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segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

OS ANOS 70 FORAM UMA BOSTA.

   Quem me lê sabe que eu tenho um banzo pelos anos 70. Foi a época de meus 12, 13 anos e de bons discos. Mas foi uma bosta de tempo também!
  A gente acha que estes anos, 2016, 2017, são um tempo de violência e de extremismo. Mas os anos 70, creia, foram bem piores. A diferença é que não havia tanta comunicação pra exibir o sangue na nossa cara.
  Nem vou falar do Vietnã. Nem do Camboja. Vou falar que quase todos os países africanos tinham ditadores que matavam por prazer e que se auto denominavam "Imperadores Divinos" ou "Guias do Futuro". Havia uma guerra entre fronteiras, guerrilhas comunistas, grupos de extermínio.
  O pior de tudo é que os anos 70 foram os anos em que a figura do intelectual como líder politico atingiu seu auge. Qualquer garoto de óculos Lennon era levado a sério. Isso mesmo nos EUA e na GB. Hoje eles existem ainda, mas fedem à passado. Naqueles tempos pareciam ser o futuro. As pessoas ainda não tinham enxergado que esses caras são apenas pessoas frustradas por sua desimportância.
  Aqui na Sulamérica, ditadores de direita posavam como machos alfa e eram eliminados por outros mais machos que eles. Pior era que a única alternativa eram machos alfa de barba e boina. O que era a mesma bosta. Fidel ainda era levado a sério. Assim como Mao e Tito.
  Todo país europeu tinha seu grupinho terrorista. Todos eram comunistas e queriam expulsar os EUA da Europa. Eles matavam inocentes pelo bem futuro. Os anos 70 foram auge da criminosa filosofia que diz: Os fins justificam os meios.
  Nos anos 70 tinha terrorismo até no Canadá!
  Sim, tudo era compensado por comédias bacanas, carros grandões e gênios do esporte. Mas foram anos violentos. Muito violentos. E felizmente não existiam câmeras pra preservar todo esse horror pra sempre.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

C'EST CHIC ( QUANDO A MÚSICA SE TORNA FASCISMO )

