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O RINOCERONTE BRANCO.

   O último rinoceronte branco se foi. Não há mais machos da espécie, apenas fêmeas. Deixaram de fazer parte deste mundo. Testemunhas quietas de milhares e milhares de eventos, durante milênios pastaram pelas savanas e pelas selvas cumprindo seu destino.
  Mas voce pode perguntar: Pra que servia um bicho desses? E eu te respondo: Pra que serviu extinguir ele? O que nós ganhamos com isso?
  Posso dizer o que ganhamos: Vergonha. Maior pobreza animal. A culpa perante a natureza que o criou para existir e desparecer em seu tempo, aos poucos, e sendo substituído por outro rino. Apressamos seu fim, criamos seu fim de forma artificial. Reis da artificialidade, negamos cada vez mais a natureza e nos tornamos estéreis, flácidos, engordados e inchados de ego e de satisfação que não dura um suspiro.
  Eu não perdoo. O fim do Tigre branco. O fim do Tylacino. O fim do Rino. O mundo fica mais vazio e o crime fica sem motivo. Como espécie somos bobos, crianças que matam sem motivo, quebram coisas sem saber para que elas servem. Somos a maior das criações e ao mesmo tempo a mais fútil das coisas vivas.
  Todo animal é nobre por ser apenas aquilo que ele nasceu para ser.
  Somos nobres quando negamos aquilo que aparentemente nascemos para ser. Mas tragado pelo hedonismo babaca e pelo ato sem consequência, nos tornamos nada mais que um predador de barriga cheia. Um execrável excremento.

VIDA TODA VIDA

   Me leva pra Serra do Mar que eu me encontro lá. Ela é pra mim o que os Andes foram pra Humboldt ou a Sierra Nevada para John Muir. Na Serra eu escuto a voz da minha alma que é a alma do mundo. Não existe dor naquela embrenhação de mata, porque não mora eu nenhum lá. O nós eterno e imorredouro é o que habita cada folha daquele lugar que é todo lugar.
 Desde sempre eu assisti formigas e minhocas. Procurava as estradas de exércitos de formigas e via as saúvas carregando suas folhas verdes para dentro de buracos bem abertos. Cavava na lama dos patos e descobria as minhocas que se enfiavam em túneis esbeltos. E ia correndo atrás das abelhas que nunca me deram medo. Toda minha infância, berço da mente, é um reino de encontros com coisas vivas. Os marimbondos em seu cacho pendurado no telhado ou os ratos minúsculos que se escondiam no meio da roupa suja.
 Mas tão vivo quanto tudo isso eram as nuvens que eu aplaudia no brinquedo de encontrar formas em seu transformamento súbito. Um coelho, uma cara, um deus, um barco, uma flor. Na tela azul do céu a gente via nuvem e cria que ela era casa de um titã. Como vivo era o fogo que comia e rosnava no meio da lenha seca e do papel inútil.
 Havia vida no escuro do quarto de noite. Não só uivos de cães vizinhos. Bater de asas de pássaros aninhando. Havia vida no próprio negror do escuro espaço. Suspeitava e confirmava a vida em suspensão. Detrás e tudo uma dimensão de vida: escondida.
 Andar era sempre ir ao encontro de mais pedaços do universo. Uma pedra mal enterrada ali, uma árvore jamais vista lá. O encontro com um velho coxo, um japonês deformado, uma menina de saia rosa. Avião cheio de pensamentos e um helicóptero levando gente. Em cada trilha de terra uma promessa, em cada riacho uma constelação de peixes e girinos.
 Mais vida nos livros e nas cores das revistas. Dentro do aparelho de TV, vivos elétrons que viravam pessoas, coisas e lugares. Naqueles tubinhos de vidro dourado nascia o mundo de lá além. A TV era uma incubadora. E o rádio uma festa. Multidões de vozes que riam, cantavam, berravam, anunciavam. Um rádio em cada casa, alto, uma casa em cada passo, sol.
 Mais vivo o sol, mas a chuva e a neblina também. O sol erguia os punhos e pulava ao se espreguiçar de manhã. Ele se abanava e à noite andava pra depois de lá. A lua era uma menina discreta que apenas olhava aqui. E a chuva...ela era um animal que anunciava a sua chegada em som e em cheiro. Chuva ser vivo, garoa ser vivo. Eu beijava cada manhã como se fosse um encontro de destino.
 Porque a vida é inevitável e se ainda sei isso é por causa dessa infância que sempre e toda hora a confirmava. Meu coração era a marcação de tambor de toda vida ao redor. Mais que ao redor, dentro e fora. ( E é por isso que ainda hoje me é impossível fechar portas e janelas...fora e dentro são o mesmo ).
 Vou lá...

A INVENÇÃO DA NATUREZA, A VIDA E AS DESCOBERTAS DE ALEXANDER VON HUMBOLDT - ANDREA WULF

   A autora diz no começo desta obra que as pessoas hoje desconhecem quem seja Alexander von Humboldt. Fico surpreso! É sério que vocês não conhecem o cara mais famoso de todo o século que teve Napoleão, Lincoln e Darwin? Pois pra minha geração, aqui no Brasil, o alemão Humboldt é um nome inescapável. Nem que seja como nome de acidente geográfico, escola pública, rua, corrente marítima e cidades pequenas.
  Contemporâneo do romantismo, nascido no iluminismo, Humboldt criou sozinho dois conceitos que nos são muito caros: a ecologia e a holística. Temos a sensação de que desde sempre o homem viu a natureza como coisa interligada e viva. Mas não. Foi preciso o alemão e seus livros de sucesso para dar ao mundo a ideia de que um rio está ligado à um bosque e este ao mar e este ao plâncton e este à lua e....uma corrente infindável. Para ele, os estudos científicos deveriam estar todos ligados, química com biologia com geologia com oceanografia com física com arte e com poesia e ....infindável. Mais ainda, é dele a ideia e a prática do homem de ciência como aventureiro. Humboldt subiu montanhas, adentrou florestas, viveu em desertos. Ele ia o local, via a diversidade, descobria seres vivos e lugares. E assim, com seu modo poético e científico de ver as coisas, pois para ele o conhecimento passa pela emoção e pelo sentimento, ele se tornou famoso. Privou da amizade de Goethe, de Darwin, de Thomas Jefferson. E lançou a ideia de ecologia e mais ainda, de Cosmos, palavra grega popularizada por ele. A vida como uma coisa única em que tudo está ligado e depende de tudo.
  O livro é delicioso, viciante e soberbo. Lemos com curiosidade, prazer e nos educamos. Humboldt criou o andarilho, foi Whitman antes de Whitman e Rimbaud antes de Rimbaud. Mas ele criou também a Thoreau, a Darwin, aos hippies e aos beats, à ecologia de hoje e a ideia de vida que conhecemos. O livro tem ainda um capítulo para Thoreau, um para Darwin e um para John Muir, esse, uma figura interessantíssima, homem que criou na América as reservas florestais e a luta pela preservação. Seus escritos, que este livro mostra, são uma revelação. Ele foi um homem de 2017 que viveu em 1870.
  Direi por fim que temos todos de ler e reler este livro. Ele é mais que bom, ele é necessário e é preciso.
 

