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quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

O USO DA POESIA E O USO DA CRÍTICA - T.S. ELIOT

   Este livro nos apresenta um série de palestras feitas por Eliot em Harvard, entre 1932-1933. Dryden é o primeiro poeta-crítico de quem ele fala. O que Eliot procura é investigar as definições e as utilidades antes dadas ao que seja poesia. No fim, a conclusão é de que não pode haver homogeneidade no que seja escrever ou ler poesia, mas se pode retirar alguns mitos, e é aí que mora o melhor do texto.
  O poeta é influenciado pelo meio e pela memória, e talvez toda criação nasça da lembrança, da reelaboração de memórias soltas. Mas, para lermos e para entender poesia é preciso NÃO procurar encontrar o sentido o que se lê e não ler com o mapa da vida do poeta em mãos. Ler poesia é se jogar para dentro do texto e só levar em conta aquilo que está escrito, nada mais.
  Uma das mais brilhantes teses é a que diz que POESIA NADA TEM A VER COM MISTICISMO OU RELIGIÃO. Claro, há poesia mística, mas a poesia não é uma substituta da experiência religiosa. Eliot diz que com a morte da igreja, sua crise, as pessoas tentam ter vivências religiosas FORA da religião.
  Racine escrevia, como Shakespeare, para a diversão de boas e decentes pessoas. Hoje isso seria considerado banal. O poeta é visto como um tipo de guru ou de xamã, o que é um absurdo. Poetas, a maioria, escreve poesia conscientemente, como trabalho lento, e não como êxtases divinos.
  Interessante observar que em 2016 cobramos experiências religiosas, sem religião, de shows de rock, psicólogos formais, filmes simbolistas, e até de encontros esportivos.
 

sábado, 5 de novembro de 2016

SONHO

   Minha mãe pendurava roupa e longe um radinho de pilhas transmitia o som de um jogo de futebol. Uma lesma saiu do gramado e cruzou o quintal deixando um rastro de gosma sobre o cimento. Meu pai sopra o alpiste dos canários.
   Um cobra verde está enrolada num vaso de antúrios e espreita a porta da cozinha. Olho  a tela da TV onde um duende transforma um homem em asno. Ele olha seu rosto na lagoa e chora. Toco a tela e a deixo suja de açúcar.
   O vento faz todo o capim dançar e as nuvens assistem minha pipa que luta para escapar. Meu primo faz cola no porão sujo de casa. Água com farinha numa lata. Escrevo linhas nas paredes. A fogueira na noite gelada ergue folhas de seda.
   Voce vai gostar de mim pra sempre. Pergunto. Pra sempre. Ela responde.
   Quando menino a gente olha. Sem tentar ou pensar em entender a gente apenas olha. Essa a pureza. O Eden. As luzes dos postes que voam ao lado do taxi que voa.
   Uma cobra está acuada na rua onde vivo. E eu a solto no mato, livre, viva.
   Ela vem aqui e nós dois passeamos pela rua. Ela quer ver tudo e vai na frente, eu a sigo. Estamos soltos nas esquinas, nas pedras do calçamento, nas casas que olham. Vozes, e cães, e gente, e árvores.
   A vida existe para que a gente crie alma.
   A gente cresce para poder voltar.
  No sol absoluto do meio dia eu e meu irmão vigiamos o matagal. Não deixamos ninguém perturbar a cobra que dorme. Sim, eu fui um tonto e hoje disfarço. Minha inteligência é inútil como é um sonho.
  Se a carne fosse verdade ela não sonhava.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O CORVO- POE E PESSOA....E AS LOJAS GEEK.

   Num quarto no inverno, postado à janela, um homem lamenta a morte da mulher que ele ama. Então ele ouve um ruído e pensa ser um espectro. É um corvo que invade o quarto e se posta sobre um busto de mármore. Esse pássaro, que o faz rir, repete NUNCA MAIS...a repetição desse bordão, antes uma piada, começa a soar como maldição.
 Leio O CORVO na tradução de Fernando Pessoa. O amaldiçoado POE traduzido pelo melancólico português. As imagens são lindas, sombras e vento, a expectativa do sublime. POE entendeu o sublime como poucos, a beleza encontrada, entre medo e dor, onde ela nunca seria antes esperada.
 Os melhores adolescentes de 2016 cultuam este poema, mesmo que não saibam de sua existência. Entre mangás habitados por monstros, filmes de Tim Burton e de HQs, jogos tenebrosos e rituais de bruxaria, eles cultuam a sombra, aquilo que saiu do sol, o esquecido.
 E há uma sinceridade amarga nisso; mesmo que seja produto, vendável em lojas GEEK.
 Tivesse eu 16 anos seria um deles. Aliás, aos 16 eu era um deles.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

