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domingo, 27 de outubro de 2013
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
THE BEATLES, O ÁLBUM BRANCO
Charles Mason ouviu Helter Skelter e leu nela uma mensagem cifrada. Ele tinha de matar alguém do show biz. Ia matar o produtor dos Byrds e errou o endereço. Matou a linda Sharon Tate, esposa de Polanski. Helter Skelter é uma das grandes sinfonias da confusão do confuso 1968. Helter Skelter é de Paul.
Jung sempre dizia que nossa vida é um processo de individuação. Nascemos como um membro anônimo de várias comunidades. E desde cedo lutamos para ser si-mesmo. Quando um cantor tem desde sempre uma carreira solo esse processo acontece numa briga consigo-mesmo. Dylan é um exemplo radical disso. Quando numa banda esse processo se faz entre seus membros. Nenhum disco na história do rock exibe isso de forma mais cruel que The Beatles. O que ouvimos é uma discussão. Os 4 se descobrem como indivíduos e passam a odiar tudo aquilo que a banda foi. Cada um a seu modo.
George chama Eric Clapton para o ajudar. Ringo se acabrunha e Lennon sabota todo o trabalho. Paul se faz mais Paul que nunca antes. Eu disse que Lennon sabota o disco? Ele estava ocupado em ser artista. Em se dopar. Em ser Yokoano. Os Beatles eram a infância. A Ono Band seria ser artista-adulto. É o primeiro disco onde Lennon exibe suas qualidades e fraquezas como artista solo. Suas faixas têm a indulgência e a urgência da Ono Band. Ele exibe sua víscera. Fede. E sabota a banda, que para ele era cada vez mais a banda do outro cara.
Sou fã de Paul. Afinal, eu cantava Hey Jude em 1968. Cantava como Hey Tchu. Tinha cinco anos. Tenho testemunhas disso. Será que Lennon não se sentia mal ao ver o sucesso das faixas de Paul? Será que ele se consolava pensando, :Ora, são lixo pop!
Há uma faixa em que Paul pede para que a banda volte a estrada. Uma das coisas mais tristes dos anos 60 é que não vimos eles no palco em boas condições. A partir de 67 os shows ficaram muito melhores e nada temos deles. Ob-la-di-ob-la-da é para crianças. Eu a cantava também. Mas Revolution number 9 é imperdoável. Pedante. Avant-garde Godardiana.
Back in The USSR é mais um hit de Paul. Em 68 os Beatles começavam a ser deixados de lado pelo povo chique. E ao mesmo tempo eles nunca tiveram hits tão fortes e grudentos. Back tenta ser Beatles de volta a 1966. E saibam, naquele tempo um ano era um milênio, 1966 parecia outro planeta.
Nunca gostei de Dear Prudence. Glass Onion é melhor. Bungallow Bill, Honey Pie...e então While My Guitar. O disco antecipa as carreiras futuras de Paul e John, e de George também. Eis aqui o George futuro.
Martha My Dear foi feita para a cadela de Paul. Harmonia, beleza orquestral, acabamento refinado. Que culpa Paul pode ter de ser feliz? So Tired é o comentário de John sobre tudo isso.
Blackbird é uma obra prima. Impossível cantar junto sem chorar. Linda, linda e linda. Gosto de Piggies. Ela me lembra Kinks. E também os Monty Python.
Alguns bons momentos passam e tudo cresce em Mothers Nature Son, feita para Donovan Leitch. É uma canção campestre. Maravilhosamente bem arranjada. Sexy Sadie é adorável. Savoy Truffle...
Se existem tantas grandes músicas porque este não é um grande album?
Porque ele transmite algo de ruim. Uma faixa nega a seguinte que briga com a próxima. Ele parece esquizo.
Como foi escutar em 1968?
Jung sempre dizia que nossa vida é um processo de individuação. Nascemos como um membro anônimo de várias comunidades. E desde cedo lutamos para ser si-mesmo. Quando um cantor tem desde sempre uma carreira solo esse processo acontece numa briga consigo-mesmo. Dylan é um exemplo radical disso. Quando numa banda esse processo se faz entre seus membros. Nenhum disco na história do rock exibe isso de forma mais cruel que The Beatles. O que ouvimos é uma discussão. Os 4 se descobrem como indivíduos e passam a odiar tudo aquilo que a banda foi. Cada um a seu modo.
George chama Eric Clapton para o ajudar. Ringo se acabrunha e Lennon sabota todo o trabalho. Paul se faz mais Paul que nunca antes. Eu disse que Lennon sabota o disco? Ele estava ocupado em ser artista. Em se dopar. Em ser Yokoano. Os Beatles eram a infância. A Ono Band seria ser artista-adulto. É o primeiro disco onde Lennon exibe suas qualidades e fraquezas como artista solo. Suas faixas têm a indulgência e a urgência da Ono Band. Ele exibe sua víscera. Fede. E sabota a banda, que para ele era cada vez mais a banda do outro cara.
Sou fã de Paul. Afinal, eu cantava Hey Jude em 1968. Cantava como Hey Tchu. Tinha cinco anos. Tenho testemunhas disso. Será que Lennon não se sentia mal ao ver o sucesso das faixas de Paul? Será que ele se consolava pensando, :Ora, são lixo pop!
Há uma faixa em que Paul pede para que a banda volte a estrada. Uma das coisas mais tristes dos anos 60 é que não vimos eles no palco em boas condições. A partir de 67 os shows ficaram muito melhores e nada temos deles. Ob-la-di-ob-la-da é para crianças. Eu a cantava também. Mas Revolution number 9 é imperdoável. Pedante. Avant-garde Godardiana.
Back in The USSR é mais um hit de Paul. Em 68 os Beatles começavam a ser deixados de lado pelo povo chique. E ao mesmo tempo eles nunca tiveram hits tão fortes e grudentos. Back tenta ser Beatles de volta a 1966. E saibam, naquele tempo um ano era um milênio, 1966 parecia outro planeta.
Nunca gostei de Dear Prudence. Glass Onion é melhor. Bungallow Bill, Honey Pie...e então While My Guitar. O disco antecipa as carreiras futuras de Paul e John, e de George também. Eis aqui o George futuro.
Martha My Dear foi feita para a cadela de Paul. Harmonia, beleza orquestral, acabamento refinado. Que culpa Paul pode ter de ser feliz? So Tired é o comentário de John sobre tudo isso.
Blackbird é uma obra prima. Impossível cantar junto sem chorar. Linda, linda e linda. Gosto de Piggies. Ela me lembra Kinks. E também os Monty Python.
Alguns bons momentos passam e tudo cresce em Mothers Nature Son, feita para Donovan Leitch. É uma canção campestre. Maravilhosamente bem arranjada. Sexy Sadie é adorável. Savoy Truffle...
Se existem tantas grandes músicas porque este não é um grande album?
Porque ele transmite algo de ruim. Uma faixa nega a seguinte que briga com a próxima. Ele parece esquizo.
Como foi escutar em 1968?
domingo, 18 de agosto de 2013
sexta-feira, 16 de agosto de 2013
DE ROBERTO CARLOS A YEATS; DE BEATLES A PROUST
Aquelas canções que são como velhos amigos, conhecem sua história e reencontrá-las é como olhar para sua casa ( a casa de verdade, não esse acampamento de trabalho a que hoje chamamos de casa ). Sons que vão direto pra alma e que por mais que as escutemos, e escutamos muito, parecem sempre com uma nova descoberta. Essas músicas se renovam, como o amor é uma renovação diária.
São as canções que meus amigos deveriam cantar no dia em que eles jogarem minhas cinzas na Serra do Mar ( e isso nada tem de triste pois farei poesia mesmo após ir embora daqui ).
No nascimento desta jornada recordo de minha mãe ouvindo rádio pela casa cheia de sol e de meu pai escutando discos nas manhãs de domingo. O que eles ouviam? If, da banda melosa Bread é possívelmente a coisa sobre o amor mais antiga em minha alma. Mas não é uma boa canção. Só uma criança de 5 anos poderia gostar de tal coisa. Mas também posso recordar de Roberto Carlos e essa lembrança é muito mais agradável. "Quando/ voce se separou/ de mim/ Quase/ que a minha vida teve/ um fim"; ou então: "As folhas caem/ Nascem outras no lugar"; nessas faixas nascia em mim um tipo de sentimento que iria desaguar em Yeats e em Proust.
Beatles....Ah os Beatles...Cantei Help aos 6 anos, mas o que me deixava tonto era In My Life. Belo tempo em que In My Life tocava na Tupi AM. Bem mais tarde, aos 17 anos, eu descobriria que For No One era ainda melhor, e mais que isso, que For No One pode ser a melhor das melhores ( Neste texto, incorreto como o amor, muita coisa será the best of the best ). Mas em 1970, a voz de Paul já marcava presença em mim, mas era via Another Day, uma canção que me recorda a cama de meu quarto.
O amor em canções. Daydream Believer na voz de David Jones, dos Monkees, e também Look Out, um amor muito feliz. Eu adorava ainda Rocknroll Lullaby com B.J.Thomas e Killing me Softly com Roberta Flack. E súbito tudo mudou quando um piano me fez comprar meu primeiro disco.
Elton John cantando Your Song mudou minha vida. E ainda hoje vejo Elton como um dos reis da canção de amor. Se voce está in love e deseja ouvir alguém cantar só pra voce, Elton é o cara. Ele tem tantas grandes canções de amor que é impossível citar as melhores. São melodias simples, que grudam, mas ao mesmo tempo vão ao fundo da coisa e são cristalinas. Elton foi hiper-pop, mas jamais deixou de parecer sincero. E uma frase como : " A vida é maravilhosa porque voce faz parte do mundo", será sempre a tradução exata do que seja a alegria do amor. Ele é um longo capítulo em meu coração.
Muito perto de Elton vem uma voz que em sua juventude foi mágica. Capaz de emocionar com apenas um "Oh!", Rod Stewart cantou Still Love You em 1976 e acabou com meu coração. Se Elton parecia sempre sincero, Rod Stewart conseguia personalizar nossa epopéia interna. Esqueça o Rod playboy que surgiu após 1977, ele foi antes disso o jovem faminto, o cara da estrada suja, o celebrador do amor eterno,e esse cara é do cacete! Sua regravação de The First Cut is The Deepest de Cat Stevens, fez com que eu me apaixonasse várias vezes. Já adulto descobri seus primeiros discos. Os 3 primeiros discos solo de sua carreira são crônicas sobre o amor simples, o amor de gente comum, o amor de jovens ingênuos e cheios de fé. São dos poucos discos do rock que nos fazem ter esperança. Isso não é pouca coisa. Rod é o menestrel do amor.
Voltando a minha casa de criança ia esquecendo de dizer que hoje, aos 50 anos, quando leio poesia romântica, ou quando vejo imagens de jovens dandys morrendo de amor e de tuberculose, logo recordo de 3 canções de amor que entraram em meu DNA. Eu as ouvia naquele rádio antigo, em mono e AM, aos 5 anos...ou antes. Eram os hits de então: As Tears Go By, Lady Jane e She's a Rainbow. As 3 nada têm a ver, na verdade, com aquilo que os Stones eram. Ou talvez simbolizem o lado sombrio da banda, aquilo que eles escondem ou perderam. Mas a voz infantil de Mick em Tears, o arranjo de cravo de Lady Jane e o refrão de Rainbow são das mais poderosas sombras amorosas da minha mente.