...MAS EXISTE A VIDA...

   Teve um peixe que foi o último. Quando me mudei pra este bairro, em 1972, ainda viviam alguns peixes nos córregos desta região. Nasci perto, no bairro vizinho, mas como esse bairro onde nasci fica no alto de um morro, o segundo morro mais alto da cidade, não conheci córregos até me mudar em 1972. Fui para um bairro mais baixo e me vi cercado por córregos e até mesmo riachos.
 Esses cursos de água ainda existem, nenhum secou. Mas, claro, os peixes se foram faz muito tempo. Não se deve dizer que estão mortos. Sapos ainda resistem. Pássaros brincam às margens. Mato e árvores crescem. Mas a água, imunda, está muito mais baixa. Lembro que havia uma profundidade de um metro, dois, e que agora mal chega a um palmo. O maior dos cursos de água tinha três metros, dava para nadar nele. E tinha peixe.
 Sábado no fim da tarde a gente andava pelo bairro. E a vida rodopiava ao redor da nossa mente. Bandos de passarinhos minúsculos se apoiavam nas cerdas de capim e se balançavam na brisa quente de janeiro. Cigarras cantavam alto e gafanhotos pulavam na estrada. Longas carreiras de formigas abriam caminho na terra seca e girinos escureciam as margens dos riachos. E mais ao centro da correnteza nadavam os peixes cor de prata, esguios, frios, condenados.
 Não sei quando eles desapareceram. Mas deve ter sido em um ou dois anos. Talvez o riacho tenha secado e depois voltado a ser o que é hoje, raso e pobre. Talvez uma carga pesada de esgoto tenha vindo, e como maldição tóxica, varrido a vida da água. Eu não sei. Mas o último peixe soube.
 Engraçado pensar que eu conheço um cara, vinte anos mais velho que eu, que caçou pacas onde agora é o estádio do Morumbi. O lugar era cheio de tatús, de gambás e de gatos do mato. Era 1960, e na boa, 1960 foi ontem! Eu lembro bem de 1980, e em 1980 tudo já era mais ou menos como agora, a única diferença é que tinha mais espaço, muito mais espaço, e muito menos barulho. Sapos e pássaros. O último gato do mato há muito fora embora. Em 1980.
 A vida é nossa casa e parece tolo dizer isso. Estou lendo um livro de uma nipo-americana chamada Ruth Ozaki. Houve um tempo em que havia mariscos em Manhattan. Como meu pai um dia viu peixes no rio Pinheiros. E nesse dia ele, imigrante solitário, sentiu que o rio Pinheiros era sua casa também. Ninguém hoje sente que o rio sujo é sua casa. Na verdade ninguém hoje olha para o rio Pinheiros.
 A gente vive e a vida é tudo. Desacredito da morte. Religioso que me tornei, vejo a vida como vencedora. Ela existe e fora dela nada pode ser. E a vida, onde ela está, é nosso lar.
 O último peixe do último córrego limpo sabia que era um peixe pra sempre vivo. E toda a filosofia de que me sirvo vive nos olhos do meu cachorro. Ele respira. E eu dou graças por isso.
 Até o fim.

O ORANGOTANGO

No rosto daquele orangotango toda acusação estampada numa cara de desamparo.
E o desamparo do irracional é o pior de todos porque ele acusa sem racionalizar, fala sem mentir, diz em todos os símbolos: Vocês me traíram.
O orangotango, notícia da UOL que vejo e me comovo, foi espancado, ele e seu filho, até o desespero.
E como um Cristo ele nos faz murmurar: Minha culpa, minha máxima culpa.
Se Deus há ele nos fez jardineiros. Se diabo há ele nos dá uma serra.
Mas o orangotango, que não é divino e menos ainda diabólico, alheio a história e ao tempo, sofre sozinho agarrado a seu filho. E nem mesmo uma acusação ele pode formular.
Nem xingar ele pode!
Mas eu posso! Posso amar esse ser infeliz e chorar com ele o destino sem caminho.
E em nossa comunhão se refaz uma peça do tabuleiro sem lugar.
Eu falo por você, sem voz.
mesmo que não seja ouvido...