UM AMOR FELIZ - WISLAWA SZYMBORSKA

  A poeta polonesa, Nobel de 1996, tem neste momento um segundo livro lançado no Brasil. Diz a Companhia das Letras que ela vende muito por aqui. Li o primeiro lançado e nele descobri uma poeta maravilhosa. Escrevi um texto que foi até que bem lido por aqui. Regina Przybycien traduz poemas tirados de vários de seus livros. Fico sabendo que Wislawa adorava química e lia Darwin. Seus poemas são assim:
  Imagina uma mulher que olha as coisas de verdade. Olha as coisas vendo tudo com atenção, sem julgar, sem adjetivar. Coisas que nos são já indiferentes e que para ela sempre parecem novas. Então ela indaga o que elas são, como são e assim as faz ficarem outras sendo elas mesmas.
  Ela vende e influencia poetas por aqui...acho que sei por que: sua escrita me lembra poetas brasileiros. Não sei se foi obra da tradução, mas lendo-a me peguei pensando em Manuel Bandeira. E até em Manoel de Barros ( mas aí já é viagem minha e só minha ).
  Leio e fecho o livro. E na cama me vejo pensando nas coisas: cães, as folhas, minha mãe, um cobertor, vento, eu aos 18 anos, cabelos, um carro. Toda grande poesia inspira a olhar e a apreciar. Ela faz isso.
 E é clara, simples. E deixa pergunta na boca muda.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

O PRELÚDIO- WILLIAM WORDSWORTH. VIAGEM, CRESCIMENTO E REVOLUÇÃO.

   Se Yeats é o poeta que melhor expressa meu intelecto, então Wordsworth é aquele que fala dos meus olhos. Este poeta, símbolo maior do romantismo, escreveu na virada do século XVIII para o XIX aquilo que meus olhos percebem hoje. Ele olhava. Toda sua poesia é uma grande observação sobre as coisas. E a maneira como ele enxerga é "grande".
  Wordsworth nasceu na região dos lagos, o norte da Inglaterra. Fascinado por tudo o que viu desde cedo, ele passou sua longa vida recordando cenas, descrevendo paisagens, desnudando observações. Das várias ideias sublimes que o poeta teve, talvez a maior seja a de que a inspiração vem da memória e que a impotência criativa pode ser curada ao se relembrar um momento de epifania. Wordsworth nunca chega a ser místico, mas a alma das coisas está sempre presente.
  Nesta obra, longa e colorida, ele, como é seu hábito, caminha. Percorre o norte, mas também anda pelos Alpes, pela França, Londres e Paris. Devemos lembrar que é exatamente nessa época que é instituído o turismo. Wordsworth foi dos primeiros, senão o primeiro, a escrever sobre os Alpes como lugar de lazer, de prazer, de fruição. Depois ele anda pela França e descreve Paris, a cidade em tempos de revolução. O poeta fala do novo tempo, da liberdade, das ruas e das pessoas simples. Uma de suas várias fés e a de que o povo simples está muito mais perto da verdade que os letrados catedráticos. Nisso Wordsworth é profundamente democrático, e assim podemos entender porque Whitman é seu discípulo. Como o inglês mais velho, o americano caminha, ama a estrada e o povo, a liberdade. As diferenças são aquelas de país e de geração: Whitman ama a ideia de democracia, Wordsworth ama a democracia como modo de vida; Whitman viaja para ver gente, Wordsworth viaja para encontrar a verdade; o americano se entrega às pessoas, Wordsworth se dá a paisagem. São irmãos. O americano na versão protestante, da exaltação ao modo do púlpito e o inglês ao modo discreto, a reserva do homem do senso-comum.
  O poema caminha também como uma quase auto-biografia. Ele fala da escola, da vida livre nos campos, das viagens e da maturidade. Reporta a revolução francesa, e também a industrialização de Londres. Se perde na metrópole, vê os tipos, os personagens, volta a sua vida interior, perde a inspiração, a recupera.
  Diário íntimo, relato de excursão a pé, documento histórico. Esta obra, longa e clara, é um dos tesouros do mundo. Ler é um prazer.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