Pena que a banda tenha jogado fora esse tipo de romantismo flamboyant.
Aqui então estão expostos os nomes e as canções de meu começo. Acho que foi um bom inicio. E como em todo amor antigo, elas mexem comigo de uma forma muito visceral. Não admito que falem mal delas. As amo forever. Porque, meus amigos, amor quando é de verdade, é sempre para sempre.
E a vida é maravilhosa porque essas canções estão nela.
terça-feira, 6 de agosto de 2013
segunda-feira, 29 de julho de 2013
JULIA/ DAVID LEAN/ WELLMAN/ LUMET/ RINGO STARR/ RENOIR/ TATI
JULIA de Fred Zinemann com Jane Fonda, Vanessa Redgrave, Jason Robards, Meryl Streep
Com uma belíssima fotografia de Douglas Slocombe, Julia foi o primeiro filme por que torci numa entrega de Oscar. Perdeu filme e direção para o Annie Hall de Woody Allen. Mas ganhou atriz coadj ( Vanessa Redgrave ) e ator coadj ( Jason Robards ). Revisto agora o filme parece ainda melhor. Baseado nas memórias de Lilian Hellman, o filme acompanha sua amizade com Julia, uma milionária judia que se envolve com a luta na Europa contra o nazismo. Jane faz Lilian. Jason é seu companheiro Dashiell Hammet. As cenas entre os dois são as melhores do filme. Eles discutem, brigam, ela tenta escrever, erra. Hammet já em sua fase impotente. Em sua segunda parte Lilian atravessa a Europa de trem para levar dinheiro a Julia em Berlim. As cenas no trem exibem suspense perfeito. Ficamos eletrizados. E o final, como no começo, Lilian só, num barco, num lago. Zinemann foi um dos maiores. Basta dizer que são dele Matar ou Morrer e A Um Passo da Eternidade. Julia é o fecho de ouro de sua carreira sem erros. Um filme que demonstra tudo aquilo que desejo ver no cinema. Nota 9.
REDENÇÃO de Steven Knight com Jason Statham
A produção é de Joe Wright e a fotografia de Chris Menges, ou seja, é classe A. E demonstra pretensões artísticas. Mas é ralo, bobo e desagradável. Melhora no final, quando se torna uma simples aventura de ação. Nota 3.
O VEREDITO de Sidney Lumet com Paul Newman, Charlotte Rampling, James Mason, Jack Warden
Escrevi sobre este filme abaixo em outro post. É um filme perfeito. Com roteiro de David Mamet, mostra a decadência de um advogado. Bebida, decisões erradas, mentiras, falsidades. Nota DEZ.
UM BEATLE NO PARAÍSO de Joseph MacGrath com Peter Sellers e Ringo Starr.
Que coisa é essa??? Feito em 1968, com um roteiro caótico, esta comédia fala de um milionário que adota um mendigo. O milionário é Sellers, que está excelente, o mendigo é Ringo, que está Ringo. A trilha é de Paul MacCartney e é boa. As cenas são muito mal dirigidas, o filme é como um circo ruim. Ou um programa do Monty Python feito com mais LSD. Aliás, no roteiro vemos o nome de John Cleese. O incrível é que quando ele acaba pensamos: Não foi tão ruim! Nota 4.
CARROSSEL DA ESPERANÇA de Jacques Tati
Primeiro filme dirigido pelo genial cômico da França. Suas caracterísitcas estão todas aqui. A vida como coisa simples, leve, comunal. ( Ao fim da carreira ele mudaria essa opinião com o filme Traffic ). Numa cidadezinha francesa chega uma quermesse. Vemos a vida dessa cidade. Um dia, uma noite, uma manhã. Quase sem falas, ver esse filme é como passear pela cidade. Galinhas, crianças, a praça, a fonte, o bar. Tati faz um carteiro que larga sua vida pacata e tenta ser um carteiro "à americana". Um filme adorável. Nota 7.
SHE de Irving Pichel com Randolph Scott, Helen Mack
O filme, feito pela equipe de King Kong, mostra grupo de exploradores em busca da fonte da juventude. Encontram um reino onde a rainha vive a séculos. Não é ruim. Podia ter mais ação. Nota 5.
GELERIAS DO INFERNO de William Wellman com John Wayne
O avião de Wayne cai numa região do Canadá que ninguém conhece. Ele e seus companheiros esperam pelo socorro. Que bela aventura!!! Wellman, que foi aviador e lutou na Primeira Guerra adora filmar aviões. Eles passam a procura dos sobreviventes e os vemos lá embaixo, em meio a gelo e fome. Wayne tem uma grande atuação. Seu desespero é palpável. Belo filme. Nota 8.
QUANDO SETEMBRO VIER de Robert Mulligan com Rock Hudson, Gina Lollobrigida e Walter Slezack
Hudson é um milionário que passa seus agostos na sua villa italiana. Mas resolve aparecer em julho e encontra seu mordomo usando a casa como hotel. Gina é sua namorada de agosto. Filme ao estilo Sessão da Tarde dos anos 70. Belas paisagens, Rock muito bem, Slezack dando um show como o mordomo. Este é o filme familia de então. Levemente apimentado, bobo e muito agradável. Nota 6.
RENOIR de Gilles Bourdos
O filme fala de 3 grandes artistas. O pintor e seus filhos, Jean, diretor de cinema, e Claude, diretor de fotografia. E mesmo assim consegue ser um filme desinteressante. Nota ZERO
GRANDES EXPECTATIVAS de David Lean com John Mills, Jean Simmons e Alec Guiness
Este filme feito pelo então jovem David Lean, é considerado com justiça a mais perfeita adaptação literária levada ao cinema. O tempo fez crescer sua beleza. Guy Green fotografou num preto e branco cheio de escuros e de brumas esta soberba história passada nos pântanos ingleses. Os primeiros trinta minutos são das coisas mais perfeitas já filmadas. É um filme que consegue nos levar ao mundo de Dickens com perfeição. Vi recentemente duas versões desse livro em cinema, um de 1998 e outra de 2012...Não servem nem como curiosidade. Este é o filme. Nota DEZ.
RENOIR de Gilles Bourdos
O filme fala de 3 grandes artistas. O pintor e seus filhos, Jean, diretor de cinema, e Claude, diretor de fotografia. E mesmo assim consegue ser um filme desinteressante. Nota ZERO
GRANDES EXPECTATIVAS de David Lean com John Mills, Jean Simmons e Alec Guiness
Este filme feito pelo então jovem David Lean, é considerado com justiça a mais perfeita adaptação literária levada ao cinema. O tempo fez crescer sua beleza. Guy Green fotografou num preto e branco cheio de escuros e de brumas esta soberba história passada nos pântanos ingleses. Os primeiros trinta minutos são das coisas mais perfeitas já filmadas. É um filme que consegue nos levar ao mundo de Dickens com perfeição. Vi recentemente duas versões desse livro em cinema, um de 1998 e outra de 2012...Não servem nem como curiosidade. Este é o filme. Nota DEZ.
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
O MAIS HUMANO DOS ROCK STARS. ERIC CLAPTON, A AUTOBIOGRAFIA.
Ler a bio de Clapton não é ler a bio de um rock star. Muito menos a de um guitarrista. É a biografia, muito sincera, de um homem. Desde o começo de sua vida Eric teve apenas uma coisa em mente: construir uma vida. Jamais ele desejou ser uma estrela. Nesse processo, doloroso, ele se desconstruiu sempre. Fugiu do estrelato, fugiu do virtuosismo instrumental e na pior das batalhas, fugiu de sua própria vida. Chegou a uma situação de absoluta destruição. E sobreviveu. O foco é na luta interior, o rock é a segunda, às vezes terceira linha.
Clapton nasceu pobre no subúrbio. Mato e espaço. Sua timidez vem do sentimento de se estar sobrando. Quem ele pensava ser sua mãe era na verdade sua avó. A verdadeira mãe lhe foi apresentada como irmã. O jogo só foi revelado na puberdade. A verdadeira mãe, fria, nunca baixou a guarda. Mas por sorte os avós eram ótimos.
Na escola Eric evitava brigas e fugia do centro das atenções. Péssimo aluno, melhorou quando foi estudar design. Bom desenhista, um dos assuntos favoritos de Clapton em todo o livro é a moda, as artes visuais. Ele descreve roupas, móveis, tapetes e quadros. Bom gosto, dom que se reflete nos acordes que ele sempre produziu em suas guitarras.
O blues ele descobriu no rádio. Sentiu-se no paraíso. Com violões ruins aprendeu a tocar sózinho, copiando discos. Além do blues, Buddy Holly. Bandas de bar, de pub e então vêm os Yardbirds, uma banda de blues. Purista, caiu fora quando a banda estourou fazendo um tipo de versão de blues- pop. Eric não queria ser como os Beatles, queria ser Muddy Waters. Com 19 anos as ruas já apareciam grafitadas: Clapton is God.
Grava com John Mayall. Os Bluesbreakers são puro blues. Mas ele adorava Jack Bruce e quando ele o convida para tocar se forma o Cream. Ginger Baker vem pra batera e Ginger e Jack se odeiam. Tocar é bom, e eles criam a jam session no rock. Por ter pouco repertório tocam versões de dez minutos de cada faixa. Os shows são hiper concorridos, sucesso em palcos, o Cream é a banda mais fashion em 67. Clapton começa a circular com Jimi Hendrix. Os dois vão a bares onde tocam juntos, de surpresa. Ao mesmo tempo Clapton circula com a nova invenção inglesa, os hippies de sangue azul. São os filhos de barões e duques que caem na estrada e se tornam um tipo de ciganos chiques. Para essa galera, Eric Clapton é a coisa mais "In" que existe. Ele se envolve com Alice Ormsby-Gore, uma das mais ricas herdeiras (há uma foto dela, fascinante ), mas já nesse tempo, o coração dele tem dona: Pattie, a esposa de George Harrison.
O primeiro disco da The Band faz Clapton sair do Cream. Ele quer fazer aquele som. Simples, não uma ego-trip como o Cream se tornou. Forma com seu amigo Steve Winwood o Blind Faith, uma tentativa errada de ser The Band. Ao mesmo tempo toca com Lennon, Harrison, Stones e quem mais vier. Pattie o rejeita e ele vai pros EUA. Faz papel de músico de apoio na banda de Bonnie Bramlet e conhece muito pó, muita heroina e grandes músicos de lá. Namora a irmã de Pattie, traça várias fãs on the road. Vem Layla com uma nova banda: Derek and The Dominos, uma tentativa de zerar tudo. Afunda. Layla, dedicado desesperadamente a Pattie não faz com que ela largue George.
Fica 3 anos em casa, entre álcool e drogas, casos vazios. Pete Townshend o obriga a sair e faz em 74 o show da sua volta. Grava o disco do retorno, o muito bom 461 Ocean Boulevard, onde descobre o reggae. Mas desde então ( 1974 ) até o fim dos anos 80 a vida de Clapton se resume a garrafas e mais garrafas.
Nesse torpor de bebida se casa com Pattie. O que foi o desejo de sua vida se torna um inferno. Eric Clapton exibe coragem, conta tudo. A patetice, a idiotice. Ao contrário de Keith Richards ele nunca glamuriza: é o inferno. E se diverte. Eis a dificuldade: beber é divertido. E pior que isso, parar de beber significa abrir mão do que dá sentido a vida, beber.