CLIVE S. LEWIS E A ESCRITA PARA CRIANÇAS

   Imaginário é algo que foi criado falsamente pela mente humana. Imaginativo é a tentativa da imaginação em responder algo verdadeiro, porém, obscurecido.
   A frase acima é de Lewis e se encontra como um comentário aos seus livros sobre Nárnia. Se nessa obra, por exemplo, os animais falam, há um motivo para isso. Não é um simples desejo de fantasia, que seria válido também, mas sim a busca por uma resposta. Segundo o próprio autor, os animais falam porque NADA nos autoriza a nos sentirmos donos de suas vida e de suas mentes. Eles falam como ato que lhes dá o direito de existir independentes da vontade humana. ( Já que o homem só dá direito àquele que pode falar). Lewis lutou contra as experiências feitas em animais, contra a tortura dos bichos e não é por acaso que um dos mais heróicos dos personagens seja um rato, exatamente o menos valorizado dos bichos. Digamos que Lewis fez conscientemente aquilo que a Disney fez sem querer: aumentou nossa estima aos animais através de sua humanização. Nessa luta, da qual faço parte, esse não é o caminho ideal, mas é o único que funciona. Porque a verdade é que o respeito aos bichos deveria vir do fato de eles serem radicalmente diferentes de nós e não por serem primos. O respeito deveria ser o da Noblesse obligée, a obrigação nobre de proteger os mais fracos.
   Mudemos de assunto.
   Em nosso mundo desconfiado, e por isso profundamente descrente, o autor dito sério sente-se proibido de narrar. É como se todo escritor adulto e talentoso tivesse a obrigação de desconfiar sempre. Desconfiar do entendimento do leitor, desconfiar da comunicação entre autor e leitor, ser blasé em relação sua profissão e mostrar a todos que ele, o criador, tem inseguranças e não sabe se aquilo que escreve pode ser considerado algo de real. A escrita adulta se torna assim sempre claudicante, tateante, escurecida pela dúvida. É como se o autor já partisse da certeza do fracasso. Ele pensa em não se entendido e não poder criar à priori. É a escrita da impotência.
  No mundo da literatura dita infantil ou juvenil, isso não existe. Por estar escrevendo em teoria à mentes mais jovens, o autor se solta e deixa de se preocupar com a realidade. No lugar dessa realidade social ou moral se coloca a verdade da fantasia. O autor se autoriza a criar, criar sem se preocupar em ser verdadeiro ou não, relevante ou não. Assim, a fé na narrativa pode assumir o controle. Pois se o autor comete o maior dos pecados, que seja, crer na força da narração, acreditar ainda no poder embriagador de um livro, isso se dá pelo fato de ele pensar estar escrevendo para gente que ainda está salva do cinismo. Gente pequena. Se o autor é um cinico, o que aqui não é o caso, ele escreve para não cinicos. E assim pode crer naquilo que conta, assumir essa fé e relaxar em seu oficio. Inexiste a necessidade de se ironizar.
  Os livros contam histórias. Boas histórias. Excelentes histórias. E nessas semanas me trouxeram a recordação do porque comecei a ler e do porque me apaixonei por esse ato privado. Por gostar de encontrar outro mundos que são meus mundos. Por adorar crer na verdade e um personagem, seguir sua saga e não ficar todo o tempo pensando no estilo e na originalidade de escrita do autor. Crer naquilo que se lê. Entrar dentro das páginas.
  Tudo isso acontece nesses livros. E assim tive muito prazer em ler. O prazer comum, simples e honesto. Escutei lendo. E li escutando.
   E guardo esse mundo dentro de mim. Passou a fazer parte. E, segundo Lewis, passou a fazer parte porque sempre esteve lá.

OS ÚLTIMOS DIAS- TOLSTOI

   Jay Parini fez a seleção destes textos finais de Tolstoi. Tendo largado sua vida passada, o mestre russo fala sobre Deus, ecologia, politica, arte. Sobre a arte ele é um anti-Oscar Wilde. Arte para ele, deve ser verdadeira e útil. O artista só produz algo que valha a pena quando joga sobre seu trabalho toda sua experiência de vida, suas crenças, sua certeza. Tolstoi também advoga que a arte tem de possuir moral, mensagem, utilidade. A arte verdadeira ensina como ser melhor. Estranho isso. Não é essa a fé de nossa época? Se olharmos os filmes que ganham prêmios, os cantores que arrastam fãs, os livros mais lidos, todos possuem essa coisa séria, essa coisa de verdade crua, esse compromisso moral ( mesmo que seja anti-moralista ). 
  Tolstoi em politica é um socialista puro. E um pacifista radical. Sua reportagem sobre um atentado anarquista, que matou o rei da Itália em 1900, é brilhante. Tolstoi descrê de todo bem obtido sem trabalho. E é em ecologia que ele se mostra mais moderno. Vegetariano, ele descreve uma visita a um matadouro que dá ansia de vômito. Conta, com força, a hipocrisia dos homens sensíveis que se alimentam do produto da violência, da morte, do horror. Como avestruzes, eles acham que por não ver não existe o matadouro. O homem há muito, com sua razão, deveria ter superado a barbárie da carne.
  Sobre Deus são os textos mais fracos. Tolstoi é um cristão sem igreja. Ele crê no Cristo da bondade. A regra é simples, faça aos outros o que farias com voce mesmo. Achei os textos fracos por sua simplicidade e por repetirem aquilo que já sei e que aceito.
  O que não acontece com o mais fascinante dos textos, aquele que chama Shakespeare de fraude. Para Tolstoi, Shakespeare é um escritor ruim, muito ruim. Fraco em trama, fraco em criação de personagens e pior em linguagem. Ele discorre sobre Lear, demonstrando como ele é absurdo, tolo, mal escrito... 
  Eu já sabia que o russo era um critico ao inglês. Mas nunca pensei que tão radical ! Para ele, gostamos de Shakespeare por costume. Não o lemos de verdade. Ele é fraco, um mal autor. Um lobby de atores, que amam suas looooooongas falas, é que o mantém em evidência. Não concordo. Mas acho os argumentos de Tolstoi intrigantes.
  Lançado pela Penguin, vale conhecer.

UMA PRECE TARDIA POR SUNI, O RINOCERONTE BRANCO.

Suni.
Voce morreu e sinto que Deus morreu mais um pouco junto a voce. Sinto que a vida ficou menor. Porque quando uma espécie se vai a vida se vai. Tudo fica mais sem motivo. 
Uma espécie deixa de existir e o palco deste drama diminui. A uniformidade aumenta, a diversidade encolhe. Um rinoceronte branco, personagem que aqui estava desde sempre. Que sobreviveu a romanos, gregos e nazistas. A secas, terremotos e vulcões. Mas não consegue resistir a nosso progresso. A nossa maldita cobiça. E leva com ele um testemunho. Uma presença.
O planeta perde mais uma voz, um rastro e um cheiro. Suni cai. Morto em sua terra. E sua terra cai com ele, deixa de ser terra e passa a ser vazio. O eco de sua morte roda mundo e invade meu espaço. Que seca.
Suni nada entendeu dessas mudanças. Não entendeu porque ele estava no centro delas. Porque a Terra é de Suni. E nunca nossa. Nós aqui estamos para cuidar de Suni.
E falhamos.
Mais uma espécie se vai. E para sempre vira lenda. E lenda é saudade para sempre. É ausência que não pode ser preenchida. Desconsolo.
Suni... Nunca mais.