   Em 1978 fãs do grupo The Who se reuniram num estádio em Cleaveland, e antes de um show de Roger, Pete, John e Keith, juntaram toneladas de discos de discoteque e os destruíram no gramado. Hoje Pete se arrepende e diz que o ato foi fascista, mas na época ele até compôs uma música chamada Goodbye Sister Disco. Eu odiava disco em 1978. Ou melhor, eu queria e DEVERIA odiar disco em 1978. Eu gostava de rock e portanto TINHA de achar disco um lixo. Mas o estranho é que eu assisti SATURDAY NIGHT FEVER oito vezes no cinema e vibrava quando os Trammps tocavam. Mas sentia vergonha. Muita vergonha.
  Lembro que um dia, em 1980, eu e meu irmão, ouvindo rádio, falamos a verdade: Tinha várias músicas disco que a gente adorava! Coisas de Rick James, Sylvester, Cerrone, Giorgio, Trammps, Rose Royce, Celli Bee. E claro, o melhor de todos, Chic.
  Na Enciclopédia do Rock da Rolling Stone, Robert Christgau diz que a disco deu tanto ódio aos rockers por dois motivos muito fortes:
  1- Foi o primeiro movimento pop assumidamente gay, latino e feliz.
  2- Enquanto no rock o amor era dor ou era um tipo de estupro machista, na disco ele era sedução suave e sexy. Essas duas características, não-musicais, eram naquele tempo insuportáveis para jovens acostumados às dores do amor frustrado ou ao machismo de carros velozes e "olhe garota como ele é grande". A disco era democrática, era para todos, era miscigenada, convidava nerds, bichas, velhos, crianças, ricos e pobres, mulheres e homens, travestis, todos para uma grande festa de purpurina, neon e roupas bonitas. Para os cabeludos sujos isso tudo queria dizer só uma coisa: Viadagem conformista.
  Estávamos todos errados.
  Pretos bem vestidos e felizes. Isso era novo. O rocker aceitava negros raivosos ou negros pobres e tristes, ou mesmo a Motown, negros chorando o amor; mas na disco os negros eram MUITO alegres, MUITO sexys, e mais estranho, MUITO chiques...Isso era muito estranho. Eles pareciam mais jovens, mais bem resolvidos, mais felizes que nós! Pior, eles se vestiam melhor! Que coisa esquisita!!!!
  ( Marvin Gaye e Stevie Wonder sempre foram tudo isso, mas gente fingia que não percebia ).
  Então agora, em 2016, pego este disco de 1978 do grupo CHIC. Na época um enorme sucesso. E um dos poucos do movimento que alguns críticos não malharam. Só alguns ( Ezequiel Neves foi um deles ). Rockers diziam que os músicos disco não sabiam tocar. Eles preferiam a habilidade do Kiss ou dos Pilot. Aff.... Se eu fosse músico eu queria ser baixista e se eu fosse baixista eu queria ser Bernard Edwards. Não há baixista melhor no pop ou no rock. Suas linhas melódicas dançam, fluem, pulam, são velozes, nos fazem dançar e ao mesmo tempo são lindas, femininas, sexys. Flea toca parecido, só que Flea é menos sexy e mais punk. Mas a banda, um trio, tinha ainda a bateria de Tony Thompson, um batera que mistura a discrição rítmica-esperta do jazz com a marcação pesada do funk. E completando temos um gênio: Nile Rodgers, o guitarrista mais sacudido e chique do pop, o maior produtor pop dos anos 80, o cara que mudou o rádio para sempre.
  Nile Rodgers nos anos 80 produziria Debbie Harry, David Bowie, Bryan Ferry, Duran Duran, Madonna, Robert Palmer, Peter Gabriel e mais um monte de gente que esqueci ou não quero citar. Porque ele, entupido de cocaína, aceitava tudo e todos e de certo modo ele se tornou um tipo de ditador da moda musical de então. Todo mundo queria ele como produtor-guitarrista-diretor musical. LET'S DANCE! de Bowie foi o disco que abriu o mercado branco para Nile e desde então ele esteve sempre em evidência. ( Bowie e Ferry estavam de olho nele desde 1978 ).
  Na capa deste disco já há algo que muito irritava os rockers de 78: 3 negros e 2 negras muito bem vestidas, tipo Ralph Lauren, numa sala chique e com expressões faciais à Roxy Music. Parecem ricos. Parecem contentes. Parecem de bem com a vida. Não sorridentes. Mais que isso, resolvidos. E o som reflete isso. Ele é suave, muito bem gravado, sacolejante, sem suor e sem lágrimas, os instrumentos soam como cristal, tudo é exato. Artificial, de bom gosto, e negro, muito negro. É um som que faz voce se sentir dentro de uma Mercedez. E ao mesmo tempo no bairro negro. Isso era a disco.
  Difícil escrever sobre o som dos caras. Eles são bons demais. Basta dizer que Bryan Ferry procura esse som até hoje ( e continua gravando com Nile ). Bowie tentou e errou por toda a década de 80. E Madonna deve a ele 50% de sua fama. Seus melhores discos foram feitos com ele. Miles Davis logo entendeu a coisa e percebeu que os caras levavam às massas aquilo que ele era desde sempre. O negro livre. Auto-suficiente. E muito, muito chique.
  Este disco, agora em um mundo menos preconceituoso, é delicioso!

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

KRAFTWERK PUBLIKATION, A BIOGRAFIA, uma história sociocultural da música eletrônica feita para as massas. - DAVID BUCKLEY

