita, suas frases se modulam como ritmo e como harmonia. A voz se sacode. E meu carro desliza entre carros que ouvem noticias ( que são sempre as mesmas ) e cds ( que são sempre os mesmos ). Sinatra na segunda é ser mais.
   Cientistas vasculharam todo o cérebro e alardeiam: Não encontramos o inconsciente. Tudo é mecanismo consciente. O cérebro reage a fatos "conscientemente", aquilo que não faz parte da intenção não existe. Weeellll...cientistas não entenderam que o inconsciente é uma questão de fé. Ele nunca será encontrado fisicamente, assim como jamais se achará o lugar da "alma". Humanidades, seja poesia, psicologia ou filosofia, lidam com possibilidades, com aquilo que pode ser, ou não. Não são ciências porque, como diz Henri Bergson, lidam com o movimento, com o ser e deixar de ser, com aquilo que era e não é mais. A ciência só lida com um momento congelado no tempo, com partículas, frações. Jamais acharão a alma porque ela é um movimento incessante, uma dinâmica. O trágico é quando uma humanidade deseja se fazer ciência. Ela se trai, admite sua pequenês e deixa de ver o processo. Passa a congelar seu saber, deixa de mudar, de evoluir. Nunca se faz ciência de fato, se faz coisa morta.
   Conversando com um amigo falamos da ancestralidade. Um dos modos de se reequilibrar ( se é que isso existe ), é reconciliar sua ancestralidade dentro de si. Ir em busca das raízes-vivas, forças que pulsam dentro de voce. As vozes que falam de onde voce veio. Um dos grandes erros da modernidade é essa crença na rebelião contra a origem. Quem disse que ser adulto é negar sua origem? Porque? Ora, o desinteresse por ancestralidade tem a mesma raiz do desinteresse por estética ou pela poesia. Burgueses odiavam tudo o que era aristocrático. Burgueses desconhecem sua linhagem, sua ancestralidade. Assim como eles abominam a poesia por não a compreender e ridicularizam a estética por desconfiar do próprio gosto, eles criaram o desprezo pelos antepassados por terem vergonha de suas raízes. Mas assim como sentimos o amor  poéticamente e ansiamos pelo que é belo estéticamente, vivemos a verdade daquilo que é nossa origem. Negar tudo isso, esconder sua raiz é negar sua profundidade.
   Voce aprende linguística no primeiro ano para depois saber que a sintaxe nega mais da metade daquilo que os linguistas postulam. Isso é humanidades.
   Sim, as fissuras em meu cérebro aumentam com minhas leituras. Ok. É um fato. Mas o que desejo saber é: Que processo transforma pensamento em palavra? E que via faz de uma palavra uma ranhura? Quero saber da coisa acontecendo e não das conclusões sobre o processo encerrado ( que serão desmentidas em dez anos ). 
   Minha professora quase diz que a linguagem nasce como cheiro. Sonho de todo poeta: Fazer de seu texto um perfume.
   Valeu.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

PEDRO JUAN GUTIÉRREZ, HANEKE, VERMEER E LUCY

   Então Haneke disse que usa seus filmes para dar um soco no estômago de seu público? Diz ele que seu povinho só reage a base de socos...Well....É por isso que estou fora desse clubinho. Não quero que me soquem e não preciso de socos para reagir. Sou daqueles que ainda possuem sensibilidade fina. Ainda sei o que significa estética, beleza e ironia. Não preciso do soco. A visão da mão e a consciência de meu estômago já me bastam. Seu cinema é publicitário. Ele entope seus fãs com produtos: socos no estômago. Coisas do tipo: hey! A vida é um lixo! Somos especiais por sabermos disso!
   Minha resposta a esse cinema fake: Blá!
   Um amigo afirma que sou contra psicólogos, filósofos e sociólogos. A priori não sou. Apenas penso que eles são hiper-valorizados. Por eles mesmos! Desconfio de quem vomita certezas. Tenho amigos psicólogos. Admiro aqueles que botam a mão na lama. E duvidam de tudo. Filósofos são boçais quando apenas brincam com palavras. Só creio em filosofias de vida. Sociologia jamais!