A SERPENTE DE ESTRELAS de JEAN GIONO. ZORBA, VENTO E UM DEUS

   Era fim de tarde. Era março, 1993. Mesa a calçada, cervejas sobre a mesa, todos os amigos já haviam partido. Ficamos eu e Fabio. Ele bêbado, eu estava alegre. Foi quando o espirito baixou em mim. Minhas mãos viraram pássaros e minha mente um mar cheio de peixes. As ideias nadavam. Eu falava sobre o sabor da vida e sobre as mulheres. Mulheres como fêmeas da espécie, como frutas doces. Lobas que podiam matar. O maior enigma da natureza. Para quem leu e se apaixonou pelo livro ( na minha vida ele não é um romance, é um manual de sobrevivência ), já notou que eu acabara de reler Zorba, de Kazantzakis, mais uma vez. Ao sol sob pinheiros, na cama com meus cachorros, Zorba fora relido em dezembro de 1992. Com Fabio, um cara sempre apaixonado, sem friezas e firulas, meu espirito neto de camponês, espirito de inumeráveis gerações de gente feita de pedra, terra, chuva e vento, com cheiro de estrume, de couves, de azeite e de vinho, companheiras de cabras e de porcos, esse meu espirito aquietado podia se expandir. Meus olhos viam a mulher de fogo dançando nua a minha frente. A Mulher.
  Jean Giono viveu no mesmo tempo que Kazantzakis. Lutou na Primeira Guerra. E viu tanto horror que se fez pacifista radical e anti-dogmas. Natural da Provence, aos 25 anos resolveu aprender a ser escritor. Leu tudo durante cinco anos e então escreveu. Fez imenso sucesso nos anos 30/40, mas após a segunda guerra, com a moda dos comprometidos, dos politicos de esquerda, dos existencialistas, ele começou a ser visto como direitista. Mentira! Ele sempre foi mais que politico. Um democrata no sentido puro e um cristão primitivo. Os anos 60 e 70 o reabilitaram. Giono é hoje um tesouro da França. Neste livro, curto, ele narra a descoberta da vida entre pastores. Estamos na Provence de 1930. Aqui tudo são pedras, vento, ovelhas e silêncio. A filosofia de Giono é a de Zorba: O homem é um bicho. E quanto mais distante da natureza mais distante de TODAS as verdades. Toda alegria é do reino animal. Nas coisas naturais, além do mal e do bem, amorais, vivem deuses. Incontáveis deuses. Jesus é uma estrela pequena na noite de estrelas sem fim. O homem se perde quando se acha diferente dos bichos, diferente da Terra, diferente das estrelas.
  Mas voce, homem biológico, não se engane! Há alma em pedras, em mares, em terra e no vento. O pastor sabe disso. Ao romper essa comunhão o homem rompe sua verdade. Deixa de ouvir, perde o dom de compreender e foge da alegria. Único bicho a ter rompido essa união, o homem sente a solidão da árvore sem raiz.
  Ao final do livro os pastores encenam um auto na noite de São João. Nessa peça, a Terra fala com o Rio, o Mar, o Vento...
  Por séculos meus tataravôs conversaram com ovelhas, cabritos, cães. Passaram semanas cantando para videiras, rosas e pessegueiros. Lavavam a pele com azeite e bebiam água gelada das pedras. Sem tempo, o ano tinha quatro momentos: plantar, fazer a poda, colher e guardar. O dia era dividido em três grandes horas: acordar, almoçar e retornar. A noite era dos lobos, das bruxas e da coruja. O pai era enterrado pelo filho, a mãe era chorada na praça e cada filho tinha o nome de um morto. O sino era a lembrança.
  Quando nasci ainda senti um gosto desse mundo. Agora ele vive longe, mas dentro do centro de mim.
  O livro de Giono é maior que a lingua.

A EVOLUÇÃO HUMANA

   Um dia vencemos o canibalismo. E depois, bem depois encerramos com alivio os sacrifícios humanos em honra de deuses. Veio o fim das execuções em público e só depois disso paramos de vender gente.
   Um dia as guerras acabarão. E as veremos com vergonha.
   E só então iremos acabar de trucidar animais. E teremos a decência de os perceber como iguais.
   E esse homem do futuro olhará para nós e pensará: - Homens de 2014...Selvagens que comiam bichos!

FAZ CALOR

   Alguns dias de calor excessivo e toda a nossa vida se modifica. O ar-condicionado, a irritação aumentando, a água acabando, a geladeira cheia, as roupas suadas, os banhos a mais. Dormir fica dificil. Somos bichos frágeis, é fácil nos deixar em miséria, um pequeno desequilibrio e tudo muda.
   E se tivermos dois anos seguidos de seca? E se cada um dos verões, de agora para sempre, forem cada vez mais quentes? Ora, desde 1943 não era tão quente! Em 1943 foi quente como agora, pois! Mas se a gente pegar os dez verões mais quentes nos últimos cem anos, nove são de 1990 pra cá. Daí a coisa pega. Sim, o clima muda e a culpa não é toda nossa. Precisamos de 20 graus, e com pouco mais, pouco menos já ficamos no desconforto. Nosso mundo de 20 graus existe a pouco tempo, e ele tem um momento para acabar. Nossa culpa é estarmos apressando o processo, que é irreversível. Nossa culpa é não unir esforços para adiar a coisa.
   Entenda, não é exatamente que o mundo vá acabar. Na idade média ele era bem mais frio e mesmo assim a coisa andou. O que deve acontecer é que as regiões habitáveis vão diminuir. Muito instável ao norte e muito quente ao centro. E um monte de plantas, corais, peixes, anfibios irão pras cucuias. A cultura do trigo tende a cair, assim como a cevada, o centeio e a aveia. Pão de soja é o futuro. E milho. Espero que desistam da carne, afinal.
   A gente faz o possível para ignorar mas precisamos de um ambiente muito bem protegido. Tá calor pacas! E eu bebo água e me irrito fácil. E de madrugada espero esfriar para poder dormir.
   Chegue logo inverno e me dê o conforto de seus vinte graus.