WALT NO SEU DIA DE ANOS

   Walt Whitman é, com Rimbaud e Baudelaire, o mais celebrado do poetas. Portanto no dia de seu aniversário, 31, não me sinto em dívida para o homenagear. Penso que muito mais relevante é dar graças ao mundo que ele amava.
 O mundo aberto, das estradas sem fronteira, onde os caminhos vazios se abrem para quem quiser os percorrer. O mundo das pessoas anônimas, que vivem sua vida corporal, com seus músculos retesados, suor escorrendo, faces sujas de trabalho. A liberdade de ser vários em um, de se contradizer, de negar aquilo que se acabou de falar, de gostar de tudo, de comer, beber e amar o mundo. A vida de Walt é a celebração da vida e é por isso que essa poesia do otimismo, do emigrante, do nativo que sabe estar em seu lugar, moldou os EUA, o país do otimismo institucionalizado. Ao contrário do europeu, sempre hesitante, sempre relativista, o americano bota as mãos e toma posse, constrói, vai adiante sempre, marcha ao futuro, pensa pouco no passado, caminha o caminho adiante, vai.
 A gente nunca sabe se um poeta molda um país ou se percebe a alma de uma nação e a traduz antes de que ela seja percebida. Walt dá voz e estatuto à América. Ele e Mark Twain são o lado solar do país. ( Hawthorne e Melville expõe o lado escuro da nação ).
 Descobrir Whitman quando o descobri foi fundamental para minha vida. Ele me revitalizou, me deu voz, me levou pra frente. Desde então outros poetas eu conheci. Hoje amo mais a Yeats, Keats, Eliot e Stevens. Mas foi Walt que me fez descobrir a poesia. Foi com ele que aprendi a ler poemas do jeito certo. Ele me pariu.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

PROMETEU DESACORRENTADO E OUTROS POEMAS- SHELLEY

  Ah esses românticos.... Veja Shelley: Sua poesia é aquele samba do crioulo doido onde cabe de tudo um pouco e nada acaba por ficar de fora: Ele é ateu radical e militante, mas ao mesmo tempo parece crer em alma e fantasmas. Politicamente é anarquista. Mas ao mesmo tempo transparece a saudade dos heróis gregos e romanos. Feminista. E violentamente egoísta. A favor dos pobres e narcisista. De origem classe mèdia alta, e paladino da simplicidade. Com tudo isso ele se torna um exemplo clássico do pior e do melhor do movimento romântico. o mais adolescente dos estilos, e por isso, mutável, contraditório, auto-ilusório e corajoso.
   A poesia de Shelley varia do excelente ao erro. Mas é sempre interessante. Influenciou Drummond, muito. Desagradava Eliot. Bastante. Nunca alça vôo como Keats. Nunca é filosófica, como Goethe. Brilha, mais que Byron.
  Neste livro recém lançado temos uma peça para ser lida e não encenada, e ainda uma boa coletânea de poemas. O tema de Prometeu cai como luva para Shelley, ele se via como o herói grego que roubou de Zeus o segredo do fogo. A peça de Esquilo é de uma beleza arrebatadora. O trágico em osso e nervo. Shelley nunca é nervo. É pele e veia. Bonito.
  Nos demais textos temos momentos de brilho intenso ( Ozymandias, Alastor ) e alguns nem tanto.
  O tradutor é Adriano Scandolara. Um trabalho de detalhe e com excelente material de consulta.
  Espero uma edição cuidada de Keats agora. Ele merece. Mais.

sábado, 7 de novembro de 2015

MATEMÁTICA DAS ESFERAS ( O BILHETE PARA MIM MESMO )

Noticiado hoje que um físico brasileiro começa a provar que o Universo tem uma arrumação sincrônica. Que há uma lógica nele. O Universo seria mais matemático do que pensamos.
Pitágoras sempre esteve certo. A matemática é Deus e a música sua linguagem. E se seguirmos Pitágoras ainda mais longe não nos esqueçamos que em seu tempo ele teve a então original ideia da transmigração das almas.
Na escola em que trabalho dentre outros tenho um amigo bonachão chamado William. Ele é professor e tem um cargo de direção numa outra escola, escola onde estudei de 1972 até 1978. Depois de um ano de amizade tive de súbito a ideia de lhe pedir os documentos que ainda restassem de minha passagem pela dita escola. Após semanas do pedido feito ele me trouxe um envelope grande.
O que eu queria era uma assinatura de matrícula de minha mãe, uma foto, talvez minhas notas. Lembranças e rastros. Ele me trouxe tudo isso, mas trouxe mais. William jogou diante de mim o objeto mais terrível de minha vida.
Em 1978 eu fui feliz. Muito feliz. A confiança no alto. Amigos. Uma menina japonesa. Mas em outubro a professora de português nos propôs uma redação. Tema livre. Lembro muito bem do dia. Estava úmido e frio. Fim de tarde escura. De repente eu me senti de volta a 1977, o ano em que fugi de casa, em que vivi isolado entre livros ( já de volta ao meu lar ). O ano em que descobri Bronte, Dostoievski, Kafka, Dickens. E escrevi uma redação raivosa. Sobre prisão, morte e escuridão.
Quando a professora devolveu as redações a minha não foi devolvida. Todos começaram a achar que ela tinha jogado a minha fora, afinal eu era um dos piores alunos da sala. Mas não. Ela foi diante da sala e disse que eu escrevera "uma obra de arte", que ela lera meu texto para toda a direção e que eles resolveram me eleger o representante da escola nas "Olimpíadas de Português de 1978".
A melhor aluna da classe não se conformou. Ela tirara 10 em gramática e 8 na redação; eu tinha 5 em gramática e fizera a tal redação. Fiquei envergonhado. Não queria ser elogiado, não queria ir a olimpíada nenhuma, não queria ter escrito aquela droga....
Fui à olimpíada e fui mal. E essa redação mudou minha vida. Se tornou uma lembrança de minha sina de "artista"...Eu detestava sempre e continuei tendo sérias dificuldades com artistas, artes, intelectuais, nerds, e professores.
Pois bem, agora em outubro de 2015, 37 anos depois, no meio dos documentos, lá está ela, a maldita redação. O documento de minha "sombra". Explodo de alegria. Abraço William. Não acredito no que vejo. Ali está: minha letra de 1978, letra de forma, eu escrevia em letra de forma grande e angulosa, o papel onde escrevi, minha tinta de caneta, meu nome, minha sala ( 8-B ), minha assinatura. E o texto...Que não li até agora.
Isso é uma sincronia. Isso é um milagre. O eterno retorno.
Isso é realidade.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