Começa a tocar mal, grava discos ruins, bate o carro, escala edificios, ofende amigos, perde tempo. Tenta um tratamento, falha. Tentará novamente bem mais tarde. Numa cena comovente, se ajoelha e se entrega. Desiste de lutar. Se salva nesse momento. A partir daí o livro é a reconstrução da vida de um doente. Eric diz, minha prioridade não é minha música ou meus filhos, é me manter sóbrio. ( Ele não bebe a mais de 25 anos ). Tem um filho com uma italiana, esse garoto morre ao cair de uma janela. Tears in Heaven. Seus amigos do AA agradecem por ele não voltar a beber mesmo com essa dor. Eric passa a trabalhar pelos AA do mundo todo.
Uma bela vida? Uma sábia vida.
Guardo dois momentos de Eric Clapton comigo. O show para George, no aniversário de um ano de sua morte. E aqui no Brasil, recentemente. Olhar para ele é ver um homem são. Um cara que esteve lá e voltou. E que não se faz de "louco profissional". Sério. E agora, calmo, muito calmo.
Nas amenidades, Carla Bruni foi namorada de Eric nos anos 90. E foi roubada dele por Mick Jagger. Desde então Eric passou a sentir aversão por Jagger ( Jagger é famoso por roubar namoradas de amigos ). Bob Dylan, que é descrito por Eric como um cara impossível de se conhecer. E que chegou a morar numa tenda num jardim, nos anos 70. Fala do quanto Paul e John esnobavam George. Sua praia sempre foi o blues, blues de Buddy Guy, John Lee Hooker, Muddy e BB King. Duane Allman e Stevie Ray. Há também belos elogios a Hendrix, e a JJ Cale, um cara que mudou seu som.
Ao contrário do que acontece com a bio de Keith, esta dá vontade de conhecer o cara, de conversar com ele. Ele fala dos outros, não só de si, fala das artes ebulientes de 1960, de bandas como Small Faces, Who e Traffic, de pintura, de Ferraris, de muitas mulheres. E fala pouco de sua técnica, de como toca ou canta.
Disse que em 1967, filhos de nobres, belos e ricos, começaram a se vestir como ciganos, a se entupir de ideias zen e cair na estrada. Disse que Eric era o rei entre eles. Foram sábios esses nobres. Eric Clapton é o mais nobre dos ciganos e o mais humano dos rock stars.
Clapton nasceu pobre no subúrbio. Mato e espaço. Sua timidez vem do sentimento de se estar sobrando. Quem ele pensava ser sua mãe era na verdade sua avó. A verdadeira mãe lhe foi apresentada como irmã. O jogo só foi revelado na puberdade. A verdadeira mãe, fria, nunca baixou a guarda. Mas por sorte os avós eram ótimos.
Na escola Eric evitava brigas e fugia do centro das atenções. Péssimo aluno, melhorou quando foi estudar design. Bom desenhista, um dos assuntos favoritos de Clapton em todo o livro é a moda, as artes visuais. Ele descreve roupas, móveis, tapetes e quadros. Bom gosto, dom que se reflete nos acordes que ele sempre produziu em suas guitarras.
O blues ele descobriu no rádio. Sentiu-se no paraíso. Com violões ruins aprendeu a tocar sózinho, copiando discos. Além do blues, Buddy Holly. Bandas de bar, de pub e então vêm os Yardbirds, uma banda de blues. Purista, caiu fora quando a banda estourou fazendo um tipo de versão de blues- pop. Eric não queria ser como os Beatles, queria ser Muddy Waters. Com 19 anos as ruas já apareciam grafitadas: Clapton is God.
Grava com John Mayall. Os Bluesbreakers são puro blues. Mas ele adorava Jack Bruce e quando ele o convida para tocar se forma o Cream. Ginger Baker vem pra batera e Ginger e Jack se odeiam. Tocar é bom, e eles criam a jam session no rock. Por ter pouco repertório tocam versões de dez minutos de cada faixa. Os shows são hiper concorridos, sucesso em palcos, o Cream é a banda mais fashion em 67. Clapton começa a circular com Jimi Hendrix. Os dois vão a bares onde tocam juntos, de surpresa. Ao mesmo tempo Clapton circula com a nova invenção inglesa, os hippies de sangue azul. São os filhos de barões e duques que caem na estrada e se tornam um tipo de ciganos chiques. Para essa galera, Eric Clapton é a coisa mais "In" que existe. Ele se envolve com Alice Ormsby-Gore, uma das mais ricas herdeiras (há uma foto dela, fascinante ), mas já nesse tempo, o coração dele tem dona: Pattie, a esposa de George Harrison.
O primeiro disco da The Band faz Clapton sair do Cream. Ele quer fazer aquele som. Simples, não uma ego-trip como o Cream se tornou. Forma com seu amigo Steve Winwood o Blind Faith, uma tentativa errada de ser The Band. Ao mesmo tempo toca com Lennon, Harrison, Stones e quem mais vier. Pattie o rejeita e ele vai pros EUA. Faz papel de músico de apoio na banda de Bonnie Bramlet e conhece muito pó, muita heroina e grandes músicos de lá. Namora a irmã de Pattie, traça várias fãs on the road. Vem Layla com uma nova banda: Derek and The Dominos, uma tentativa de zerar tudo. Afunda. Layla, dedicado desesperadamente a Pattie não faz com que ela largue George.
Fica 3 anos em casa, entre álcool e drogas, casos vazios. Pete Townshend o obriga a sair e faz em 74 o show da sua volta. Grava o disco do retorno, o muito bom 461 Ocean Boulevard, onde descobre o reggae. Mas desde então ( 1974 ) até o fim dos anos 80 a vida de Clapton se resume a garrafas e mais garrafas.
Nesse torpor de bebida se casa com Pattie. O que foi o desejo de sua vida se torna um inferno. Eric Clapton exibe coragem, conta tudo. A patetice, a idiotice. Ao contrário de Keith Richards ele nunca glamuriza: é o inferno. E se diverte. Eis a dificuldade: beber é divertido. E pior que isso, parar de beber significa abrir mão do que dá sentido a vida, beber.
Começa a tocar mal, grava discos ruins, bate o carro, escala edificios, ofende amigos, perde tempo. Tenta um tratamento, falha. Tentará novamente bem mais tarde. Numa cena comovente, se ajoelha e se entrega. Desiste de lutar. Se salva nesse momento. A partir daí o livro é a reconstrução da vida de um doente. Eric diz, minha prioridade não é minha música ou meus filhos, é me manter sóbrio. ( Ele não bebe a mais de 25 anos ). Tem um filho com uma italiana, esse garoto morre ao cair de uma janela. Tears in Heaven. Seus amigos do AA agradecem por ele não voltar a beber mesmo com essa dor. Eric passa a trabalhar pelos AA do mundo todo.
Uma bela vida? Uma sábia vida.
Guardo dois momentos de Eric Clapton comigo. O show para George, no aniversário de um ano de sua morte. E aqui no Brasil, recentemente. Olhar para ele é ver um homem são. Um cara que esteve lá e voltou. E que não se faz de "louco profissional". Sério. E agora, calmo, muito calmo.
Nas amenidades, Carla Bruni foi namorada de Eric nos anos 90. E foi roubada dele por Mick Jagger. Desde então Eric passou a sentir aversão por Jagger ( Jagger é famoso por roubar namoradas de amigos ). Bob Dylan, que é descrito por Eric como um cara impossível de se conhecer. E que chegou a morar numa tenda num jardim, nos anos 70. Fala do quanto Paul e John esnobavam George. Sua praia sempre foi o blues, blues de Buddy Guy, John Lee Hooker, Muddy e BB King. Duane Allman e Stevie Ray. Há também belos elogios a Hendrix, e a JJ Cale, um cara que mudou seu som.
Ao contrário do que acontece com a bio de Keith, esta dá vontade de conhecer o cara, de conversar com ele. Ele fala dos outros, não só de si, fala das artes ebulientes de 1960, de bandas como Small Faces, Who e Traffic, de pintura, de Ferraris, de muitas mulheres. E fala pouco de sua técnica, de como toca ou canta.
Disse que em 1967, filhos de nobres, belos e ricos, começaram a se vestir como ciganos, a se entupir de ideias zen e cair na estrada. Disse que Eric era o rei entre eles. Foram sábios esses nobres. Eric Clapton é o mais nobre dos ciganos e o mais humano dos rock stars.
sábado, 24 de novembro de 2012
ABBEY ROAD, 1969
John vai á frente. E em sua postura se percebe a vontade de ir sózinho. Branca é a cor do luto no oriente. Os outros são crianças pra ele. Ringo está pensando em seus filmes. E no alivio que seria não mais ter de tocar bateria. George olha para o nada. Azul cor de céu, a longa perna esticada. O caminho lhe parece reto e certo. Tudo é promessa.
Mas Paul... vai descalço e olha fixamente para a nuca de John que se afasta. Ele parece pequeno, solto, estranhamente só. Ao fundo a rua não acaba. Há um fusca e um senhor que olha. Um grupo a esquerda e as árvores. George Best jogava bola. Muhammad Ali soltava golpes. E Pelé socava o ar. Os 4 cruzam a rua. Que bela história eles fizeram! E na foto podemos ver: o terrível peso que oprimia essas quase crianças. Foram apenas seis anos! De 63 a 69. Uma era em seis verões. ( Que privilégio ser de uma geração cantada pelos quatro...e por Dylan e por Jagger...Não, a minha não é essa, a minha foi lamentada por Morrissey, Michael Stipe e Prince ).
O primeiro acorde desse que é meu disco favorito dos Beatles já mostra o estilo: Clássico. Estou falando em termos de "arte", pintura e literatura. Os Beatles vivem numa época romântica, mas nunca deixam de ser clássicos. Como Mozart e Velazquez, eles são perfeitos, geniais, completos e ao contrário dos românticos, nunca se deixam levar pela emoção. Por mais que suas canções nos emocionem, elas não são "emocionais". Tudo neles é "bem feito". O acaso, o desleixo, o rascunho lhes é estranho. Cada som é puro, é definido, o prato da bateria soa disciplinado, e até quando Paul grita é um grito bem acabado. Polido, clássico.
Outra definição do classicismo é o de jamais ser confessional. Mozart compunha coisas alegres mesmo desesperado. O clássico fala através de personagens. Repare como eles criam personagens, como quem fala é sempre alguém, nunca são os Beatles. Claro, isso mudará quando a romântica Yoko faz com que John comece a se revelar. John se torna confessional, centrado no Eu, se torna um romântico. O grupo, clássico em forma e em atitude não poderia o segurar. Quando John diz que cresceu e que eles eram infantis a coisa é mais complicada. John descobriu a alegria de ser Beethoven, Goethe ou Hugo.
Mas Paul... Paul vai morrer sendo clássico. Ele é educado. Ele não se revela. Tem pudor. Música não é confessionário. Não fica bem. E a arte deve ser polida, acabada, o objetivo é o EQUILÍBRIO. Há um belíssimo equilíbrio nos Beatles. Mesmo um disco "doido" como o Album Branco é equilibrado. Os sons, os efeitos, os ruídos têm definição, as faixas se completam, o todo é coeso em sua variedade. Nada, nem mesmo John, parece acidental. Nunca nada é feito "nas coxas". Comparar os Beatles com românticos narcisistas extremados como os Stones ou The Who é uma experiência muito rica. Tudo em Keith ou Townshend parece improvisado, mal feito, parece jorro de inspiração. ( Só parece ). Os Beatles trabalhavam duro. Nunca pareceram boêmios. Por isso pararam de fazer shows. Palco não é lugar de perfeccionismo. Principalmente em 1967.