NO RASTRO DOS BICHOS GRANDES

    Havia chovido e o céu estava sem luz. Andando pelos caminhos, entre árvores que pingavam, fazendo força para não escorregar, vi uma familia de quatis entocados no oco do pé de um tronco apodrecido. A mãe me olhava de olhos arregalados, o pelo marrom brilhando e o rabo erguido. Dois filhotes se agarravam a ela, cuidadosos. Minha reação imediata: andar com cuidado, não fazer barulho, sair de fininho para não assustar aqueles que assustados já estavam. Porque era eu que não devia estar lá. Andei, afastei-me, sumi. Aliviados, espero, eles ficaram então. Para nunca mais.
   Essa cena foi no bosque do Butantã. Acho que em 1995. Em 1995 ainda vivia uma familia de quatis naquele oásis. Gente passava voando na avenida, pessoas falavam de coisas importantes, e os bichos, resistentes heróis de um tempo perdido, viviam sua vida em paz, vida que desconhece tempo, pois é a mesma desde antes de antes do começo. Quatis, voce sabe, não são vítimas do tempo e do movimento, como nós. ( Acho que as pessoas detestam bichos porque intuem que eles estão livres dessa escravidão. Acho que outras pessoas amam bichos porque sabem que eles são a experiência que consegue demonstrar a falsidade do tempo ).
   Nasci em 1963. Minha casa, em frente ao Morumbi sem muros e donos, ficava a uma caminhada de 30 minutos do bosque. Junto a minha casa eu encontrei bicho-preguiça e gambá. E milhares de sapos, cobras e escorpiões. Caranguejos nos lagos. E penso na felicidade disso tudo. Falo com genuino orgulho: nasci em 1963. No Morumbi. No mato. No que era "o fim do mundo". Minha casa tinha tartaruga, patos, galinhas, cachorrros e coelhos. Vi pinto sair do ovo. Vi coelha parir. Tripas de galinha ainda quentes de vida. E ia pra rua atrapalhar as caçadas de meus primos. Espantava os passarinhos e meu primo ficava doido. Isso me dá mais orgulho que diploma, carro novo, namorada bonita, bíceps ou texto escrito. Tive tudo isso. O pato nascendo foi melhor.
   Ao mesmo tempo em que eu olhava admirado a vida dos cupinzais e a cobra-cega sumir no chão, um lagarto-gigante morava entre as folhas podres e os tocos de pau do bosque. Ele esticava sua lingua viscosa e sentia o cheiro dos ovos e vermes que ia comer. O quati via seu rastro. O macaco via seu corpo. O tatú o evitava. Eu lá sobrava. Esse lagarto, vida que não acaba, viveu anos e anos na paz de sombras e de chuvaradas. Um tempo foi avistado por uma menina loura que pensou ter exagerado na bebida. Depois uma criança reteve sua imagem para nunca mais esquecer. E sumiu. Seguiu o rastro do quati. Sua vida de doce ignorância do que fosse tempo foi embora submersa pelo vingativo senhor dos homens. Esquecimento impera.
   Mas eu lembro. Alguém mais lembra. Da inocência dos seres que vivem sem contar a vida. Que reagem ao redor tendo a certeza sempre. Seres que viviam no que sempre lhes foi certo, perfeito, suficiente e eterno.
   Nós, homens, somos destruidores de eternidades.
   Saudades deles, pois. Jogamos fora para depois sentir a falta. Perdemos primeiro, depois queremos.
   Não voltarão. 1963 não vai voltar.
   Que a menina loura guarde seu lagarto para a vida afora. Sabendo que ele foi um não-tempo possível.
   E que os quatis tenham desaparecido sem medo. Dormindo naturalmente no reflexo das manhãs que nunca acabavam.
   A felicidade mora nessa união. Bicho-homem, vida-espaço livre, ser e fazer, querer e poder. Estar e não pensar muito.
   Esta escrita é a árida procura dos rastros.
   ps: É claro que o bosque é o do Morumbi. Bosque do Butantã não existe. Sorry.

SOBRE BIOGRAFIAS CENSURADAS, BEAGLES E BLOCS PRETOS

   Deve ser dificil ter 70 anos.Principalmente quando voce foi símbolo da juventude. Mais dificil ainda deve ser passar mais de 50 anos tomando whisky e jogando bola no sol. Cercado de puxa-sacos. A cabeça do Chico deve estar uma zona. Todo mundo sabe que gosto de Gil e que alguns discos do Caetano acho muito jóia rara. Mas a cabeça deles, por culpa de outros produtos, tipo azeite de dendê, também está pra lá de Marrakesh. E então eles, numa típica confusão que mistura preguiça, medo e amizade, resolvem ouvir o que Roberto Carlos tem a dizer...Qualquer um sabe que Roberto bota Elvis Presley e Michael Jackson no chinelo. Vive em Zanzibar faz tempo. Fique claro, eu adoro Roberto Carlos. Adoro sua voz e algumas múiscas que ele fez lá por 1970 são obras-primas do pop alto nível. Mas ele é um zumbi hoje. E vive num mundo de puxa-sacos e esotéricos freaks também. Eles querem censurar suas biografias? Não sejam tão duros com eles! Ignorem os vovôs. A verdadeira vilã se chama Paula...
   Quanto aos beagles...Isso é a marcha da história baby. Não venham me chamar de racista pelo que vou falar. Uso o exemplo dos escravos e esses escravos podem ser brancos e amarelos também. Todos temos antepassados escravos, escravos dos gregos, dos celtas, dos romanos, dos chineses...O que digo é que daqui a cem anos nossos descendentes acharão tão revoltante o modo como tratamos os bichos como achamos a escravidão hoje. É o caminho natural. Irão olhar nossos matadouros com horror e pensarão "Como a gente de 2013 podia aceitar isso?" O cômico, e esperado, é que assim como os escravocatas usavam o motivo econômico como fato que devia manter a escravidão, falavam que libertar os negros deixaria o país falido, os anti-beagles falam que prescindir de bichos atrasaria a ciência. Ora! Pura preguiça! O Brasil, como foi no caso da escravidão, está ainda um século atrasado. Os animais terão direitos reconhecidos. Esse é o futuro, nossos netos irão ver e nos criticarão por nossa demora.
   Quanto aos black-blocs, eles são a torcida organizada das ruas. Sujam a moral onde botam as patas.
   E é só.