E O PROFESSOR FALA DO SÍMBOLO.

   E não é que o professor que tanto entende de Freud, de alemão, de holandês, de dinamarquês, também se revela alguém que compreende e consegue fazer o mais materialista dos alunos entender o que seja o "símbolo" ...
   Quando uma obra de arte, seja texto ou imagem, tem um significado oculto, mas que é revelado aos poucos e para alguns escolhidos, temos uma "alegoria". O Paraíso Perdido de Milton é uma alegoria. A Divina Comédia de Dante é uma alegoria.
   Porém, quando uma obra tem uma linguagem, uma imagem, que nem mesmo seu autor consegue a explicar, essa imagem se explica por si-mesma, e acende em cada pessoa um significado particular, aí temos o "símbolo". O símbolo não pode ser explicado. Ele diz uma coisa, simples e secreta, a cada um. Digamos que ele fala aquilo que as palavras não conseguem dizer. Ele se situa além da linguagem e antes da história.
   Baudelaire fala por símbolos. Assim como Rimbaud. Você pode os traduzir, mas a sua interpretação nunca é a definitiva. O símbolo é inesgotável.
   Isso não significa que o símbolo é superior à alegoria. Milton é maior que o simbolista Verlaine. Mas Verlaine rende mais discussão. Whitman nunca é simbolista. Mas o americano é maior que Leopardi, que usa símbolos. ( Aliás, americanos têm uma enorme dificuldade de lidar com símbolos ).
  A religião é toda símbolo. Mas a igreja é alegoria. Ela tenta dar sentido único a coisas inesgotáveis como a cruz, a pomba ou o milagre. Toda a história de Jesus Cristo é um símbolo, portanto atemporal, inesgotável e particular. Não se traduz em discurso, ela é como um suspiro. A igreja a toma para sí e a traduz. Faz do símbolo uma alegoria e mata sua evolução.
  O marxismo fez o mesmo com a história, a psicanálise com o inconsciente, a crítica literária com a prosa. Pegaram o particular e o transformaram em alegoria universal.
  O símbolo é a prova de que o tempo nada é daquilo que achamos saber. Ele flui através do futuro ao passado e reflui ao presente, renasce a cada nova leitura e nega o certo e o errado. Como diz Gregory Wolfe, a arte abstrata, Kandinsky, Klee, são os verdadeiros artistas, porque eles criam aquilo que passa a existir a partir do nada. Quando Klee pinta uma "coisa" ele a cria do absoluto vazio. Ao contrário de Rembrandt ou de Vermeer que nada criavam, na verdade copiavam, genialmente, aquilo que já existia no mundo, artistas com Marc ou Miró inventam símbolos que surgem do nada e com nada anterior se parecem. São criadores de fato, como criadores foram os homens que desenharam mandalas, símbolos celtas ou intrincados labirintos hindus. Nesse sentido, que não julga mérito, julga criação, Cézanne é o primeiro criador a surgir desde o século XV. Entre Giotto e Cézanne todos foram imitadores.
  Entendeu my friend.

domingo, 6 de setembro de 2015

O OLHO IMÓVEL PELA FORÇA DA HARMONIA- WILLIAM WORDSWORTH. O POETA DA NATUREZA.