   Dá pra resumir tudo assim: Se o sujeito engoliu um dogma sem o desafiar tem meu desprezo. Se ele foi à vida verificar o dogma, bem, aí começamos a nos entender. Frases feitas, mesmo as "profundas", never!
  Vermeer criou cor. Todos nós, e mesmo os artistas apenas "bons", passam pela vida sem criar nada de novo. Os excelentes apenas misturam coisas que já existiam. Gênios como Vermeer são como um deus. Criam alguma coisa nova a partir do inexistente. Milagres.
  O tom daquela pele só existe em Vermeer. 300 anos podem se passar, aquela pele continuará a ser irrepetível. A dobra do tecido é obra da mão de Vermeer. Nenhum outro poderá repetir aquela dobra. Mais do que tudo, esse quadro vive. Vive por falar comigo ( o que aqui escrevo veio de uma conversa com a obra ), ele influencia, escuta, muda ao passar do tempo e se reproduz. O Vermeer que vejo não é aquele que voce vê. Eles são vários.
   Pedro Juan Gutierrez. Releio O Ninho da Serpente. Falam que ele lembra Bukowski. Sei lá. Pedro é latino. Ele tem prazer com o sexo. É sempre uma festa. E Pedro não é niilista. Ele crê em vudu, em olho-gordo, em macumba. No mundo de Pedro tudo é questão de destino. Voce tem sorte ou não. Gosto dele...Durante trinta páginas. A partir dái me entedia. Merda, bundas, pinga e fome. Tudo se repete sem parar. A voz do cara é boa. Ele pensa fundo e pensa bem.
   Pedro Juan morreria de tédio na Avenida Paulista.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

O DOGMA É UMA DROGA

   Houve um tempo em que as pessoas acreditavam que o fim da repressão sexual faria da vida uma coisa simples e feliz. Que todas as depressões e melancolias iriam embora e que os impulsos de violência sumiriam. Não é o que acontece.
   Mas voce pode se aferrar ao dogma e falar que o sexo é livre, mas que a maldita religião nos deu tanta culpa que não conseguimos nos livrar dela. Não somos felizes porque nos sentimos culpados.
   Infantilidade absoluta. Uma das caracteíristicas da mente infantil é jogar a culpa sempre no mais velho. Eu sou assim por culpa de meu pai. Somos infelizes por culpa da velha tradição religiosa. Esse é o tal raciocinio infantil reducionista. Voce cria duas certezas ( que dependem da fé em as aceitar ) e as repete como um mantra mágico. Para voce será uma solução. Não é uma solução, é uma cegueira.
   A infelicidade de um homem independe de vida sexual ou religiosa. O homem é feliz quando ele consegue viver a vida para a qual foi formado para viver. Quanto mais longe ele estiver dessa vida mais infeliz ele será. A repressão do século XIX que tanto fazia mal, não era apenas a repressão sexual. A dor que sentimos hoje não é mera culpa ou vazio. É muito simplório falar de culpa ou de vazio e fingir que alguma coisa foi respondida. A dor, seja no século XIX ou agora, sempre nasce da falta de liberdade, e essa liberdade não é a de se fazer sexo ou a de poder ir e vir. Essa liberdade é a liberdade de ser.
   Ser aquilo que voce é. Nada é mais dificil e proibido. Os costumes sociais, a familia, a moda, a falta de tempo, o trabalho, a politica, tudo contribui para o não-ser. Para voce se achar é primordial a solidão absoluta. É necessária a luta com o meio e o mergulho em seu universo. Diálogo entre voce e voce sem a intermediação de nada que não seja voce. Em nosso mundo hiper-comunicativo ( e portanto solitário ), mergulhar em si-mesmo parece coisa de egoista ou de esquizofrenico. Mas é apenas nesse mergulho que o crescimento ocorre e que a solidão diminui. Antes de se relacionar com alguém voce deve se relacionar com voce-mesmo. Sem isso, tudo fica num encontro de máscara com máscara.