Something é perfeita. Os acordes claptonianos da guitarra são claros como água e a bateria soa como percussão de peça erudita. E os violinos de fundo, o famoso dom de Paul para fazer tudo se harmonizar. Deus às vezes parece gostar de música.
Sim, eu tenho algumas restrições aos Beatles. São espirituais demais, bonzinhos demais, neles não existe sexo, carne ou diabo. Mas o que falar diante daquilo que eles fazem no lado B do vinil? Alguém pode reclamar de Pascal ou de Montaigne por eles não serem sexy? Quando Carry that Weight está terminando tudo clama: eis a perfeição no rock. Nada nunca mais será tão "belo".
Dizem que os Beatles temiam se soltar por suas origens plebéias. Havia neles o desejo de agradar típico das classes mais pobres. Músicos de origens privilegiadas tendem a ser mais românticos, a ter uma atitude mais "foda-se". Jagger perto de Paul era rico. Além do que eles eram de fora de Londres. Caipiras. OK. Pode ser verdade. Mas isso não poderia ser visto como uma dádiva a mais? Proletários que se firmam costumam ter muita fibra.
Mas Paul... Muita gente desde 1970 ficaria cobrando dele "o grande disco". Sua obra-prima final. Queriam que ele fosse o Cole Porter de sua geração, que ele deixasse uma coleção de radiografias ferinas e bem-humoradas sobre uma época. Hoje sabemos, sua grande obra é o conjunto de tudo o que ele fez. Ele não deixa um grande disco genial. Ele deixa um monte de momentos de gênio.
Olho a capa. Eles têm entre 28 e 26 anos na foto. Como seria ser um deles? Tenho a certeza que nem eles jamais souberam o que foi ser um Beatle...
Mas Paul... vai descalço e olha fixamente para a nuca de John que se afasta. Ele parece pequeno, solto, estranhamente só. Ao fundo a rua não acaba. Há um fusca e um senhor que olha. Um grupo a esquerda e as árvores. George Best jogava bola. Muhammad Ali soltava golpes. E Pelé socava o ar. Os 4 cruzam a rua. Que bela história eles fizeram! E na foto podemos ver: o terrível peso que oprimia essas quase crianças. Foram apenas seis anos! De 63 a 69. Uma era em seis verões. ( Que privilégio ser de uma geração cantada pelos quatro...e por Dylan e por Jagger...Não, a minha não é essa, a minha foi lamentada por Morrissey, Michael Stipe e Prince ).
O primeiro acorde desse que é meu disco favorito dos Beatles já mostra o estilo: Clássico. Estou falando em termos de "arte", pintura e literatura. Os Beatles vivem numa época romântica, mas nunca deixam de ser clássicos. Como Mozart e Velazquez, eles são perfeitos, geniais, completos e ao contrário dos românticos, nunca se deixam levar pela emoção. Por mais que suas canções nos emocionem, elas não são "emocionais". Tudo neles é "bem feito". O acaso, o desleixo, o rascunho lhes é estranho. Cada som é puro, é definido, o prato da bateria soa disciplinado, e até quando Paul grita é um grito bem acabado. Polido, clássico.
Outra definição do classicismo é o de jamais ser confessional. Mozart compunha coisas alegres mesmo desesperado. O clássico fala através de personagens. Repare como eles criam personagens, como quem fala é sempre alguém, nunca são os Beatles. Claro, isso mudará quando a romântica Yoko faz com que John comece a se revelar. John se torna confessional, centrado no Eu, se torna um romântico. O grupo, clássico em forma e em atitude não poderia o segurar. Quando John diz que cresceu e que eles eram infantis a coisa é mais complicada. John descobriu a alegria de ser Beethoven, Goethe ou Hugo.
Mas Paul... Paul vai morrer sendo clássico. Ele é educado. Ele não se revela. Tem pudor. Música não é confessionário. Não fica bem. E a arte deve ser polida, acabada, o objetivo é o EQUILÍBRIO. Há um belíssimo equilíbrio nos Beatles. Mesmo um disco "doido" como o Album Branco é equilibrado. Os sons, os efeitos, os ruídos têm definição, as faixas se completam, o todo é coeso em sua variedade. Nada, nem mesmo John, parece acidental. Nunca nada é feito "nas coxas". Comparar os Beatles com românticos narcisistas extremados como os Stones ou The Who é uma experiência muito rica. Tudo em Keith ou Townshend parece improvisado, mal feito, parece jorro de inspiração. ( Só parece ). Os Beatles trabalhavam duro. Nunca pareceram boêmios. Por isso pararam de fazer shows. Palco não é lugar de perfeccionismo. Principalmente em 1967.
Something é perfeita. Os acordes claptonianos da guitarra são claros como água e a bateria soa como percussão de peça erudita. E os violinos de fundo, o famoso dom de Paul para fazer tudo se harmonizar. Deus às vezes parece gostar de música.
Sim, eu tenho algumas restrições aos Beatles. São espirituais demais, bonzinhos demais, neles não existe sexo, carne ou diabo. Mas o que falar diante daquilo que eles fazem no lado B do vinil? Alguém pode reclamar de Pascal ou de Montaigne por eles não serem sexy? Quando Carry that Weight está terminando tudo clama: eis a perfeição no rock. Nada nunca mais será tão "belo".
Dizem que os Beatles temiam se soltar por suas origens plebéias. Havia neles o desejo de agradar típico das classes mais pobres. Músicos de origens privilegiadas tendem a ser mais românticos, a ter uma atitude mais "foda-se". Jagger perto de Paul era rico. Além do que eles eram de fora de Londres. Caipiras. OK. Pode ser verdade. Mas isso não poderia ser visto como uma dádiva a mais? Proletários que se firmam costumam ter muita fibra.
Mas Paul... Muita gente desde 1970 ficaria cobrando dele "o grande disco". Sua obra-prima final. Queriam que ele fosse o Cole Porter de sua geração, que ele deixasse uma coleção de radiografias ferinas e bem-humoradas sobre uma época. Hoje sabemos, sua grande obra é o conjunto de tudo o que ele fez. Ele não deixa um grande disco genial. Ele deixa um monte de momentos de gênio.
Olho a capa. Eles têm entre 28 e 26 anos na foto. Como seria ser um deles? Tenho a certeza que nem eles jamais souberam o que foi ser um Beatle...
domingo, 30 de setembro de 2012
O FIM DOS BEATLES É O COMEÇO DO LZ.
Quando em 1975 meu irmão e eu escutamos pela primeira vez o Led Zeppelin II, pensamos que ele tivesse sido gravado em 1975. Era uma reedição, e no selo do vinil vinha gravado o ano:1975. Quando descobrimos que na verdade era um disco do pré-histórico ano de 1969 ficamos abismados. ( Eu e ele ainda éramos crianças em 75. 1969 parecia a idade-média ).
Já tinhamso na época discos dos Beatles, Roberto Carlos, Pink Floyd e Monkees. 1969 era para nós sons como Come Together ou ABC com os Jackson Five. Guitarras de 69 deveriam ter o som de John Fogerty no Creedence ou de Jimi Hendrix em Hey Joe. Mas o som do Led em 1969 parecia antecipar o gigantismo de 1975. Ao lado dos hits de 69, coisas ótimas mas datadas como Sugar, Sugar ou Crimson and Clover; a banda de Plant, Page, Jones e Bonham parecia ter muito mais em comum com os tempos de Queen, Aerosmith e Kiss. Bem, na verdade eles pariram a década de 70. E o hard-rock dos 80, infelizmente, também. E ainda o dos 90, 2000, 2010 e um etc sem mais fim.
Há uma bela teoria que diz que os Beatles terminaram não por brigas de Paul e John ou apuros na Apple. Na verdade eles perceberam, genialmente, que a onda era outra e que aos 27, 28 anos, eles começavam a ser chamados de vovôs. Sly Stone, King Crimson, James Brown, MC5, faziam com que os 4 de Liverpool parecessem antigos como Elvis. E as vendas caíam sem parar. Os Jackson Five, o Blood Sweat and Tears e principalmente os Creedence Clearwater vendiam mais. Assim como Pelé, eles souberam quando encerrar o sonho.
Se antes a bateria de Ringo podia ser comparada a de Charlie Watts ou de Keith Moon ( a mesma sonoridade, o mesmo timbre ), se os solos de George ainda tinham tudo a ver com a escola Chuck Berry de Keith Richards ou Dave Davies, agora, com o Led, tudo isso parecia muito velho. A`^enfase das bandas dos 60 era criatividade e beleza, agora o parâmetro era potência e técnica.
Assistir essa apresentação dos Led em 1969 é ver o futuro em ação. Apesar do choque que é ver Plant ainda belo e com excelente voz, ou Bonham ainda com a energia pré-alcoolismo, o choque verdadeiro é perceber que de Jack White a Red Hot Chili Peppers, passando por Jeff Buckley e Stone Temple Pilots, toda banda com alguma virilidade dos últimos 40 anos bebeu na fonte Zeppeliniana. ( Excessão, óbvia, ao punk, a antítese da tese ledzeppeliniana. Para o punk, o rock cessa em Yardbirds e Kinks ).
Já tinhamso na época discos dos Beatles, Roberto Carlos, Pink Floyd e Monkees. 1969 era para nós sons como Come Together ou ABC com os Jackson Five. Guitarras de 69 deveriam ter o som de John Fogerty no Creedence ou de Jimi Hendrix em Hey Joe. Mas o som do Led em 1969 parecia antecipar o gigantismo de 1975. Ao lado dos hits de 69, coisas ótimas mas datadas como Sugar, Sugar ou Crimson and Clover; a banda de Plant, Page, Jones e Bonham parecia ter muito mais em comum com os tempos de Queen, Aerosmith e Kiss. Bem, na verdade eles pariram a década de 70. E o hard-rock dos 80, infelizmente, também. E ainda o dos 90, 2000, 2010 e um etc sem mais fim.
Há uma bela teoria que diz que os Beatles terminaram não por brigas de Paul e John ou apuros na Apple. Na verdade eles perceberam, genialmente, que a onda era outra e que aos 27, 28 anos, eles começavam a ser chamados de vovôs. Sly Stone, King Crimson, James Brown, MC5, faziam com que os 4 de Liverpool parecessem antigos como Elvis. E as vendas caíam sem parar. Os Jackson Five, o Blood Sweat and Tears e principalmente os Creedence Clearwater vendiam mais. Assim como Pelé, eles souberam quando encerrar o sonho.
Se antes a bateria de Ringo podia ser comparada a de Charlie Watts ou de Keith Moon ( a mesma sonoridade, o mesmo timbre ), se os solos de George ainda tinham tudo a ver com a escola Chuck Berry de Keith Richards ou Dave Davies, agora, com o Led, tudo isso parecia muito velho. A`^enfase das bandas dos 60 era criatividade e beleza, agora o parâmetro era potência e técnica.