   É um grande chavão dizer que Wordsworth é o grande poeta da natureza. Mas nada pode ser mais verdadeiro que isso. O inglês funda o romantismo inglês, e se na Alemanha ser um romântico significa ser um místico e na França ser um revolucionário, nas ilhas ser romântico é amar a natureza. E nisso ninguém se compara a Wordsworth.
  Romancistas, filósofos, dramaturgos, contistas, cronistas, historiadores...e poetas. São os fazedores de versos aqueles que mais amamos. Nossa relação com eles é a mais visceral. Admiramos romancistas, nos exaltamos com filósofos, mas nos apaixonamos por poetas. E são eles os símbolos das nações. Goethe, Dante, Camões, Whitman, Hugo, Pushkin, cada um é a alma de um país ( Único adendo é a Espanha que tem Cervantes como sua alma maior ). E eu sou fiel a meu amor, Yeats é meu poeta, alma da Irlanda. Mas Wordsworth é tão grande quanto o irlandês, se não for ainda maior.
  Ele leva a alturas abissais a relação do homem com a natureza. Esse amor apaga a dor porque apaga o individualismo. Nega o tempo, faz do presente a eternidade. O homem só é feliz na natureza. Reação a transformação do industrialismo, a fuga dos camponeses rumo às cidades, o poeta canta e dá luz àquilo que ele intuía: o fim de um mundo. O poeta é aquele que faz a memória viver. Como ele diz: O poeta olha para trás e para a frente. ( Não olha o agora ).
  Ele canta a criança também, essa invenção romântica. Criança antes era apenas um aprendiz de adulto. Aqui ela se torna um ser sábio, alguém que sabe mais que o homem. "A criança é o pai do homem". Outra missão do poeta, fazer da criança uma presença constante e central.
  Wordsworth é o mestre de Whitman. Ambos cantam a estrada aberta. A diferença é que o americano vive na América, claro, e isso significa mais espaço aberto e a fé na democracia. O inglês, europeu sempre, é mais cotidiano, mais voltado ao passado, tem um traço de saudade que inexiste em Whitman. Ambos são curativos, saudáveis, otimistas, confiantes, vivos.
  Wordsworth é um de meus cinco poetas favoritos. Eu amo seu modo simples de falar, as imagens que só ele vê, a ligação que ele estabelece com a água, o céu e as pessoas do campo. Ele caminha e sente e canta e vive. Se maravilha, recorda, sonha e canta mais. Percebe como uma criança, sente a novidade, continua, persiste. E assim nos reabilita.
  Na bela tradução de John Milton e de Alberto Marsicano, este é um livro precioso.

sábado, 5 de setembro de 2015

RABINDRANATH TAGORE

   Tagore foi tratado pela Europa, principalmente pelos ingleses, como uma espécie de messias. Ele era o poeta que anunciava a poesia nova, a poesia da alma. Tagore desfilava pelas cidades como arauto a anunciar a verdadeira filosofia da poesia do século XX. O poeta deveria voltar a ser o visionário, o homem encarregado de unir o mundo visível ao mundo invisível.
   Logo o Nobel lhe foi dado e Tagore se tornou cada vez mais inatacável. Contra a transformação do planeta, cada vez mais sólido e mecânico, havia o mundo de Tagore: a Índia. Promessa de espiritualidade. Ele caiu como benção sobre a alma de simbolistas, impressionistas e até mesmo dos modernistas. Tagore era uma espécie de homem do passado mísitico, vivo e entre nós.
  O tempo o colocou em esquecimento. A onda indianista dos anos 60 já o ignorou. Tagore de repente parecia comum. Esqueceram que para o ocidente ele foi o primeiro. Uma pena. Sua poesia continua sendo linda e sua filosofia ainda é sem falha. Ele fala do mistério. Um mistério compreensível. Não é hermético, é confiantemente sóbrio. Sábio.
  Compro este livro, uma coletânea de versos, e me deleito lendo poemas ao acaso. Sua voz canta e acalma. Atemporal.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