O VALOR DA VIDA, UM SABIÁ

   Ontem  na Mangueira que dá manga, cinco jovens Sabiás voaram seu primeiro voo.Saltaram do meio das folhas e tomaram coragem sobre um fio de luz. Pousaram no chão e depois voaram. Todos os cinco. Entenderam que eram Sabiás e Sabiás voam. Tudo como deve ser.
   E homens olham pássaros e se encantam com eles.
   Meu pai ao fim da vida se enamorava desse Sabiá que o acompanhava na noite sem sono. Ele era seu sonho. Me toca perceber como na Natureza tudo é certo e tudo é sempre. Esses novos Sabiás são corretos e agora, neste meu sonho acordado são cantos que me dizem ser a vida certa. Quatro horas, escuro, e eles cantam.
   Lembro ainda que nos anos 70 Sabiá só em gaiola. Ao fim da tarde milhares de pardais e de andorinhas se aninhavam e piavam em coro. Mas nada de Sabiás. E recordo com clareza do primeiro Bem Te Vi, foi em 88, ele veio e pousou no meu quintal, bravo, livre, decidido. E cantou seu Bem Te Vi. Desde então voltaram todos. E neste século ocorreu o milagre das Maritacas. A alegria de sua folia aos fins de tarde.
   Voltaram por falta de espaço nos campos? Ou por melhoria na cidade? Bem, não são mais caçados, isso eu sei. Menino com estilingue sumiu. E arapuca não vejo. Se topar com uma eu piso e sumo com os pedaços.
   Agora amanhece e mais alguns se juntam ao canto. Trazem este dia pra mim. Anunciam.
   O que vale a vida sem tudo isto?

MENSAGEM DE ANO NOVO ( QUE É O MESMO )

Estava conversando com uma amiga e falávamos que amadurecer é como se despir. Voce vai jogando um monte de coisas fora. Vai vendo o que é supérfluo e se descartando. Por voce ter menos tempo diante de si, vai diminuindo a bagagem.
É engraçado lembrar que eu fui um dia doido por astrologia. Eu sabia o signo e ascendente de todo mundo que eu conhecia! Não falo hoje que astrologia é picaretagem. No mínimo ela é um belo saber intuitivo sobre os tipos de personalidade que são protagonistas deste nosso mundo. Mas é um assunto morto pra mim. Duvido que nestas mais de 1200 postagens exista algo sobre algum signo. E olha que numa recaída, tive uma tentação enorme de falar sobre a coincidência de Dante, Whitman, Pessoa, Yeats e Lorca serem todos de gêmeos.
O cinema não é mais o que já foi para mim. E isso é fácil saber porque. O cinema atual ainda produz bons filmes, mas são tão poucos... E o passado já foi todo visto por mim. Sim, assisti cerca de 2000 filmes nos últimos quatro anos. Os grandes filmes que não vi posso contar nos dedos da mão. Claro que sempre amarei o cinema, mas não é mais uma paixão. Ele se tornou um tipo de brinquedo antigo que amo mas que não me revitaliza mais.
Os livros continuam sendo a primeira coisa entre todas. O mundo é uma biblioteca e o mistério fica ao redor dela. Mas me cansei de certo tipo de livro, um tipo de literatura que chamo hoje de adolescente. É aquela literatura zangada, mal humorada, que tem enorme utilidade para os que começam a ler, mas que também mostra uma superficialidade asfixiante. Não consigo mais levar a sério autores que falam da falta de sentido da vida, do vazio do absurdo, da negação da liberdade. Blá!!! Já cruzei por esses caminhos e sei o que eles significam: uma enorme vaidade. O mundo pode ser muito cruel, a dor e o mal existem, mas não venha me falar de tédio ou de vazio. Tenha a humildade de aceitar o fato de que esse vazio que voce sente se chama miopia. A vida é muito maior do que voce consegue apreender. Portanto, Sartre, Moravia, O'Neill, Beckett, adeus! Não dou a minima para autores que vivem em becos. Quero aqueles que souberam sair.
Dou uma banana pra Nietzsche. Ele era apenas um ansioso. Nada há de racional em seu pensamento, nada de profundo em sua dor. Ele deveria ter sido um pastor. Ou um poeta. O que ele chama de filosofia é poesia fraca.
Se eu quero materialismo vou direto em Russell e Whitehead, se quero profundidade leio Espinoza e Pascal.
Perdi totalmente a fé em Freud e seus discípulos. Como aconteceu com Nietzsche, Freud foi um pastor que se imaginava ateu. Deveria ter sido um romancista. Na verdade o que ele fez foi escrever diários. Seu sucesso de público se deve a mistura esperta de sexo e escândalo. No Brasil e na Argentina ainda o levam a sério. Bem, aqui o espiritismo é levado a sério...
Religião é um assunto sobre o qual pouco falo. Creio que não exista uma lingua da alma. Mas concordo em tudo com Espinoza. Nada há de culposo ou de violento em Jesus. A luta pelo poder dentro da igreja destruiu o cristianismo. Os inimigos da mensagem de Cristo sempre viveram dentro da igreja, nunca foram os ateus ( que apenas querem ficar em paz ) ou hereges ( que sempre desejaram chegar a verdade ), os inimigos sempre foram a vaidade e a ambição. Usou-se a culpa para dominar e o medo para matar a crítica. Negou-se o amor .
O interessante é que ao contrário do que eu esperava, o interesse pela religião não me fechou num tipo de negação da vida. Ao contrário, me abriu para o outro. Nunca me senti tão próximo dos desconhecidos. Que agora não me parecem tão distantes. E nunca me senti tão apto a participar da vida material. Surpreendentemente, leio na Revista de Filosofia deste mês um artigo que fala exatamente isso. Se bem entendida, a religião te desperta para o outro e não o contrário.
Continuo maluco por bichos. Uma coisa que acontece com a idade é que o que te é verdadeiro fica mais forte. Meu amor pela natureza é do tamanho dela. Não consigo ver mal nela. Ela pode nos matar, seja um terremoto, seja um furacão, mas a morte é parte da natureza. Não pode haver mal na morte natural. Não natural é negar sua verdade. Não pensar nela.
Maldade é a ingratidão. Difamar a vida, blasfemar contra ela. Diminuir a vida, trancafiando esse milagre em fórmulas redutoras e em verdades que serão desmentidas. Toda maldade diminui a vida, a natureza é expansão eterna. Crescemos, desfazemos e continuamos a crescer. O sentido da vida é ser incapturável. Por mais que voce tente a explicar, ela nos foge.
A vida é luta? É desejo? É aprendizado? É absurda? Ela é tudo isso. E seu contrário também: ela é sonho, morte, fuga e razão. Ela é muito mais que nós.
Eu e minha amiga andamos na chuva. Na natureza, essa chuva do dia 27 de dezembro de 2012 é a mesma de 27 de dezembro de 1969. Ela cai igual, molha igual e faz seu mesmo caminho. Se expande, se esvai, se infiltra, cai. Nada é mal nela. Andamos amigávelmente por dentro dela.
Feliz 2013. Que voce saiba ser amigo da chuva.