Assistir essa apresentação dos Led em 1969 é ver o futuro em ação. Apesar do choque que é ver Plant ainda belo e com excelente voz, ou Bonham ainda com a energia pré-alcoolismo, o choque verdadeiro é perceber que de Jack White a Red Hot Chili Peppers, passando por Jeff Buckley e Stone Temple Pilots, toda banda com alguma virilidade dos últimos 40 anos bebeu na fonte Zeppeliniana. ( Excessão, óbvia, ao punk, a antítese da tese ledzeppeliniana. Para o punk, o rock cessa em Yardbirds e Kinks ).
quarta-feira, 25 de abril de 2012
OTTO MARIA CARPEAUX, PAULO FRANCIS, MOZART, NELSON FREIRE, COWARD E BEBÊS
Alvíssaras! Hallellujas!!!! O maior dos pianistas toca em São Paulo a melhor das músicas! O inigualável Nelson Freire toca o concerto número vinte para piano e orquestra, de Mozart. Na sala São Paulo. Ouvir o concerto 20 de Mozart justifica toda uma vida. O gênio da Austria antecipa o gênio de Bonn. É música absoluta, existencial. Tudo o que se pode expressar de belo e de terrível em arte é dito nesse concerto. Que se inicia com os mais soberbos acordes. Já escrevi sobre esse concerto anos atrás. Digite Mozart aí ao lado e leia. Mas preciso dizer: ninguém que diga amar a música pode ser levado a sério se não houver vivenciado a honra de escutar esta peça. Se minha vida fosse mais elevada ela seria digna de um acorde desse concerto. Recordo que ao o escutar pela primeira vez, em 1979, pensei: "Deus existe!" Pois essa música nos dá a certeza de que um punhado de neurônios e de proteína não poderia criar tanta emoção. Se Deus não existe, então Mozart criou aqui a Sua melodia. Justifique a sua vida, vá ver e ouvir.
Sairam dois volumes com textos de Otto Maria Carpeaux. O famoso OMC. Carpeaux civilizou esta taba. Escrevendo em jornal e revista, ele formou o gosto de três gerações. Otto dá a sensação de ter lido tudo, visto tudo e escutado o que vale a pena escutar. Seu "História da Música Ocidental" é tudo aquilo que se deve ler para se iniciar nos segredos da grande música. Nestes volumes ele fala de escritores, filósofos, pintores, amigos, e outras coisas mais. Se voce quer dar um salto de qualidade em sua vida leia os dois. Foi OMC quem, com seus verbetes na velha Barsa, me abriu ouvidos para compositores e olhos para certos autores. O que me leva a pensar o seguinte: as pessoas ainda entram em enciclopédias, mesmo virtuais, para conhecer aquilo que não conhecem? Procurar quem são os maiores autores ou os grandes pintores? Ou precisa um professor, um amigo, ou pior, uma noticia de jornal, para que o garoto ouça o nome de alguém que ele já deveria ter conhecido por iniciativa própria. OMC vai ajudar muito esse garoto. Mas acho que quem irá lê-lo é aquele que já conhece aquilo sobre o que ele fala. Pena.
Publicaram um volume com colunas de Paulo Francis. Aconselhável para aqueles que entenderam a frase de Scott Fitzgerald que Pondé citou: "Inteligência é a capacidade de ter duas ideias divergentes ao mesmo tempo. E mantê-las." Francis era o máximo da inteligência. Já falei e repito, sem ele eu jamais teria sabido apreciar os atores ingleses ( Rex Harrison, Gielgud, Redgrave e Olivier ), ou autores como Waugh e Huxley. A única coisa que me irritava nele era sua idolatria a Wagner. Fora isso ele era perfeito.
Escrevi por aí que SP tinha a alegria de ter peça de Noel Coward em cartaz. Esqueça. Transformaram o mais fino dos ingleses em um tipo de "Sai de Baixo" de segunda. Harold Pinter não teve melhor destino. Seu beco sem saída, sua acidez, se transformaram em teatrinho de raivinha. Um saco.
Mas "Pina" de Wim Wenders ainda está em cartaz. Espero que voce mereça ter esse deslumbramento.
Leio na Veja que as pessoas viverão até os 100.
O que me irrita na esquerda é sua cegueira, e o que me irrita na direita é seu otimismo cor de rosa. Vamos viver até os 100? Quem vai pagar a conta? Os jovens irão ter menores salários? Ou as aposentadorias começarão aos 85? God!!! Um mundo cheio de velhos de 90 se comportando como adolescentes!!!! Pior, uma adolescência que irá dos 10 aos 90 !!!!! Bandas de rock com 100 anos de estrada e "Se Beber não Case" parte 38.... Socorro!!!!!
Meu professor fala que o feto é marcado para toda a vida por tudo aquilo que a mãe lhe fala e pelo som ambiente. Não tenho culpa de ter sido um feto vivendo no paraíso. Cantos de pássaros, galos de noite e Sinatra que meu pai ouvia de manhã. A depressão que sinto às vezes decorre de ter conhecido o paraíso e de hoje ter de me conformar com o apenas "legalzinho". Se hoje nossos bebês estão conhecendo a vida via Funk, carros que buzinam e anúncios barulhentos na TV; eu recebi as boas vindas ao som de conversas na sala, vozes de crianças na rua e Beatles mais Roberto Carlos no rádio de minha mãe.
Não consigo imaginar paraíso melhor.
Sairam dois volumes com textos de Otto Maria Carpeaux. O famoso OMC. Carpeaux civilizou esta taba. Escrevendo em jornal e revista, ele formou o gosto de três gerações. Otto dá a sensação de ter lido tudo, visto tudo e escutado o que vale a pena escutar. Seu "História da Música Ocidental" é tudo aquilo que se deve ler para se iniciar nos segredos da grande música. Nestes volumes ele fala de escritores, filósofos, pintores, amigos, e outras coisas mais. Se voce quer dar um salto de qualidade em sua vida leia os dois. Foi OMC quem, com seus verbetes na velha Barsa, me abriu ouvidos para compositores e olhos para certos autores. O que me leva a pensar o seguinte: as pessoas ainda entram em enciclopédias, mesmo virtuais, para conhecer aquilo que não conhecem? Procurar quem são os maiores autores ou os grandes pintores? Ou precisa um professor, um amigo, ou pior, uma noticia de jornal, para que o garoto ouça o nome de alguém que ele já deveria ter conhecido por iniciativa própria. OMC vai ajudar muito esse garoto. Mas acho que quem irá lê-lo é aquele que já conhece aquilo sobre o que ele fala. Pena.
Publicaram um volume com colunas de Paulo Francis. Aconselhável para aqueles que entenderam a frase de Scott Fitzgerald que Pondé citou: "Inteligência é a capacidade de ter duas ideias divergentes ao mesmo tempo. E mantê-las." Francis era o máximo da inteligência. Já falei e repito, sem ele eu jamais teria sabido apreciar os atores ingleses ( Rex Harrison, Gielgud, Redgrave e Olivier ), ou autores como Waugh e Huxley. A única coisa que me irritava nele era sua idolatria a Wagner. Fora isso ele era perfeito.
Escrevi por aí que SP tinha a alegria de ter peça de Noel Coward em cartaz. Esqueça. Transformaram o mais fino dos ingleses em um tipo de "Sai de Baixo" de segunda. Harold Pinter não teve melhor destino. Seu beco sem saída, sua acidez, se transformaram em teatrinho de raivinha. Um saco.
Mas "Pina" de Wim Wenders ainda está em cartaz. Espero que voce mereça ter esse deslumbramento.
Leio na Veja que as pessoas viverão até os 100.
O que me irrita na esquerda é sua cegueira, e o que me irrita na direita é seu otimismo cor de rosa. Vamos viver até os 100? Quem vai pagar a conta? Os jovens irão ter menores salários? Ou as aposentadorias começarão aos 85? God!!! Um mundo cheio de velhos de 90 se comportando como adolescentes!!!! Pior, uma adolescência que irá dos 10 aos 90 !!!!! Bandas de rock com 100 anos de estrada e "Se Beber não Case" parte 38.... Socorro!!!!!
Meu professor fala que o feto é marcado para toda a vida por tudo aquilo que a mãe lhe fala e pelo som ambiente. Não tenho culpa de ter sido um feto vivendo no paraíso. Cantos de pássaros, galos de noite e Sinatra que meu pai ouvia de manhã. A depressão que sinto às vezes decorre de ter conhecido o paraíso e de hoje ter de me conformar com o apenas "legalzinho". Se hoje nossos bebês estão conhecendo a vida via Funk, carros que buzinam e anúncios barulhentos na TV; eu recebi as boas vindas ao som de conversas na sala, vozes de crianças na rua e Beatles mais Roberto Carlos no rádio de minha mãe.
Não consigo imaginar paraíso melhor.
segunda-feira, 9 de abril de 2012
PRAZERES SECRETOS
Uma coisa que é só sua e de mais ninguém. A revolução da mente humana se deu quando o homem se viu, pela primeira vez, como individuo único. Ele percebeu que só ele vivia aquela vida, só ele sentia o que ele sentia e só ele sabia o que ele sabia. Mais que tudo, ele possuia sua vida e com ela seus segredos e mistérios.
Todos, ou quase todos, viveram um primeiro amor. E é nesse amor envergonhado e recolhido que pela primeira vez descobrimos o prazer de se ter um segredo. Nossos pais não podem saber disso. É aí que damos o salto, ficamos á parte da familia, temos algo que é só nosso, o amor. E o acalentamos. O deixamos crescer dentro de nós. Torna-se sagrado. Entenda, em sociedades arcaicas isso não existe. Tudo ocorre ás claras, não há segredo e individuação, voce é sua comunidade, voce é tudo.
Ontem, conversando com um amigo, ele me conta da "vida compartilhada" de agora. Tudo que voce faz deve ser dividido com os outros. Voce só existe para eles.
Ora, isso é antigo, muito antigo. E é irônico que a tecnologia nos leve cada vez mais para hábitos de um remoto passado. A certeza de que uma coisa só tem valor se for "da comunidade, da rede". Seja um show, uma festa ou uma viagem, ela só é válida e "importante" se for dividida e de preferência bastante compartilhada. A pessoa abre mão da experiência pessoal, e a transforma sempre num tipo de reportagem para todos.
O caminho que temos, cerebral, sempre foi o de sentir, absorver, guardar, elaborar e memorizar. Depois vinha a transmissão. Agora o trajeto é sentir, elaborar e transmitir. Não há tempo de absorver, nada se guarda e a memória se encurta. A experiência é logo expelida para a rede e prontamente esquecida. O cérebro se esvazia e fica ávido por mais uma experiência ( cérebros abominam o vazio ), e essa nova experiência logo vem...e outra e outra e outra.... O amadurecimento se torna impossível. A vida interior se faz rala.
Penso então nos Beatles. Sim, nos Beatles. Eles tiveram a sorte de passar anos à margem do mundo. Tocando, compondo, se afirmando. Elaborando toda uma carreira dentro de si. Pegando aquele som tão "cover", Buddy Holly e Everly Brothers, e fazendo suas tentativas de originalidade. Até que anos mais tarde explodissem e se tornassem mundiais. O que seria deles hoje? Em 1960 já teriam videos na rede e faixas para download. Sentiriam desde o inicio o "gosto" da exposição. E pior, seu espirito se atiraria para fora, para o que os outros esperam. Amadurecimento, recolhimento, espera, jamais.
Outro exemplo. Ingmar Bergman.