   Primeira coisa: Causa espanto para um brasileiro ver o modo como os ingleses vêm os alemães. Pontuais, metódicos, frios, bem educados, corretos.
  Segunda coisa: Que eu nunca havia percebido: a assumida habilidade inglesa em vender. O modo como eles pegaram a música dos negros americanos e a empacotaram pra venda. O mesmo aconteceu com o eletrônico. Os ingleses, a partir de 1978, pegam o Kraftwerk e o tornam vendável. Ou melhor, pegam o som dos alemães e com vocais convencionais o tornam inglês. Surge o synth pop, o techno pop. O som da Londres de 1978-1984.
  Este é o melhor livro sobre rock que já li. Porque não é um livro de rock. É sobre o mundo de hoje. Fala sobre sociologia, moda, ciência, dinheiro, comportamento, casas noturnas e o futuro possível. Começa na segunda-guerra, fala do preconceito contra os alemães, sobre a música eletrônica erudita dos anos 40-50, sobre hippies, sobre a Europa e sua música pop, sobre a cena alternativa de Dusseldorf nos anos 70, sobre Bowie, sobre Iggy, cinema, baladas noturnas, hip hop, acid house, industrial, jungle, a imprensa musical, visual de capas de disco, a Factory, Andy Warhol, ciclismo...São 260 páginas de bela diagramação e de muita, muita informação.
  Florian e Ralf são o Kraftwerk. Formaram a banda em 1970. Nasceram em famílias ricas, muito ricas. E tiveram a grande sacada: a Alemanha não tem blues, country, soul, nada. O equivalente alemão à isso é a arte dos anos 20. O cinema de Murnau e de Lang. O expressionismo. A escola da Bauhaus. Brecht. Stefan George. E a música de Stockhausen, Pierre Schaffer. Então, primeiro ainda com bateria e flauta, e depois só com synths, eles criaram a maior revolução da história do pop. Música pop que nada tinha em comum com o rock, o blues, o soul. Sem introdução, sem refrão, sem solo, sem emoção, sem "amor", sem solos, sem suor e em princípio, sem empatia. A coragem foi imensa e os ataques impiedosos. Karl e Wolfgang vieram com a percussão. Todos com formação clássica.
  Ainda hoje há quem chame música synth de "não música". Imagine então em 1972! Os alemães eram odiados ou recebidos com risos. Sua música era coisa de crianças. Uma piadinha. Estariam esquecidos em dois anos. Isso não aconteceu, claro, e em 1974 Autobahn começou a construir seu público. ( Autobahn é seu quarto disco ). Algumas pessoas, muito à frente de seu tempo, perceberam a beleza daquela austeridade, o encanto da simplicidade. Mas não, não vou ficar aqui descrevendo a saga. É uma saga. Saga sem drogas, sem dramas, sem historinhas bobas. Eles evitaram a imprensa, evitaram as fotos, jamais desejaram virar "estrela". Até nisso eram contra o rock normal. Foram mais radicais que o punk. Porque o punk ainda é rock.
   Na extrema lógica do grupo, o robot pode os substituir no palco. o Kraftwerk será eterno, porque quando eles se forem os robots ainda estarão no palco.
   Uma das mais belas coisas do livro é o set do DJ Rusty Egan, de uma casa de Manchester em 1980. São 100 músicas fantásticas que exemplificam o pop de hoje, 2016. Temos ainda o depoimento de Madonna, que os viu ao vivo em 1978 e criou ali todo seu conceito de palco e de som. Buckley nos mostra alguns dos vários "roubos" feitos em cima de faixas do Kraftwerk, e exibe a decadência do pop, a partir do momento em que os sintetizadores se tornam digitais.
   Os momentos epifânicos são vários e acho que a gravação do clip de Trans Europe Express seja o mais lindo.
   Encerro aqui e digo que voce tem de ler este livro.