   Não há modo mais garantido de NÂO conseguir se encontrar que sendo membro de uma igreja. Ou de um partido. Ou de uma associação de filosofia ou psicologia. A partir do momento em que voce diz "Amém" para algum dogma voce se perde daquilo que voce poderia ser. O menos religioso dos homens é o que segue uma religião. A busca fica reduzida a soluções simples que dependem de se aceitar uma verdade estabelecida pelo costume. E o mesmo vale para dogmas politicos, existenciais ou o que for. Aceitar uma verdade não vivida dentro de quem a aceita, mas apenas porque deve ser assim, ou o costume diz isso, ou meu meio social é assim, ou é bacana pensar desse jeito, é sempre uma mordaça para a fala. Pior, é um modo de não-ser.
   A vida é muito complicada. Não creia em quem divulga explicações. E creia, às vezes a coisa é tão simples que se torna inaceitável.
   Nada do que escrevo aqui é por "ter sido ensinado". Tudo o que falo foi profundamente vivido e visto por mim. Se pareço confuso é porque eu sou confuso. Se às vezes falo como ateu e às vezes como o mais carola dos franciscanos é porque eu sou essa contradição. Não por  moda ou por ter me convencido intelectualmente de uma verdade. Mas sim por ter vivido as duas condições. Sei da facilidade cômoda e produtiva da crença ateia, e conheço a terrível profundidade da experiência religiosa significativa. Conheço o prazer do sexo e conheço a euforia da descoberta de uma fé. Sei o que é transcendência e até mesmo epifania. Não por ter lido, mas por ter tido a experiência.
   Se creio no Daimon interior não é por amar a Grécia clássica como a amo. É o contrário: por ter o Daimon é que amo a Grécia. Nada pode entrar em mim que já não viva lá.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

VIVER É NÃO FAZER COISA NENHUMA ( UM CAFÉ COM YVES DE LA TAILLE )

   Amo tanto a vida que chega a dar tristeza. Porque sei que não estarei aqui para sempre. Mas não amo a vida pelas coisas que faço. De tudo o que fiz de nada sentirei falta. Amo o que há na vida. Por exemplo.
   Enquanto escrevo um galo canta longe. Isso me dói de saudade antecipada. Morrer e não ter mais galos. Sei também que a Lua viaja lá em cima. E sei que vou vê-la daqui a pouco. E da Lua sentirei uma falta que vai doer. É dessas coisas que sentirei falta e são essas coisas que eu amo. Uma poça de água, as nuvens rosadas do fim da tarde, o olhar de um cão, o bando de maritacas gritando nas árvores, cemitérios de manhã cedo e gente saindo da igreja. O barulho da chuva, o cheiro de terra molhada, as árvores numa tarde de frio, neblina e abelhas voando. O mar e o cheiro de um corpo de mulher... A vida.
   Mas há quem ame a vida por aquilo que fez nela. Vai sentir falta de certas festas, certas viagens, certas noites. OK. Mas essa não é minha praia. A vida não é o que voce faz dela ou com ela, a vida é saber apreciar sua passagem.
   Finalmente um Café Filosófico que valeu alguma coisa. O psicólogo Yves de La Taille fala sobre a vida. E para isso ele aborda a educação. Mais ainda, ele levanta a teoria de Bauman. Qual teoria? A que nos pergunta: Voce e a vida de agora, ela é um ato de turismo ou um ato de peregrinação ?
   Não se fala de viagem. Mais que isso, o que se diz é de postura na vida, modo de estar na existência. Então reformulo, voce vive dia a dia como um turista ou como um peregrino?
   Ambos estão de passagem e em movimento. Pois a vida é passagem e é mover-se. Mas as semelhanças são apenas essas. Senão vejamos...
   O turista não se interessa pelo caminho. Ele quer chegar rápido. Tem um objetivo, o lugar onde ele vai se divertir. Ou descançar. Ou se educar. Não importa, o caminho é um obstáculo a ser vencido.