Bergman passou dez anos fazendo um filme por ano. E nada acontecia fora da Suécia. Ninguém o conhecia. Então o que ele podia fazer? Podia aprender. Com calma, sem se sentir exposto, dentro de si, ele foi desenvolvendo um estilo pessoal. Sem pressa, filme a filme. Quando estourou em 1956 já tinha firmeza, certeza, calejamento. Estava pronto. O que seria dele hoje? Teria desde "PORTO", em 1946, seu fã-clube. E normalmente o que ele faria? Se conformaria em ser para sempre o ídolo desse fã. Na rede, precocemente ele se acreditaria pronto. Faria fé do hype criado a seu redor.
Prazeres secretos. Alguém ainda os tem?
Existe algum segredo? O prazer de comprar um disco do Velvet Underground no Brasil em 1981. E saber que nenhum amigo conhecia essa banda. E então, amar essa banda em solidão. E chegar a crer que ela é sua. Mais ainda, que seu amor a mantém viva. Cuidar desse amor que é seu e portanto se TORNA VOCE. Esse é o aprendizado da individuação.
Todos, ou quase todos, viveram um primeiro amor. E é nesse amor envergonhado e recolhido que pela primeira vez descobrimos o prazer de se ter um segredo. Nossos pais não podem saber disso. É aí que damos o salto, ficamos á parte da familia, temos algo que é só nosso, o amor. E o acalentamos. O deixamos crescer dentro de nós. Torna-se sagrado. Entenda, em sociedades arcaicas isso não existe. Tudo ocorre ás claras, não há segredo e individuação, voce é sua comunidade, voce é tudo.
Ontem, conversando com um amigo, ele me conta da "vida compartilhada" de agora. Tudo que voce faz deve ser dividido com os outros. Voce só existe para eles.
Ora, isso é antigo, muito antigo. E é irônico que a tecnologia nos leve cada vez mais para hábitos de um remoto passado. A certeza de que uma coisa só tem valor se for "da comunidade, da rede". Seja um show, uma festa ou uma viagem, ela só é válida e "importante" se for dividida e de preferência bastante compartilhada. A pessoa abre mão da experiência pessoal, e a transforma sempre num tipo de reportagem para todos.
O caminho que temos, cerebral, sempre foi o de sentir, absorver, guardar, elaborar e memorizar. Depois vinha a transmissão. Agora o trajeto é sentir, elaborar e transmitir. Não há tempo de absorver, nada se guarda e a memória se encurta. A experiência é logo expelida para a rede e prontamente esquecida. O cérebro se esvazia e fica ávido por mais uma experiência ( cérebros abominam o vazio ), e essa nova experiência logo vem...e outra e outra e outra.... O amadurecimento se torna impossível. A vida interior se faz rala.
Penso então nos Beatles. Sim, nos Beatles. Eles tiveram a sorte de passar anos à margem do mundo. Tocando, compondo, se afirmando. Elaborando toda uma carreira dentro de si. Pegando aquele som tão "cover", Buddy Holly e Everly Brothers, e fazendo suas tentativas de originalidade. Até que anos mais tarde explodissem e se tornassem mundiais. O que seria deles hoje? Em 1960 já teriam videos na rede e faixas para download. Sentiriam desde o inicio o "gosto" da exposição. E pior, seu espirito se atiraria para fora, para o que os outros esperam. Amadurecimento, recolhimento, espera, jamais.
Outro exemplo. Ingmar Bergman.
Bergman passou dez anos fazendo um filme por ano. E nada acontecia fora da Suécia. Ninguém o conhecia. Então o que ele podia fazer? Podia aprender. Com calma, sem se sentir exposto, dentro de si, ele foi desenvolvendo um estilo pessoal. Sem pressa, filme a filme. Quando estourou em 1956 já tinha firmeza, certeza, calejamento. Estava pronto. O que seria dele hoje? Teria desde "PORTO", em 1946, seu fã-clube. E normalmente o que ele faria? Se conformaria em ser para sempre o ídolo desse fã. Na rede, precocemente ele se acreditaria pronto. Faria fé do hype criado a seu redor.
Prazeres secretos. Alguém ainda os tem?
Existe algum segredo? O prazer de comprar um disco do Velvet Underground no Brasil em 1981. E saber que nenhum amigo conhecia essa banda. E então, amar essa banda em solidão. E chegar a crer que ela é sua. Mais ainda, que seu amor a mantém viva. Cuidar desse amor que é seu e portanto se TORNA VOCE. Esse é o aprendizado da individuação.
terça-feira, 15 de novembro de 2011
BEATLES E ROLLING STONES, A GENÉTICA DO POP ( BASEADO EM TESE DE KEN EMERSON, ENCICLOPÉDIA DO ROCK, ROLLING STONE )
Os Beatles nasceram pobres. Tiveram uma educação truncada e começaram a ralar desde cedo. Seu objetivo era a sobrevivência. Trabalhar e ser aceito.
Os Stones que contam ( Jagger, Keith e Brian ), cresceram no seio da ascendente classe média inglesa dos anos 50. Estudaram em escolas de arte ( Mick se formou em economia ). Seu objetivo era se exibir. Ser famoso e incomodar.
Essas são as duas atitudes opostas que marcaram todo o pop feito desde então.
A atitude Beatle, em que a banda ama seus fãs, e em que a ingenuidade idealista permeia tudo o que é feito. Os Beatles, mesmo quando de vanguarda, sempre procuram se comunicar com seu fã. E fundam a Apple em pensamento de extrema naive. Uma gravadora de amigos para os amigos.
Os Stones sempre foram indiferentes a seus fãs. Eles desejam ser amados, nunca nos amam. Nada neles é ingênuo, tudo é calculado. A Rolling Stone Records existe apenas para administrar a carreira do grupo. A atitude deles é sempre a de "vejam como sou diferente".
Ingenuamente Paul acreditou nos Beatles, ingenuamente John acreditou na paz, ingenuamente George acreditou em gurus e ingenuamente Ringo acreditou nos anos 60.
Jagger e Richards jamais acreditaram em nada que não fosse neles mesmos. Jagger acreditou também em sexo e dinheiro. Richards em drogas e no blues. E todos os Stones nunca tiveram a ingenuidade de crer em seus fãs. Para eles os anos 60 foram cinicos.
Os Beatles sempre são sérios. E tudo o que cantam luta para ser sincero. São reis do lá lá lá cantado em coro com seus fãs. Devolvem o afeto que recebem.
Os Stones nunca parecem sinceros. E jamais são sérios. Eles podem ser assustadores, vaidosos, sexys ou raivosos, mas nunca são confessionais. Não fazem nada para ser cantado em coro e sugam o afeto que recebem. Devolvem ele em forma de risos e deboche.
Nos Beatles há toda a herança do meio em que cresceram. Eles são trabalhadores. E têm um modo cristianizado de agir. Há dor e culpa sinceras neles.
Os Stones são pagãos. Seu modo de ser é completamente classe-média. Estão na coisa para se dar bem. Para fazer algo contra o tédio, contra o anonimato. São blasé.
Let it be ou Hey Jude, All You Need Is Love ou I Am The Walrus são impossíveis no mundo dos Stones. Elas são todas confissões. São espirito.
Sympathy For The Devil ou Under My Thumb, Let It Bleed ou Brown Sugar são impensáveis para os Beatles. São todas "do mal". São carne.
Todo o pop desde então conformou-se a essas atitudes. Ou voce ama seu público ( U2 ), ou é frio com eles ( Led Zeppelin ).
Amável ou excitante, naive ou cínico.
Os Stones que contam ( Jagger, Keith e Brian ), cresceram no seio da ascendente classe média inglesa dos anos 50. Estudaram em escolas de arte ( Mick se formou em economia ). Seu objetivo era se exibir. Ser famoso e incomodar.
Essas são as duas atitudes opostas que marcaram todo o pop feito desde então.
A atitude Beatle, em que a banda ama seus fãs, e em que a ingenuidade idealista permeia tudo o que é feito. Os Beatles, mesmo quando de vanguarda, sempre procuram se comunicar com seu fã. E fundam a Apple em pensamento de extrema naive. Uma gravadora de amigos para os amigos.
Os Stones sempre foram indiferentes a seus fãs. Eles desejam ser amados, nunca nos amam. Nada neles é ingênuo, tudo é calculado. A Rolling Stone Records existe apenas para administrar a carreira do grupo. A atitude deles é sempre a de "vejam como sou diferente".
Ingenuamente Paul acreditou nos Beatles, ingenuamente John acreditou na paz, ingenuamente George acreditou em gurus e ingenuamente Ringo acreditou nos anos 60.
Jagger e Richards jamais acreditaram em nada que não fosse neles mesmos. Jagger acreditou também em sexo e dinheiro. Richards em drogas e no blues. E todos os Stones nunca tiveram a ingenuidade de crer em seus fãs. Para eles os anos 60 foram cinicos.
Os Beatles sempre são sérios. E tudo o que cantam luta para ser sincero. São reis do lá lá lá cantado em coro com seus fãs. Devolvem o afeto que recebem.
Os Stones nunca parecem sinceros. E jamais são sérios. Eles podem ser assustadores, vaidosos, sexys ou raivosos, mas nunca são confessionais. Não fazem nada para ser cantado em coro e sugam o afeto que recebem. Devolvem ele em forma de risos e deboche.
Nos Beatles há toda a herança do meio em que cresceram. Eles são trabalhadores. E têm um modo cristianizado de agir. Há dor e culpa sinceras neles.
Os Stones são pagãos. Seu modo de ser é completamente classe-média. Estão na coisa para se dar bem. Para fazer algo contra o tédio, contra o anonimato. São blasé.
Let it be ou Hey Jude, All You Need Is Love ou I Am The Walrus são impossíveis no mundo dos Stones. Elas são todas confissões. São espirito.
Sympathy For The Devil ou Under My Thumb, Let It Bleed ou Brown Sugar são impensáveis para os Beatles. São todas "do mal". São carne.
Todo o pop desde então conformou-se a essas atitudes. Ou voce ama seu público ( U2 ), ou é frio com eles ( Led Zeppelin ).
Amável ou excitante, naive ou cínico.
sábado, 5 de fevereiro de 2011
VIDA, UM LIVRO ( ENERGÉTICO, LIBERTÁRIO, VITAL ) DE KEITH RICHARDS
O maior elogio que se pode fazer a Keith Richards é chamá-lo de negro. O objetivo dos Stones sempre foi esse: ser uma banda de black music, de preferência como as de Muddy Waters ou John Lee Hooker. Em 1965, nos EUA, músicos da Stax lhe disseram pensar que Satisfaction fosse alguma canção americana. Era dificil para aqueles negros crer que aquela música fosse feita por branquelos da terra dos Beatles. Esse foi o maior elogio que KR poderia receber.
Ele sempre foi do blues. Assim como Charlie Watts foi do jazz e Jagger do soul. E mesmo quando ele foi country ou disco, era um tipo de country-blues e disco-blue. Quando em 1973 Keith foi morar na Jamaica, os batedores de tambor das favelas jamaicanas logo o chamaram de negro. Um garoto feio de Dartford-England, nascido em meio ao ruido das bombas nazi, ter conseguido ser um preto do Tennessee e um rasta da Jamaica... bem, é um milagre.
Keith não faz drama com nada. Sua lição é: foda-se! Da infancia rebelde, filho único de mãe alegre que traía o pai com o vizinho mais jovem, aos momentos ( vários ) de quase-morte, nada vira drama, nada é lamentado. Ele é muito forte. Keith Richards é um cowboy, um pirata, e porque não, um herói.