terça-feira, 19 de julho de 2016

I'M YOUR MAN, A VIDA DE LEONARD COHEN- SYLVIE SIMMONS

   O Brasil se tornou um país tão chato, que penso que um colega meu da USP poderia ver na vida de Leonard Cohen apenas um caso de um privilegiado burguesinho, que sem se preocupar com dinheiro passou todo seu tempo sem saber como vencer o tédio existencial. Esse colega ainda acrescentaria que Leo foi um alienado, tendo passado indiferente a décadas de revolução social. O mundo dele foi apenas seu próprio umbigo. Mais o coração e o pênis.
   Eu escutaria esse colega falar e diria que ele está certo. Nada do que ele disse é mentira. Leo foi apenas isso. Também. Mas, como sempre ocorre com o modo raso de pensar, meu amigo esqueceu, ou não percebeu, diria que evitou perceber, que o umbigo, o coração e o pênis de Cohen podem ser os mesmos de toda uma população. E que para certos artistas, falar de si-mesmo é falar de uma nação.
  A vida de Cohen é movimentada. Mas não é interessante. Talvez seja a falta de talento da biógrafa ( a mesma de Gainsbourg ). Cohen viaja, pensa, foge, tem N amores, medita, pira, mas a impressão que temos é a de que ele evitou viver. Escrevi acima a palavra "foge". Leonard Cohen fugiu todo o tempo. Ele fugiu da fama, de compromissos, fugiu o quanto pode da paternidade, fugiu do judaísmo e do budismo e do hinduísmo. Ele evitou hippies mas também a turma de Warhol. Fugia do Canadá, de LA, de NY e da Grécia. Fugiu da mãe. E ao mesmo tempo foi profundamente ligado a tudo isso que citei. Cohen nunca corta laços, ele os acumula. Amizades para sempre. Amores para sempre. Ele diz em entrevistas não olhar para trás, ele não precisa fazer isso, ele nunca deixou nada atrás de si.
  Do livro as melhores histórias são as da meninice. E depois o começo, com Judy Collins, David Crosby e até Nico e Jackson Browne. Não sabia que ele tomava LSD. E não sabia que ele era tão deprimido ( coisa de judeu...acho ). Conheço bem a depressão e entendo o medo de compromisso. A sensação de que tudo vai acabar um dia. Para que então começar se vai acabar... E ao mesmo tempo o amor pela solidão, o pavor de depender, e a incapacidade de romper laços. Leo tem tudo isso. Me veja às vezes nele. Mas a música de Cohen é do tipo que eu jamais faria. É desanimada. Entenda, Leonard Cohen é real, um talento imenso, um escritor que fez pop, e isso é muito raro. Mas ele é pai de um monte de gente chata que bebeu em sua fonte. Cohen autorizou cantores ruins e tristes a confundir tristeza com talento e má voz com sinceridade.
  Meu primeiro contato com Leo foi já neste século. Na trilha sonora do filme de Altman, McCabe e Miss Miller. Até hoje acho a melhor coisa que ele fez. Antes eu apenas o conhecia por nome. Pensava que ele fosse um tipo de Randy Newman mais amargo. Não. Cohen é um religioso. Sua obra é uma prece e sua obra uma ode bíblica. Ele canta para Deus e só para Deus. Há interioridade verdadeira nele. E nada menos americano que interioridade, daí seu sucesso tardio por lá. ( Não esqueçamos que as religiões americanas são todas "para fora". Elas cantam e berram, evitam o silêncio ).
  Estranho Canadá. Neil Young, Joni Mitchell, The Band...se tivesse de escolher uma palavra para definir todos eles diria solidão. Ou, mais ainda, ético.
  Não é um bom livro.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