OS CADERNOS DE MALTE LAURIDS BRIGGE- RAINER MARIA RILKE, A GRANDE CRISE

   Escritos entre 1904 e 1911, aqui em tradução de Lya Luft, aviso você, leitor, a se preparar bastante para ler esta prosa poética de Rilke. Mergulhado numa crise espiritual, o poeta está, só e miserável, vagando por Paris. A fome e a sujeira apertam o cerco e ele delira. Memórias de um tempo em que sua família vivia em castelos e esbanjava dinheiro, lembranças que nunca são felizes.
  Raros os livros tão tristes. Tudo aqui é morte e principalmente medo. Estava no ar o fedor da putrefação. Rilke, como outros tantos, teria previsto 1914...
  Pesadelos e medo. Seria Rilke vítima da Síndrome do Pânico antes de que esse mal fosse moda ( interrogação ). Os medos que ele descreve, o pânico nas ruas, as súbitas tremedeiras, o horror pelo outro. Tétrico, este é um assustador livro de gótico. Tudo é mal ao redor das sombras. E as sombras estão em tudo. Ele busca Deus, ele ainda crê, mas sabe que os anjos são agora impossíveis. Santos são solitários. Ele não é um deles.
  Como conseguiu Rilke ter sobrevivido...Cada página, caleidoscópio de terror, cores, quase beleza, possibilidades perdidas, descobertas, é uma dor. Menino mimado e doente, como Proust, Rilke se aferra à mãe. Mas parte rumo à miséria. E conhece esse mundo: a Paris suja, miserável, escura, e indiferente. Mulheres. Doenças. E a poesia distante. Ele escreve como cura. Sabe que vai perder sempre. O destino é torto e vago.
  No começo ele diz que os homens perderam sua morte. Que antes morriam após cultivar uma morte única. Morriam em casa, ou não, em cenário escolhido, morriam a seu modo. Agora todos morrem anonimamente, em lugar indiferente. A grande dor é essa: Não somos donos de nossa morte.
  Se Rilke começa o livro assim, então ele é a tentativa de reaver a morte. Pois morrer era Grande e agora é pequeno.
  Ele tem 28 anos e precisa aprender a ver. E a esquecer. E escreve. Cães e silêncio.
  Uma alma que diz: Toda a humanidade nada aprendeu, vivemos apenas na casca das coisas.
  O poeta faz a faca.
  Bravo!

terça-feira, 24 de março de 2015

JOVEM.

   Ser jovem é uma convulsão. É estar perto da morte todo o tempo e mesmo assim ou por isso mesmo ser mais vivo que a vida. Mais que a vida porque se a vida é em sua maior parte envelhecimento e decadência, ser jovem é o escândalo da super vida!
  Nietzsche estava errado! Não foi o cristianismo que nos fez fracos, é a idade que nos esmaga e vence nossa verdadeira força. Nosso apogeu dura apenas dez anos... A vida plena dos ossos, que se quebram e se refazem sem que percebamos. A elasticidade da pele, protegendo mais que o corpo, embalando os sonhos. Porque jovens tudo é sonho, mesmo que pensemos na dor. A vida é então feita de saltos, assaltos, piruetas e trombetas que anunciam: Sou vivo!
  Convulsionado as dores se vão, convulsionado o amor chega, em convulsões ele morre. Tudo é grito e a dança do sangue que exige jorrar. Suor nos porões onde o sal escorre pelas paredes, risos nos quartos em que cada palavra é uma piada. O raio do sol bate na pele que acasala com ele. A onda do mar abraça a pele que envolve ela. Leve. A juventude é leve, a leve doçura do compromisso que é para sempre e sempre acaba. E volta. Porque um ano para um jovem cérebro é toda uma vida. 
  Eu me intoxicava em convulsões mortíferas que me fizeram viver. Nas cavalgadas da guitarra-potro-escoiceante. Nas mordeduras da bateria tesoura. Nos vulcânicos dotes do baixo fervido. As convulsões vivas da alma que está prestes a se jogar. Aceitar a vida. Começar a partir. 
  Ser jovem é a maior das felicidades.

domingo, 1 de março de 2015

VERMELHO AMARGO- BARTOLOMEU CAMPOS DE QUEIRÓS

   Naquela tarde gelada meu pai e minha tia voltaram do hospital onde minha mãe estava. Eu tinha 13 anos e de nada eu sabia. Mas percebi a febre que infectou as paredes da casa. No rosto de minha tia, a sempre sorridente Noémia, o assombro de um brinquedo quebrado antes do Natal. Ela foi para o quarto sem falar comigo, e lá ficou. Meu pai se sentou em sua poltrona de sempre e assistiu o jornal. Mas não era mais meu pai. Era outro. O silêncio absoluto era diferente de seu silêncio balbuciante. O rosto dele estava rígido. Para eles dois, soube muito depois, minha mãe estava morrendo. E a febre eu a sentia na casa.
 O que meu pai faria? Ele foi jovem durante a segunda guerra, sua geração foi a última a admitir que a vida não é um prazer. Como meu pai daria uma familia para dois filhos se ele sabia que ser pai nunca pode ser mãe? Meu pai foi da geração que admitia não ter e deixar então de querer. Meu irmão brincava naquela noite, no tapete. A sorte de se ter apenas 10 anos. 
 Minha mãe foi salva. O desvio que haveria em minha vida nunca se fez.
 Hoje leio este livro. Que nada fala de mim, mas que dialoga com meu pai. Porque ele perdeu a mãe cedo e viu cada um da casa partir. Um de cada vez. Primeiro o pai, que se calou para sempre. Depois os irmãos, ao Brasil, à África, ao mato, à serra. A pedra era o tomate de sua vida. As paredes de pedra, o choro calado de cara à parede, as tardes de neblina sem fim. Pedra não se fatia, se engole inteira. 
 O livro é triste como um fado. Triste como a outra margem do Rosa. A prosa é poesia que se come e amarga a boca. A prosa do centro do Brasil. Do norte pedroso de Portugal. Terra dura e gelada que é pedra, cada enxadada uma dor nas mãos. E o vento que venta sem nunca aquietar. Fome.
 Meu pai....que saudade....