O livro é cheio de momentos curiosos, de coisas que mesmo os fãs não sabiam, e melhor, nada é muito fantástico. Ele não aumenta, não mitifica, escolhe ser simpático, mas nunca hollywoodiano. Ficamos sabendo que Bobby Keys é seu melhor amigo, que Charlie Watts é um dandy que só gosta de jazz. Me chóco ao saber o quanto KR chama Brian Jones de escroto, um cara que se achava o máximo, um músico que deixou de tocar e que se afundava em auto-piedade. Keith conta a noite em que Marlon Brando tentou ir pra cama com ele e Anita ( sua esposa ), e melhor, descreve o clima de Londres em 65/67: Londres com seus pintores Pop, os herdeiros de sangue azul se entupindo de LSD, a descoberta de que tudo era permitido, os escritores, os cineastas, as groupies. Mick Jagger como um atlético conquistador, KR como um cara que precisava de carinho, dormir junto, ter alguma história.
As drogas. Ele passa tempos enormes vivendo por e para elas. Na década de 60 drogas eram coisa desconhecida. Eram usadas como descoberta, afronta, porta para fora da sociedade. Nos anos 70 elas se tornam moda, são usadas como documento para ser "in", e nos 80 são remédios para fazer tudo funcionar. Hoje são coisas para divertir, produto para criar uma sensação rápida e passageira.
Keith nunca demonstra o menor arrependimento. Ele usava drogas porque lhe davam prazer. É só isso, nada mais, e ele deixa isso bem claro. Tomava uma droga para acordar, uma outra pós-café para ficar ligado, droga de trabalho, droga para se acalmar, droga para pensar melhor e droga para ficar 3 dias de pé. Ele diz sentir saudades das drogas antigas, que não são mais fabricadas. Conta que o segredo para ter sobrevivido é nunca ter tomado nada de segunda, sua cocaína era Merck, direto do laboratório, tão pura que flutuava no ar; sua heroína era papoula 100% tailandesa, barbitúricos de farmácias de confiança e por aí vai... não há nada de sofrido, nada de culpa, nada de "agora vi a luz"; e também nada de "veja como sou louco". As loucuras que ele conta são nada glamurosas, e nenhuma é sexual.
Pesada é apenas a história de Anita, a maravilhosa Anita, modelo alemã, ex-Brian Jones ( tem uma história muito boa dela e de Keith fugindo de Brian no Marrocos ), mais doida que KR e que tinha conexões com Andy Warhol, Fellini e Roger Vadim. Nos anos 70 ela entra na paranóia pura e o casamento naufraga. KR é salvo por Patti Hansen, uma saudável modelo americana, sua esposa até hoje. È bonito perceber então, já lá no fim do livro, que Keith nunca mudou. O guitarrista espinhudo do Ed Sullivan Show é o mesmo cara do Piratas do Caribe. Como eu, Keith nada joga fora. Se ele descobre rap, reggae, disco, funk, o que for, ele os adiciona ao que já conhecia; ao contrário de Jagger, que para se reciclar precisa jogar fora o passado, KR preserva e revaloriza sempre tudo o que foi. Ele soma, nunca substitue.
Gram Parsons é o cara a quem ele tece os maiores elogios. É ótimo ler o que ele fala sobre amizade. Assim como é legal ver o que ele diz sobre John Lennon, um cara que aparecia sempre em seu apartamento, que tentava seguir seu ritmo de drogas, mas que sempre terminava a noite no banheiro, desmaiado ao lado do vaso e dizendo: "Onde estou?"
Stones e Beatles se comunicavam sempre: " Hey John, estou com uma nova aqui, voces vão lançar algo agora?...Então espera 3 semanas, eu lanço agora e voces depois." Paul foi procurar Keith quando brigou com Heather Mills ( 2005 ) na Jamaica ( Keith mora lá, vizinho de Bruce Willis ), os dois chegaram a compor juntos e Keith disse a ele que a grande diferença entre Beatles e eles é que os Beatles sempre foram um grupo vocal. Tudo neles tem a voz por base, a parte instrumental só como acompanhamento; os Stones são um grupo instrumental, a base é sempre um riff, uma levada de guitarra. Brancos e negros, certo?
Ele conta como gravaram o Banquete dos Mendigos, em gravadorzinhos Phillips, apenas violões em volume alto que se distorciam pela pouca potência do gravador. Um tipo de som que hoje se perdeu. Conta a saga das gravações de Exile e desce a lenha em Jagger.
Não vou falar dessa parte. Acho dificil. Mas concordo que MJ tentou ser David Bowie na década de 80 ( todos tentaram e se ferraram. Bowie em 1983 estourou como ídolo teen-inteligente, todos os caras de sua geração tentaram operar o mesmo milagre, de Ferry a Rod, de Paul a Eric ). Keith acha um absurdo Jagger querer ser Bowie, pois Jagger é muito melhor que Bowie, o que ele fez foi se rebaixar. Dá pra discordar?
Keith diz sonhar em sempre fazer blues, Jagger odeia recordar Exile ou Let It Bleed.
É lindo ler sobre seu reencontro com o pai, trinta anos sem o ver. O pai, velho, tornou-se um tipo de pirata, um velho de pub, conquistador, forte, duro, o cara. ( Há uma foto linda no livro, os dois juntos ).
Já no fim, quando diz passar muito tempo lendo, Keith toca numa coisa Junguiana, não sei se sem querer. É quando ele fala dos horários. Que é uma besteira da revolução industrial, um conto do vigário, essa coisa de que devemos comer ao meio-dia, dormir oito horas por noite... tipo: hora de comer, hora de acordar, hora de transar...Foda-se, Keith diz que o certo é comer quando dá fome, dormir quando se tem sono e transar quando há desejo. E a droga entra nisso também. Cada um tem seu tempo, seu limite, seu ritmo, cada um é um.
E vem daí aquela fala linda que ele escreve, de que ele sabe ser um simbolo, e que todo cara que se fode trabalhando num emprego de merda, com um horário cruel e uma vida sem sal, tem dentro de si um Keith Richards asfixiado e que cabe a ele representar esse cara que insiste em viver dentro de cada um.
Isso é lindo. E o livro é lindo.
Dá uma puta tristeza quando acaba. A gente pensa: Que merda, eu estava me acostumando a ficar com Keith toda tarde! Que bosta de saudade desse cara do caralho!
Após ler o livro eu não aumento meu amor por Keith Richards. Isso seria impossível. Ele é meu anjo do mal desde 1974. Mas aumentou meu respeito por ele. Keith Richards é um grande cara!
Ele sempre foi do blues. Assim como Charlie Watts foi do jazz e Jagger do soul. E mesmo quando ele foi country ou disco, era um tipo de country-blues e disco-blue. Quando em 1973 Keith foi morar na Jamaica, os batedores de tambor das favelas jamaicanas logo o chamaram de negro. Um garoto feio de Dartford-England, nascido em meio ao ruido das bombas nazi, ter conseguido ser um preto do Tennessee e um rasta da Jamaica... bem, é um milagre.
Keith não faz drama com nada. Sua lição é: foda-se! Da infancia rebelde, filho único de mãe alegre que traía o pai com o vizinho mais jovem, aos momentos ( vários ) de quase-morte, nada vira drama, nada é lamentado. Ele é muito forte. Keith Richards é um cowboy, um pirata, e porque não, um herói.
O livro é cheio de momentos curiosos, de coisas que mesmo os fãs não sabiam, e melhor, nada é muito fantástico. Ele não aumenta, não mitifica, escolhe ser simpático, mas nunca hollywoodiano. Ficamos sabendo que Bobby Keys é seu melhor amigo, que Charlie Watts é um dandy que só gosta de jazz. Me chóco ao saber o quanto KR chama Brian Jones de escroto, um cara que se achava o máximo, um músico que deixou de tocar e que se afundava em auto-piedade. Keith conta a noite em que Marlon Brando tentou ir pra cama com ele e Anita ( sua esposa ), e melhor, descreve o clima de Londres em 65/67: Londres com seus pintores Pop, os herdeiros de sangue azul se entupindo de LSD, a descoberta de que tudo era permitido, os escritores, os cineastas, as groupies. Mick Jagger como um atlético conquistador, KR como um cara que precisava de carinho, dormir junto, ter alguma história.
As drogas. Ele passa tempos enormes vivendo por e para elas. Na década de 60 drogas eram coisa desconhecida. Eram usadas como descoberta, afronta, porta para fora da sociedade. Nos anos 70 elas se tornam moda, são usadas como documento para ser "in", e nos 80 são remédios para fazer tudo funcionar. Hoje são coisas para divertir, produto para criar uma sensação rápida e passageira.
Keith nunca demonstra o menor arrependimento. Ele usava drogas porque lhe davam prazer. É só isso, nada mais, e ele deixa isso bem claro. Tomava uma droga para acordar, uma outra pós-café para ficar ligado, droga de trabalho, droga para se acalmar, droga para pensar melhor e droga para ficar 3 dias de pé. Ele diz sentir saudades das drogas antigas, que não são mais fabricadas. Conta que o segredo para ter sobrevivido é nunca ter tomado nada de segunda, sua cocaína era Merck, direto do laboratório, tão pura que flutuava no ar; sua heroína era papoula 100% tailandesa, barbitúricos de farmácias de confiança e por aí vai... não há nada de sofrido, nada de culpa, nada de "agora vi a luz"; e também nada de "veja como sou louco". As loucuras que ele conta são nada glamurosas, e nenhuma é sexual.
Pesada é apenas a história de Anita, a maravilhosa Anita, modelo alemã, ex-Brian Jones ( tem uma história muito boa dela e de Keith fugindo de Brian no Marrocos ), mais doida que KR e que tinha conexões com Andy Warhol, Fellini e Roger Vadim. Nos anos 70 ela entra na paranóia pura e o casamento naufraga. KR é salvo por Patti Hansen, uma saudável modelo americana, sua esposa até hoje. È bonito perceber então, já lá no fim do livro, que Keith nunca mudou. O guitarrista espinhudo do Ed Sullivan Show é o mesmo cara do Piratas do Caribe. Como eu, Keith nada joga fora. Se ele descobre rap, reggae, disco, funk, o que for, ele os adiciona ao que já conhecia; ao contrário de Jagger, que para se reciclar precisa jogar fora o passado, KR preserva e revaloriza sempre tudo o que foi. Ele soma, nunca substitue.
Gram Parsons é o cara a quem ele tece os maiores elogios. É ótimo ler o que ele fala sobre amizade. Assim como é legal ver o que ele diz sobre John Lennon, um cara que aparecia sempre em seu apartamento, que tentava seguir seu ritmo de drogas, mas que sempre terminava a noite no banheiro, desmaiado ao lado do vaso e dizendo: "Onde estou?"
Stones e Beatles se comunicavam sempre: " Hey John, estou com uma nova aqui, voces vão lançar algo agora?...Então espera 3 semanas, eu lanço agora e voces depois." Paul foi procurar Keith quando brigou com Heather Mills ( 2005 ) na Jamaica ( Keith mora lá, vizinho de Bruce Willis ), os dois chegaram a compor juntos e Keith disse a ele que a grande diferença entre Beatles e eles é que os Beatles sempre foram um grupo vocal. Tudo neles tem a voz por base, a parte instrumental só como acompanhamento; os Stones são um grupo instrumental, a base é sempre um riff, uma levada de guitarra. Brancos e negros, certo?
Ele conta como gravaram o Banquete dos Mendigos, em gravadorzinhos Phillips, apenas violões em volume alto que se distorciam pela pouca potência do gravador. Um tipo de som que hoje se perdeu. Conta a saga das gravações de Exile e desce a lenha em Jagger.