XADREZ- COEN- DEANNA DURBIN- ZWICK- SUO

   O DONO DO JOGO de Edward Zwick com Tobey Maguire, Peter Sargaard e Liev Schreiber
Lembro de 1972. O mundo parou para assistir, em suspense, a série de jogos entre o campeão do mundo, Boris Spassky, e o fenômeno americano, Bobby Fischer. Eu era bem criança e ainda lembro. Manchetes no Jornal Nacional da Globo. Manchetes dia a dia. Fischer venceu. O xadrez virou mania mundial. Mequinho surge aqui como mestre prematuro. E eu ganho um tabuleiro de xadrez do meu pai ( tenho-o até hoje ). Aprendo a  jogar sozinho, na Barsa. Creia, no mundo louco de 72, xadrez era pop. Tinha coluna diária nos jornais, e o mais legal, é que com os códigos de grandes partidas impressos, a gente podia as repetir em casa. O jogo 6 entre os dois foi repetido em minha casa por meu irmão ( ele tinha 7 anos de idade então ). Este filme recria bem a paranoia daquele tempo e a loucura de Fischer ( sim, ele era louco ). Não é um grande filme mas é um grande tema. Adaptado ao gosto de 2016, é um filme sobre xadrez que não mostra nada de uma partida ou de um movimento. Se concentra, óbvio, na doença de Bobby. Cansamos dos seus sintomas e cansamos dele. Mas o tema é sensacional. Fosse mais ousado seria uma forte crítica à loucura daquele mundo e a mediocrização deste nosso tempo. Hoje não temos mais loucos célebres, temos apenas celebridades doentes. Nota 5.
   AVE CÉSAR! dos irmãos Coen com Josh Brolin, George Clooney e um monte de stars.
Um fracasso. Os irmãos Coen, que eu adoro, erram feio aqui. Exageram em seu veneno e se envenenam. Querem falar tanto, abranger tanto, que perdem o foco. O filme acaba no vazio, um monte de som e imagem que nada significam. A intenção era excelente: mostrar que no cinema americano é o produtor que mantém alguma sanidade em meio a atores idiotas e diretores narcisistas. Eddie Mannix existiu na vida real, foi produtor da MGM, já no começo do fim da era do glamour. Ele realmente "dava um jeito" em filmes de produção complicada, atrizes promíscuas e atores gays. Lidava com prazos, dinheiro, gente, doenças, artistas e roteiristas "comunistas". Mas...que ironia, faltou um Eddie Mannix para este filme. Nota 4.
   DANÇA COMIGO de Masaiuki Suo com Koji Yakusho
Este filme de 1996 foi sucesso no Japão e refilmado em 2006 nos EUA com Gere, Sarandon e J.Lopez. A refilmagem vulgarizou a extrema delicadeza desta pequena joia. Fala de um homem de 40 anos que resolve aprender dança de salão, escondido da esposa e da filha. Pois no Japão de hoje dança de salão é coisa vergonhosa, coisa de gente que se toca. O filme, triste, engraçado, real, lindo, acompanha a lenta caminhada desse homem bom, tímido, travado. Todos deveriam assistir esta obra e ter uma bela surpresa. Nota 9.
   100 HOMENS E UMA GAROTA de Henry Koster com Deanna Durbin
Uma menina ajuda seu pai desempregado a conseguir trabalho com um grande maestro. Um exemplar belo do cinema da "grande depressão" americana dos anos 30. Deanna era um anjo e o filme nunca fica piegas, è bonito. Nota 7.
  