O FIM DE UM DEUS ( O ELEFANTE )

Temos livre-arbítrio. Segundo Aldous Huxley, a cada avanço científico temos a escolha, saber se aquilo vale a pena ou não. Isso porque tudo na vida tem um preço ( e este é um fato que tudo no mundo moderno tenta nos fazer esquecer ). Cada ato tem sua contrapartida. Sempre. Portanto a descoberta da energia nuclear cobra o preço da bomba, a opção pela gasolina tem um preço, e por aí vai. Caberia ao homem decidir se o preço é alto demais.
Mas existe também o juro, que é cobrado de forma imprevisível. A droga parecia ter como único preço a possibilidade do vicio. Mas ela acaba cobrando o juro da criminalidade. Criminalidade como jamais poderia ter sido imaginada. Huxley diz que a opção pelo progresso foi assumida no século XVIII. Progresso que tomou o lugar da permanência. Desde então, queiramos ou não, somos obrigados a arcar com o custo dessa opção. Pior que isso, como na pior época da igreja dogmática, somos obrigados a acreditar que o progresso é não só desejável como biológico. A teoria da evolução nada mais é que a "legitimização" biológica, inescapável, de que o progresso está inscrito em nossos gens. Se antes Deus nos obrigava a Lhe obedecer, hoje o progresso nos obriga a "progredir".
Há um preço. A arte ao se mecanizar perde o poder de se comunicar com o sublime. E a religião, ao se tornar materialista e humana, perde qualquer possibilidade de sagrado.
Desde sempre tivemos duas opções: ser o jardineiro do planeta, ou ser seu fungo. Não há meio termo. Ou trabalhamos para o planeta, com a humildade de entendermos sermos parte de algo incompreensível; ou exploramos o ambiente, esgotamos tudo, e sonhamos com novas possibilidades em outros mundos. A escolha foi feita por volta de 1740. Não preciso dizer qual.
Um batalhão de assassinos, armados de um arsenal hiper-sofisticado, está dizimando todos os elefantes da África. Em 2011 foram 4000 elefantes assassinados. Os guardas florestais não têem como enfrentar tanto armamento. Os chineses, que ficaram ricos, amam o marfim, e nunca na história do mundo o marfim foi tão caro. Um quilo vale 500 dólares. Um tipo de projétil com granada explode a cabeça do elefante. Os corpos apodrecem no chão. O dinheiro mata o elefante. O dinheiro é deus. Optaram por isso. Não temos mais outra escolha. Os próprios conservacionistas sabem que os elefantes não têem mais como se salvar. O dinheiro decidiu por seu fim.
Não quero e não posso viver num mundo sem elefantes. O mundo que está sendo construído não é o meu.