Não vou falar dessa parte. Acho dificil. Mas concordo que MJ tentou ser David Bowie na década de 80 ( todos tentaram e se ferraram. Bowie em 1983 estourou como ídolo teen-inteligente, todos os caras de sua geração tentaram operar o mesmo milagre, de Ferry a Rod, de Paul a Eric ). Keith acha um absurdo Jagger querer ser Bowie, pois Jagger é muito melhor que Bowie, o que ele fez foi se rebaixar. Dá pra discordar?
Keith diz sonhar em sempre fazer blues, Jagger odeia recordar Exile ou Let It Bleed.
É lindo ler sobre seu reencontro com o pai, trinta anos sem o ver. O pai, velho, tornou-se um tipo de pirata, um velho de pub, conquistador, forte, duro, o cara. ( Há uma foto linda no livro, os dois juntos ).
Já no fim, quando diz passar muito tempo lendo, Keith toca numa coisa Junguiana, não sei se sem querer. É quando ele fala dos horários. Que é uma besteira da revolução industrial, um conto do vigário, essa coisa de que devemos comer ao meio-dia, dormir oito horas por noite... tipo: hora de comer, hora de acordar, hora de transar...Foda-se, Keith diz que o certo é comer quando dá fome, dormir quando se tem sono e transar quando há desejo. E a droga entra nisso também. Cada um tem seu tempo, seu limite, seu ritmo, cada um é um.
E vem daí aquela fala linda que ele escreve, de que ele sabe ser um simbolo, e que todo cara que se fode trabalhando num emprego de merda, com um horário cruel e uma vida sem sal, tem dentro de si um Keith Richards asfixiado e que cabe a ele representar esse cara que insiste em viver dentro de cada um.
Isso é lindo. E o livro é lindo.
Dá uma puta tristeza quando acaba. A gente pensa: Que merda, eu estava me acostumando a ficar com Keith toda tarde! Que bosta de saudade desse cara do caralho!
Após ler o livro eu não aumento meu amor por Keith Richards. Isso seria impossível. Ele é meu anjo do mal desde 1974. Mas aumentou meu respeito por ele. Keith Richards é um grande cara!
terça-feira, 28 de setembro de 2010
RAM- PAUL MACCARTNEY- SILLY LOVE SONGS
Paul MacCartney exemplifica à perfeição tudo o que tenho escrito ultimamente ( Amor cortês, individuação, religião ). O fato de o subestimarmos ( desde sempre ) e hiper-valorizarmos Lennon prova nosso vício em colocar a dor como dom supremo. O sofrimento, como os cristãos tão bem o sabem, dá uma aura de superioridade ao artista. E Paul parece à prova de verdadeira dor. Será? Ou não terá ele optado, em ato de nobreza exemplar, pelo riso?
Se acreditarmos em Kierkegaard, Paul, o feliz Paul, estaria num degrau acima de Lennon, Dylan e de outros sofredores. Que culpa ele tem em crer no amor tolo e feliz? No fundo ele é um camponês, e nisso mora todo seu gênio, porque se o rock um dia produziu genialidade é Paul o maior de todos. Ele criou o Pop branco, divulgou o rock sinfônico e é responsável por 75% do que os Beatles venderam. Quando lembramos os anos 60 tendemos a pensar em Dylan, Morrison, Hendrix, Lennon, Who, Reed, grandes mortos ou grandes sofredores. Mas é Paul o centro da década, consequentemente centro da arte Pop. O problema é que ele não parece "heróico". Será?
Ao contrário de Lennon que surgiu e morreu seguindo o modelo Elvis ( acrescentando doses imensas de Dylan no processo ), Paul surge seguindo Buddy Holly e Little Richard, e não se apaixona por Dylan. Ele cai de amores pela black music americana ( Marvin Gaye, Otis Redding, Joe Tex, Wilson Pickett e Aretha ), pelos sons sinfônicos que George Martin lhe mostra e principalmente pelos Beach Boys. RAM é seu segundo album solo e é um disco delicioso.
A capa, com um carneiro, já entrega do que se trata: PET SOUNDS, dos Beach Boys. Paul, que nunca escondeu seu amor pela obra-prima dos californianos, usa aquele tipo de arranjo e de produção multi-facetada, caleidoscópica, que é o que dava aos Beatles toda sua riquesa de arranjos. As músicas são como flashs, polaroides de emoções fugazes, canções de estados sensitivos. Music-Hall, folk britânico, pop americano, doo-wop, tudo cabe aqui. E aqueles arranjos vocais nos quais Paul exibe toda sua maestria ( arranjos de voz como ele fez, só os próprios Beach Boys e os Byrds conseguem ).
O disco começa com simples violão e simples canção de amor. Mas ele foi e é sempre assim. Para ele a vida é simples: uma esposa, filhos, e uma casa no campo. As pessoas tendem a pensar que ele é só isso. Mas é aí que nasce seu heroísmo, o cara que fez Yesterday e Helter Skelter optou pela simplicidade e nessa opção tentou nos mostrar um caminho. Blackbird e Martha são as obras-primas que inauguram sua escolha.
Ram depois envereda pelo blues e chega aos arranjos à Brian Wilson. É aí que o gênio-mago aparece. Uncle Albert é trilha de minha infância ( com Another Day ). Tocava incessantemente no rádio e aos 5 anos me apaixonei pela canção. Eu me emocionava ao ouvi-la e se tornou padrão daquilo que considero canção-criativa ( e feliz ). Ela muda de clima e de andamento cinco vezes!!!!! Linda!!!!! Na sequência ele faz um rock mais azedo e completa o album com sua costumeira habilidade em ser belo e aparentemente fácil.
Mas nunca é. Tente compor uma canção à MacCartney. Tente arranjar quatro vozes em ondas de idas e vindas. Tente harmonizar guitarras com metais e teclados. É preciso saber tudo de musica, de melodia. É preciso ter gosto. E principalmente, ouvido. Nisso tudo, ele é imbatível.
Sempre lhe faltou sexo. Paul está longe do perigo. Nada nele remete à James Brown, Sly Stone ou Mick Jagger. Paul seria puro espírito. Nada carnal. Mais uma vez eu digo: e daí ?
O movimento de individuação é maravilhosamente exemplificado pelos Beatles. Sua separação, em busca de sua afirmação individual, teve toda a tragédia amarga da vida de todo homem adulto. Ringo cresceu e optou pelo que podia ser: embaixador eterno da beatlemania. George mergulhou na religião e se tornou um espiritualizado bon-vivant. John levou sua rebeldia de Elvis+Dylan vida afora, mas que ironia, terminou como um tipo de Paul in New York -amor, esposa e filhos. Paul não brigou com seu passado. Se tornou filho de seus pais, sobrinho de seus tios e carinhoso pai de família. O Mr.Feel Good. Seus discos continuaram a ser filhos dos Beatles.
Qual o problema?
RAM é feliz e é criativo. Porque não dizer: ele é um herói por ter sobrevivido são, sorridente e sem pretensão. O que mais um menino caipira de Liverpool pode querer e poder ser?
I LOVE PAUL !
Se acreditarmos em Kierkegaard, Paul, o feliz Paul, estaria num degrau acima de Lennon, Dylan e de outros sofredores. Que culpa ele tem em crer no amor tolo e feliz? No fundo ele é um camponês, e nisso mora todo seu gênio, porque se o rock um dia produziu genialidade é Paul o maior de todos. Ele criou o Pop branco, divulgou o rock sinfônico e é responsável por 75% do que os Beatles venderam. Quando lembramos os anos 60 tendemos a pensar em Dylan, Morrison, Hendrix, Lennon, Who, Reed, grandes mortos ou grandes sofredores. Mas é Paul o centro da década, consequentemente centro da arte Pop. O problema é que ele não parece "heróico". Será?
Ao contrário de Lennon que surgiu e morreu seguindo o modelo Elvis ( acrescentando doses imensas de Dylan no processo ), Paul surge seguindo Buddy Holly e Little Richard, e não se apaixona por Dylan. Ele cai de amores pela black music americana ( Marvin Gaye, Otis Redding, Joe Tex, Wilson Pickett e Aretha ), pelos sons sinfônicos que George Martin lhe mostra e principalmente pelos Beach Boys. RAM é seu segundo album solo e é um disco delicioso.
A capa, com um carneiro, já entrega do que se trata: PET SOUNDS, dos Beach Boys. Paul, que nunca escondeu seu amor pela obra-prima dos californianos, usa aquele tipo de arranjo e de produção multi-facetada, caleidoscópica, que é o que dava aos Beatles toda sua riquesa de arranjos. As músicas são como flashs, polaroides de emoções fugazes, canções de estados sensitivos. Music-Hall, folk britânico, pop americano, doo-wop, tudo cabe aqui. E aqueles arranjos vocais nos quais Paul exibe toda sua maestria ( arranjos de voz como ele fez, só os próprios Beach Boys e os Byrds conseguem ).
O disco começa com simples violão e simples canção de amor. Mas ele foi e é sempre assim. Para ele a vida é simples: uma esposa, filhos, e uma casa no campo. As pessoas tendem a pensar que ele é só isso. Mas é aí que nasce seu heroísmo, o cara que fez Yesterday e Helter Skelter optou pela simplicidade e nessa opção tentou nos mostrar um caminho. Blackbird e Martha são as obras-primas que inauguram sua escolha.
Ram depois envereda pelo blues e chega aos arranjos à Brian Wilson. É aí que o gênio-mago aparece. Uncle Albert é trilha de minha infância ( com Another Day ). Tocava incessantemente no rádio e aos 5 anos me apaixonei pela canção. Eu me emocionava ao ouvi-la e se tornou padrão daquilo que considero canção-criativa ( e feliz ). Ela muda de clima e de andamento cinco vezes!!!!! Linda!!!!! Na sequência ele faz um rock mais azedo e completa o album com sua costumeira habilidade em ser belo e aparentemente fácil.
Mas nunca é. Tente compor uma canção à MacCartney. Tente arranjar quatro vozes em ondas de idas e vindas. Tente harmonizar guitarras com metais e teclados. É preciso saber tudo de musica, de melodia. É preciso ter gosto. E principalmente, ouvido. Nisso tudo, ele é imbatível.
Sempre lhe faltou sexo. Paul está longe do perigo. Nada nele remete à James Brown, Sly Stone ou Mick Jagger. Paul seria puro espírito. Nada carnal. Mais uma vez eu digo: e daí ?
O movimento de individuação é maravilhosamente exemplificado pelos Beatles. Sua separação, em busca de sua afirmação individual, teve toda a tragédia amarga da vida de todo homem adulto. Ringo cresceu e optou pelo que podia ser: embaixador eterno da beatlemania. George mergulhou na religião e se tornou um espiritualizado bon-vivant. John levou sua rebeldia de Elvis+Dylan vida afora, mas que ironia, terminou como um tipo de Paul in New York -amor, esposa e filhos. Paul não brigou com seu passado. Se tornou filho de seus pais, sobrinho de seus tios e carinhoso pai de família. O Mr.Feel Good. Seus discos continuaram a ser filhos dos Beatles.
Qual o problema?
RAM é feliz e é criativo. Porque não dizer: ele é um herói por ter sobrevivido são, sorridente e sem pretensão. O que mais um menino caipira de Liverpool pode querer e poder ser?
I LOVE PAUL !
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