domingo, 14 de fevereiro de 2016

PAVÕES MISTERIOSOS- ANDRÉ BARCINSKI....FOI ASSIM, MAS FOI BEM MAIS

   Caro André, o grande mérito de seu livro é o de tocar em assunto pouco explorado. Tem gente com menos de 40 anos que acha que MPB começa com Bossa Nova, salta sobre os anos 70 e continua com rock e Ivete. Eu lembro que até meus 18 anos eu não comprava música em português. Tinha preconceito. Às vezes até gostava, mas não tinha coragem de assumir. Muito menos de consumir. Mas então joguei tudo ao ar e comprei meus primeiros discos de MPB: Secos e Molhados e Pepeu Gomes. E comecei então a comprar muito. Era 1980 e eu tive muita sorte. O que se achava nas lojas era exatamente o melhor do Brasil, aquilo que fora gravado entre 1972-1979. Você tenta André explicar porque a música desse período é tão boa, e desculpe, você acerta e erra feio. Acerta quando diz que por serem menos profissionais, as gravadoras davam maior liberdade aos artistas. Ok. Mas hoje você grava um cd em casa e nem por isso nós temos novos Acabou Chorare...Você erra ao dizer que as rádios FM ajudaram a qualidade musical. É exatamente o contrário! As FMs destruíram a diversidade. Rádios AM como a Difusora e a Excelsior tocavam de Benito di Paula à Led Zeppelin, de James Brown à Ednardo. Isso nos dava uma imensa abertura mental. Você ligava o rádio para ouvir a nova do Bowie, e na espera acabava ouvindo Caetano, Alice Cooper e Slade. Nas FM o padrão de "bom gosto" era muito mais restrito. E hoje....bem...hoje o ouvinte escolhe o que deseja ouvir e acaba ouvindo a mesma coisa por toda a vida.
  Belchior merecia mais espaço. Ele foi um estouro em 1976. Mas ok...Devo dizer que você fala de Lulu Santos mais que o devido. Mas ok...Agora, ao falar da Disco você derrapa. Dá pra notar um certo preconceito. E não precisava falar do ato verdadeiramente fascista que rolou nos EUA com a queima de discos de discoteque no campo de beisebol. Foi um ato contra latinos, negros e gays. Além do que a Disco nunca morreu. Ela continuou com Madonna, MJ, Prince, e continua com Beyonce. Onde existir gente misturada dançando sons negros que não sejam RAP haverá disco. Se o Village People ou Sylvester fizeram sucesso só por 3 anos, devo dizer que o América, Bread ou Moby Grape são bandas de rock que também não fizeram hits por muito mais que isso.
  Outro erro André: Você às vezes se estica em assuntos que nada têm a ver com o tema do livro. Para que falar de coisas de fora do Brasil! O livro é curto demais, falta espaço, fale mais daquilo que importa! ( A crise nas gravadoras em 1980 não veio por causa do fim da disco. Veio por terem se tornado absurdos os custos de produção de um disco de rock. Bandas ficavam até um ano em estúdio!!!!! E pensar que Sinatra gravava um LP inteiro em duas sessões de seis horas! )
  Mas adorei o livro. Tanto que o li em apenas uma sentada. Não consegui parar. E sua descrição do que foi ouvir Ritchie pela primeira vez, em 1983, bate com a minha lembrança. Era um disco brasileiro que falava de frio, noite, e que lembrava a sonoridade do Roxy Music! Foi um choque de chique.
  A MPB entre 72 e 79 foi surpreendente, rica, poética, engraçada, trágica e sempre inspiradora. Ainda dá lições de criação e de gosto nos dias de hoje. Feliz de quem a escuta.
  Valeu!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

SÉRIES DE TV: MASH E SEINFELD, AS DUAS MAIS ICÔNICAS

   Mash. Lembro de quando eu tinha uns 12 anos. Ela era exibida na TV Bandeirantes. Sábado, dez da noite. Nunca fez sucesso aqui. Eu nunca assisti. Comprei um box agora. Comento.
   Para quem não sabe, MASH tem o recorde de audiência da TV americana ( se não considerarmos os jogos do futebol americano ). O último episódio, em 1983, bateu esse recorde. Ela começou em 1972 e logo estourou. Baseada no filme de Robert Altman, temos os mesmos personagens no mesmo ambiente. Um centro médico na guerra da Coréia. No lugar de Donald Sutherland entra Alan Alda, e no posto de Elliot Gould vem Wayne Rogers. Funciona. O humor continua amargo, niilista, atirando pra todo lado. Penso que esse humor seria impossível hoje. Não porque não se faça crítica, mas hoje a destruição tem um alvo. Aqui não há alvo. Se atira. E se destrói. Me surpreendo notando que a série de TV tem mais ligação com os Irmãos Marx. Hawkeye fala como Groucho. Passam o tempo bebendo, transando e afrontando a ordem militar. São hippies médicos. Às vezes a coisa fica bem triste. Uma série que caiu como uma luva nos anos 70.
   Assim como Seinfeld é a cara dos anos 90. Nada faz o menor sentido. Ou faz sentido demais....Há uma lógica dentro dessa loucura e a sacada de Jerry Seinfeld e de Larry David é levar o roteiro até seu fim lógico. Se uma bola é arremessada, vamos acompanha-la até ela parar. O modo como se arquiteta tudo é uma aula de escrita: cada história corre paralela a outra e ao fim todas trombam numa coda musical. Jerry não atua, observa e comenta; Kramer é genial, um clown assustador; Elaine é a amiga doida que todo mundo precisa e Jason Alexander faz o mais infame e ridículo dos amigos. A mistura funciona. São tão pouco charmosos que ficamos intrigados. Não fosse tão inspirada seria um desastre.
  Nas famosas listas de melhores da TV eu já vi Seinfeld ganhar como a melhor de todos os tempos. Já vi MASH vencer. E na última que vi Seinfeld era a segunda melhor e MASH a terceira. ( Venceu BREAKING BAD...deve cair com o tempo...).
  Em termos de humor, são os ícones.