PRÉDIOS DE VIDRO E UM CÓDIGO FLORESTAL

Em Nova Iorque existe um novo tipo de profissão. É o cara que fica na calçada, em frente a um prédio, com pá e vassoura na mão. Sua função é recolher os pássaros mortos que desabam após trombar nas janelas espelhadas dos edificios. Uma mancha de sangue é logo removida também, e a vida continua. Pássaros batem nas janelas pensando que o reflexo do céu significa mais céu, liberdade. Se esborracham. Uma amiga me conta que já viu 3 maritacas morrerem num prédio da Paulista. E dái???? Voce pode dizer. É o preço de um lindo edificio. Te respondo baby: Esse prédio lindo é uma porcaria. Lixo descartável que não vai sobreviver a seu neto. E que quando for implodido não despertará o protesto de ninguém. Construções como eles existem aos milhares, são incapazes de criar HISTÓRIA. Voce os olha e não vê qualquer sinal de personalidade. E digo mais baby: Mesmo que voce possua desprezo pela vida, mesmo que voce diga "é só uma centena de pássaros....existem tantos por aí....", eu te digo, há uma mensagem nisso, basta saber ler.
O homem consegue fazer alguma coisa sem literalmente foder alguma coisa? O simples ato de se abir uma rua, fazer uma casa ou fabricar um copo, pode ser feito sem arruinar o equilibrio? Se pode, que assim seja! Se não é possível que se deixe de fazer.
O mundo vive uma grande ditadura. A do progresso. Foi fixado na cabeça de todos que o progresso tem um preço e que é impossível não pagar esse preço. Isso é tão repetido que abaixamos a cabeça e murmuramos amém. E se alguém ousar dizer que não, que esse tipo de evolução é ilusória, será tratado como herege, tonto ou pior: um reles perdedor. O nome dessa situação é ditadura.
Um pássaro vale muito mais que todos os prédios. Pelo fato de que podemos fazer um milhão de novos prédios, mas somos incapazes de dar vida a qualquer ser. Por mais que voce sofisme, esse argumento é claro e limpo.
O problema é que nada no homem, hoje, pode ser claro e limpo. Foi um dia, mas nos embrenhamos no obscuro e sujo. E tudo o que fazemos sempre tende a sujeira e a escuridão. Prédios se farão ruinas e ruas serão imundas. O progresso se mede pela construção de lixões.
Se voce ainda não viveu o bastante não saberá, talvez, do que falo agora, mas quem tem por volta de 40 anos já sentiu na pele a decadência inexorável das coisas. Das coisas feitas pelo homem. As naturais se renovam. Uma praia deserta se revista trinta anos depois estará como sempre. Um condomino nessa praia após trinta anos é velho e ultrapassado. Tudo que o homem faz tende ao obsoleto. Com duas únicas excessões. A arte verdadeira e a religião. Que na verdade nascem do mesmo impulso, a transcendência espiritual. Daí posso dizer que aquilo que é feito com a alma vence o tempo. O resto é lixo.
Entenda por alma o que desejar crer. Mas por religião não entenda igreja.
Na pulverização do mundo da infiormação todos falam de ecologia, de bichos fofos e de arte. Mas ninguém sabe do que fala. A experiência espiritual se transforma em informação e essa informação vira uma fofoca. Como Nietzsche sabia, se voce quer matar um sentimento fale dele.
Tudo no mundo tende a fofoca e a fofoca é a conversa feita em forma de lixo. Se fala de como Thomas Pynchon é esquisito mas não se fala de seus livros. A vida pessoal de Sarkozy é dissecada, mas ninguém quer saber de suas propostas ( que não existem na verdade ). É a cultura da biografia. Não da inteligência.
Para ser artista hoje é preciso produzir fofoca. Von Trier é mestre nisso. Até o nome de seus filmes chama uma fofoquinha. Mas pior que isso, os filmes são fofocas em si. Vamos espiar, dar uma espiadinha na vida doentia e louca daquele cara que faz coisas tão esquisitas. O cinema de arte, arte que não passa de um tipo de jornal sensacionalista com pretensões a seriedade, nada mais faz que nos convidar a espionar. Nada mais.
A grande mensagem de hoje seria a da vitória sobre o lixo. Modos de vida sem destruição, coisas que não se fizessem obsoletas, arte que não fosse esquecível. Triste constatação, no vazio absoluto de propostas revolucionárias que há no mundo, nada irá mudar. Podemos optar pelo liberalismo total ( que é o equivalente a se jogar o lixo debaixo do tapete ), um esquerdismo nostálgico ( que é como tentar reviver o que não deu certo ) e o obscuro caminho dos fanatismos do oriente e seus equivalentes ocidentais ( nazismo, stalinismo etc ). Todos esses pensamentos se equivalem, pensam na produção, no objetivo e nunca no caminho enquanto é vivido. Pensam no que virá.  Fazem lixo, deixam dejetos, enferrujam.
O dia em que China, India e Brasil passarem a consumir tanto quanto um europeu, o mundo entrará em colapso. Uma conta à lápis prova isso. Se a Africa começar a comer será o fim de tudo. Nosso sistema, seja esquerda ou direita, precisa de uma casta de consumidores e vastas regiões pobres para explorar. Quando todas forem consumidas e seus moradores passarem a poder consumir, precisaremos de outros planetas para pilhar. É uma lógica do século XVIII, criada quando apenas a Europa comia e o resto do Globo podia ser comido. Tantos séculos depois a nossa cabeça continua pensando igual.
Tudo isso é simbolizado na maritaca caída na calçada.

VIDA

   O que mais temos para aprender com a Europa? Entenda, eu amo a cultura européia, mas o que posso ver de realmente novo nos gregos, latinos ou celtas? O que me revolucionará no romantismo, existencialismo ou na psicanálise? Nada, absolutamente nada. Amar a Europa como eu amo é amar uma rememoração eterna. É amar o já conhecido. Museu.
   Quantas civilizações foram apagadas antes de as conhecermos? Quantas lendas e histórias eu poderia ter escutado? Uma visão original de mundo extinta. Modos de explicar a vida que me foram roubados.
   Secamos aos poucos, morremos em repetição sem fim. Uma visão de vida em um único mundo homogêneo. Uma resposta para cada única pergunta. Um ditatorial modo de vida. E mais nada.
   Cada tribo aborigene que se vai é uma liberdade de viver a menos que se nos dispõe. O planeta que sempre foi uma sopa de vidas se faz um bloco de concreto puro. O que aprender de Nietzsche ou de Platão? A vida ansia por conhecer o que é diferente. Onde? Se aquela gente que tinha uma original história sobre a criação se foi para sempre?
   Chegará um tempo em que a única verdade repousará no MIT. E em que não mais saberemos o que seja a palavra liberdade. Livre será um cara sobre uma bike numa ciclovia em meio a cidade. Acharemos que isso é ser livre. E em que os únicos bichos conhecidos serão os de fazenda e os pets. Pensaremos que um cão de rua é livre. Tudo no mundo será humanizado e então, sem ver mais deiferença em nada, teremos chegado a solidão absoluta. A solidão de quem vê espelhos em tudo. Máquinas e bichos "humanos" e gente que pensa e faz tudo como todos fazem.
   Eu quero saber de gente que vem de onde eu não vim. E que pensa completamente diferente de quem eu conheço. Outra história, outra crença e outras verdades. Opções de liberdade.
   Não quero que a ciência reviva o Tigre da Tasmânia. Se o fizer, ele será apenas um ser da ciência a ser usado pela ciência. Este mundo não é mais o dele e não o merece. O que eu quero é que a vida seja amada. A vida em toda sua crueza e complexidade. Respeitada amplamente.
    Temos tudo a aprender com um macaco, um peixe ou um velho indio.
    Um professor da Sorbonne não nos salvará.