   O turista não tem tempo a perder. E ele tem objetivos. Mesmo que esse objetivo seja apenas o descanço. Há algo de concreto a ser ganho, um plano, um itinerário.
   O lugar onde o turista vai é "charmoso". E ele ansia por contar aos outros o que lá fez. Há uma "informação" para ser dividida.
   O peregrino valoriza o caminho. E esse caminho deve ser longo. A estrada é observada, saboreada, vivida. Ela é a rota. Mas essa rota pode ser mudada ao sabor do acaso. Ou melhor, pela intuição. A peregrinação nada tem de racional, ela desperdiça tempo, ela se guia por motivos vagos, e nada tem de divertida.
   O peregrino mal sabe o que significa diversão. O que o move é a "fé". Ele tem a esperança de se encontar no caminho, de crescer, de ter uma iluminação. O objetivo é mero pretexto, o que ele quer é um caminho sem final.
   Esse peregrino nada tem a informar. Os amigos pensarão que ele jogou tempo fora. O lugar não é charmoso. Se ele puder falar dirá uma narração e não uma informação. 
   O turista viaja para continuar sendo e ganhar, o peregrino quer deixar de ser e vislumbrar.
   O mundo moderno é dos turistas. Todos temos a certeza de estar de passagem. E nessa passagem nos divertimos sem parar um minuto. Contradição: Nunca fomos tão pessimistas, encaramos a vida como mero acidente, um caminho árduo e sem graça, e então, assustados,  tentamos nos distrair, nos divertir.
   A diversão como bem maior só é prioridade em sociedades que perderam a fé na vida.  Onde nada faz sentido tudo é tédio e onde tudo é tédio só existem duas opções: se divertir ou morrer. E nesse mundo se voce não se diverte, voce só pode estar morto.
   Ócio.
   O ócio é uma arte  e era ensinado na Grécia. Saber nada fazer. Ficar dias, semanas sem fazer coisa alguma e ser feliz assim. Apenas observar, mais que isso, aprender a contemplar.
   Existem religiões que dizem que toda a sabedoria está na contemplação.
   Isso ainda existe?
   Meu conflito nunca foi de mim com eu-mesmo. Sempre foi de eu e o meio/tempo.
   Sou um contemplativo, mas vivo em tempo que martela em minha mente que isso é errado. Tempo em que até o descanço deve servir para algum bem.
   Mas e se eu falar que a vida melhor vivida é aquela que é contemplada? Que só essa vale a pena? Fazer é perda de tempo, viver é não fazer. Olhar o tempo se escoar em contemplação de pensamentos e de coisas "imperecíveis". Porque nada é mais futil, perecível e enganoso que a diversão, o prazer que se esvai, a ação pela ação. Isso é viver de fato? Agir e agir e agir e agir....
   Eu amo o galo que canta. Não amaria criar galos ou comer galos ou estudar galos. Quero ouvir e ver o galo que canta.
   Yves fala de um belo sintoma que exemplifica a falência de nossa sociedade:
   Quando seu pai ( e posso dizer que eu mesmo cheguei a viver isso onde nasci ), quando seu pai andava de noite sózinho, numa rua escura, ele sentia medo. Daí quando ele ouvia passos de alguém vindo em sua direção ele sentia alegria e alivio. Alguém vem vindo, que bom!
    Hoje se voce estiver só numa rua deserta, de noite, e ouvir os passos de um estranho vindo em sua direção, o que vai sentir? Medo. O que isso quer dizer? Que antes a vinda de um homem era uma boa nova. Havia a confiança na moral desse homem, em sua virtude. Agora, o que sentimos é a desconfiança desse homem, a certeza de que todo homem é imoral e nada virtuoso.  Eis a falência do mundo.
    Precisamos de mais peregrinos, de gente que saiba olhar o caminho. De gente que consiga ser ociosa.
    Eu sou um peregrino que vive em mundo de hotéis, spas e informações vazias. E sinto pena por ter perdido o maravilhoso dom ocioso que eu tinha.
    Como era bom saber não fazer nada e se sentir feliz por isso!!!