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

HOUVE UMA VEZ UM VERÃO ( SUMMER OF `42 )- ROBERT MULLIGAN, HERMAN RAUCHER E MICHEL LEGRAND

   ...naquele verão eu perdi aquele menino para sempre.""
   Essa é a frase que fecha o filme Houve Uma Vez Um Verão, imenso sucesso de bilheteria e de crítica em 1972. É incrível como certos filmes nos marcam para sempre. Este, que em minha mente tem um aspecto de sonho, é o segundo filme que mais me marcou. ( O primeiro é O Sonho de Uma Noite de Verão, de Max Rheinhardt, me marcou tanto que até o advento da versão em dvd achava que fora um sonho que eu sonhara na infância ).
  Assisti este Summer of `42 em 1976, numa TV em p/b na Globo, sábado de noite, 11 horas. Continuo achando que todo menino romântico, e qual não é? , deveria o assistir. Ele caiu sobre mim como uma antecipação daquilo que seria minha vida. As pegadas de meu futuro. Um milagre que só a arte pode fazer, traçar o que virá usando o passado de alguém como tema.
  Estamos em 1942, numa cidadezinha de veraneio, beira do mar. Jovens amigos passam lá o verão, sem nada para fazer. Aprontam, riem, brigam, correm e pensam todo o tempo em sexo. Uma mulher jovem e bonita chega para morar sozinha. Eles começam a fantasiar sobre ela. A observam. Um deles, o narrador, o mais quieto, se aproxima dela, desajeitado. E nesse processo se desinteressa por seus amigos bobos. Ela receberá uma carta dizendo que seu marido morreu na guerra. O menino dançará com ela, e o narrador, em 1972, adulto, nos diz que nesse momento ele o perdeu para sempre.
  O filme é apenas isso. De uma simplicidade franciscana. Porém, de uma beleza luxuosa. A fotografia, e este filme me ensinou a reparar na fotografia, cheia de filtros e de suavidade, é de Robert Surtees. A trilha sonora, uma das mais famosas da história, é de Michel Legrand. Durante anos eu chorava quando a escutava. Isso porque naquela noite, sem esperar por isso, eu chorei pela primeira vez com um filme, música ou qualquer outra coisa. Entenda, não chorava desde os 9 anos. E esses meus choros sempre foram por surras ou castigos. Com este filme pela primeira vez chorei por beleza. Não por alguma coisa que ocorrera comigo, mas por ver algo de profundamente belo. Lembro que de manhã tive de compartilhar isso e falei do filme para meu pai. Ele nada entendeu e disse que se chorei era melhor não ter visto. Talvez meu pai estivesse certo.
  Revisto hoje, Summer of `42 não tem nem metade da emoção que eu recordava. Mas eu também não sou mais nem metade do poeta que fui. O garoto que viu o filme em 1976 foi perdido para sempre por mim. Mas não importa. Se nesses anos todos ele perdeu sua aura, e tudo a perde, como adivinhou Benjamim, em minha memória ele será sempre uma carta cheia de perfume e de linhas bem escritas. Um lembrete, vivo, muito vivo, do lugar de onde vim e do lugar para onde estou indo.
  Lindo.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

MARIO PEIXOTO, O ÚLTIMO DOS ESTETAS

   Na madrugada de 2015, com calor, sem querer me deparo com a imagem de nuvens que se dispersam no céu. E uma voz que fala. Que a realidade não o interessa. Que ele nem mesmo acredita na realidade. Sim, ele pode ver essa tal realidade. Mas ela não o atinge. Não lhe importa.
  O documentário sobre Mario Peixoto é lindo de doer. Poesia em forma de video. Tem até mesmo Satie na trilha sonora. Ao som de Satie até ler um jornal se torna poesia. Porém a poesia maior está em Mario. Nas cenas em que ele fala. Em sua vida. Em seu filme. E percebo, vendo-o falar, que Mario Peixoto, que morreu nos anos 90, foi das últimas provas. Ele provava que era verdade, as pessoas foram um dia mais poéticas, mais calmas e delicadas, as pessoas foram um dia, maiores.
  E mesmo assim Mario nasceu na hora errada. E, claro, no lugar errado. Mario poderia ter sido um austríaco de 1800.
  Tudo nele tem modos de aristocrata decaído. Ou melhor, anjo. E poderia ser personagem de Nabokov. Afinal, ele foi um desconsolado estudante inglês, odiando o clima e fazendo amizade com dois japoneses. Em Londres ele assiste Metrópolis, e isso muda sua vida. Apesar do fato de que ele é muito mais Murnau que Lang. Volta ao Rio e vira cineasta. Seu filme, Limite, é considerado o maior dos filmes feitos aqui. 
  O documentário de Sergio tem cenas de Limite. E sabemos que 1929 foi o apogeu da linguagem do filme silencioso. E que o cinema sonoro veio atrasar a arte dos filmes. Toda a linguagem moderna do silencioso foi abandonada. Para se criar um novo modo, com som. A imagem se desvalorizou. Limite é imagem. Ensina a ver.
  Depois vem o resto. Mario fracassa em seu segundo filme. Pode-se dizer que ele errou por delicadeza. E foi viver num sitio a beira mar. E fez nesse sitio sua maior obra, viveu. Os empregados dizem que ele levava um mês para plantar um pé de qualquer coisa. Why? 
  Mario explica: Porque o tempo, ele não existe. Passado e futuro, eles são invenções. E sem tempo, além do tempo, Mario criou seu mundo.
  Sensibilidade refinada, ver Mario falar é ter contato com a sensibilidade que não mais existe. Ele é um Tilacino, um Dodo, um babilônio. 
  Ver este documentário é um privilégio.
  Usei a palavra fracasso? O que significa fracasso para quem viveu o que quis?

Onde a Terra Acaba (Sérgio Machado, 2001)



leia e escreva já!

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

O PLATONISMO EM ROCK, AVALON.

   Eu amava Pat Wonderful porque ela era linda. E se vestia, de uma forma discreta, melhor que qualquer menina que conheci. Até hoje. Jamais pensei em fazer amor com ela. Eu queria sair com ela. E isso nós fizemos. Meu desejo era poder desfilar pelas ruas ao seu lado. Fazer parte de seu mundo. 
 Wonderful tinha um doce perfume. Leve. E seus olhos negros pareciam abismos. Imagem óbvia...mas exata. Ela era uma bailarina. E caminhava pela vida como uma boneca de porcelana. O pescoço sempre ereto e as coxas finas e duras. O nariz empinado. Ela era pequena, e mesmo assim olhava o mundo de cima. Uma noite ela disse que eu era da mesma espécie que ela. Wonderful me fazia feliz. Ignorávamos toda a feiura do mundo. Conosco a vida era champagne, cristal e muita música. 
 Há um esnobismo sempre latente em mim. Nela isso era assumido. Da sacada de seu enorme apartamento, a paisagem era o clube Pinheiros, nós ficávamos madrugadas adivinhando futuros e alfinetando os mortais. Nossa carne era pó. O desejo era pelo etéreo. Assexuados, conseguíamos ter a ilusão de que o idilio duraria para sempre. Ela era Vênus e eu era Mercúrio. O Olimpo era a Terra.
 E sua voz, seu andar de bailarina, eles assombraram toda minha vida futura...
 Avalon é a trilha sonora desse mundo tão irreal que se fez mito. Ela existiu? Vejo fotos e sei que ela era exatamente como eu recordo. O cabelo castanho lustroso, curto, a boca aristocrática, a pele macia e rosada, um tipo de anoitecer de verão. 
 Em Avalon tudo é amor e nada é sexo. Aqui, 1982, Bryan cria o estilo que será dele forever. Milhares de guitarras fazendo uma tapeçaria de sons diminutos, percussão que ricocheteia em vielas de um oriente inexistente, e teclados oitentistas flutuando e harmonizando a elegância sublime de toda essa ourivesaria de sons preciosos. Há uma delicadeza de borboleta em todo som. Por isso a gente ouve e sente o odor de rosas.
 E há a voz. Inumana. Ela vem de um sonho e Bryan nunca mais irá acordar. Ele canta dormindo, profundamente adormecido. É a voz da vida de Tony Roxy e de Pat Wonderful. A voz que rodopia numa irrealidade esfumaçada de estações que ficam. Sem carne, pois a carne conhece a solidez e o tempo. E neste universo tudo é intocado e para sempre. 
 Ter criado este mundo atesta a verdade. Avalon, ilha onde vivem Arthur e Guinevere, é mais real que Londres ou que Bristol. Porque Avalon deu frutos e aquilo que dá filhos é real. Todo o Pop inglês classudo, feito entre 83/94, entrou no mundo de Avalon. Muito lixo foi aqui engendrado. E alguns minutos de pura beleza também.
 Talvez o meu pior viva neste canto. Não sei. 
 Avalon é feito sobremaneira de silêncio. O ruído está longe daqui, foi banido. Idealisticamente, tudo deve ser perfeição. 
 Pat era perfeita.
 Portanto, ela não podia ficar. 
 Platão.
 E o rock, o mais crú dos estilos, conhece com Roxy, o platonismo da pura ideia. 
 E fora daqui, só barulho.