sábado, 7 de novembro de 2015

MATEMÁTICA DAS ESFERAS ( O BILHETE PARA MIM MESMO )

Noticiado hoje que um físico brasileiro começa a provar que o Universo tem uma arrumação sincrônica. Que há uma lógica nele. O Universo seria mais matemático do que pensamos.
Pitágoras sempre esteve certo. A matemática é Deus e a música sua linguagem. E se seguirmos Pitágoras ainda mais longe não nos esqueçamos que em seu tempo ele teve a então original ideia da transmigração das almas.
Na escola em que trabalho dentre outros tenho um amigo bonachão chamado William. Ele é professor e tem um cargo de direção numa outra escola, escola onde estudei de 1972 até 1978. Depois de um ano de amizade tive de súbito a ideia de lhe pedir os documentos que ainda restassem de minha passagem pela dita escola. Após semanas do pedido feito ele me trouxe um envelope grande.
O que eu queria era uma assinatura de matrícula de minha mãe, uma foto, talvez minhas notas. Lembranças e rastros. Ele me trouxe tudo isso, mas trouxe mais. William jogou diante de mim o objeto mais terrível de minha vida.
Em 1978 eu fui feliz. Muito feliz. A confiança no alto. Amigos. Uma menina japonesa. Mas em outubro a professora de português nos propôs uma redação. Tema livre. Lembro muito bem do dia. Estava úmido e frio. Fim de tarde escura. De repente eu me senti de volta a 1977, o ano em que fugi de casa, em que vivi isolado entre livros ( já de volta ao meu lar ). O ano em que descobri Bronte, Dostoievski, Kafka, Dickens. E escrevi uma redação raivosa. Sobre prisão, morte e escuridão.
Quando a professora devolveu as redações a minha não foi devolvida. Todos começaram a achar que ela tinha jogado a minha fora, afinal eu era um dos piores alunos da sala. Mas não. Ela foi diante da sala e disse que eu escrevera "uma obra de arte", que ela lera meu texto para toda a direção e que eles resolveram me eleger o representante da escola nas "Olimpíadas de Português de 1978".
A melhor aluna da classe não se conformou. Ela tirara 10 em gramática e 8 na redação; eu tinha 5 em gramática e fizera a tal redação. Fiquei envergonhado. Não queria ser elogiado, não queria ir a olimpíada nenhuma, não queria ter escrito aquela droga....
Fui à olimpíada e fui mal. E essa redação mudou minha vida. Se tornou uma lembrança de minha sina de "artista"...Eu detestava sempre e continuei tendo sérias dificuldades com artistas, artes, intelectuais, nerds, e professores.
Pois bem, agora em outubro de 2015, 37 anos depois, no meio dos documentos, lá está ela, a maldita redação. O documento de minha "sombra". Explodo de alegria. Abraço William. Não acredito no que vejo. Ali está: minha letra de 1978, letra de forma, eu escrevia em letra de forma grande e angulosa, o papel onde escrevi, minha tinta de caneta, meu nome, minha sala ( 8-B ), minha assinatura. E o texto...Que não li até agora.
Isso é uma sincronia. Isso é um milagre. O eterno retorno.
Isso é realidade.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

MINHAS MULHERES E MEUS HOMENS- MARIO PRATA

   Mario Prata nasceu em Lins, nos fins da década de 40. Escreveu novelas de TV, livros e é cronista dos bons. Sabe encontrar humor no comum. Neste livro ele escreve uma espécie de "caderninho de endereços" de gente que habita sua vida e sua memória. São pequenos verbetes sobre gente. Mario fala do cara da quitanda em Lins, do seu avô, da primeira puta. E também de Chico, Caetano e Garcia Marques. Famosos e não famosos são tratados em pé de igualdade. E não pense que os verbetes são como pequenas biografias...Necas! Mario escreve sobre uma lembrança qualquer, uma frase dita, um segundo no tempo. E, claro, o livro varia em valor. As lembranças são mais saborosas quando dos anônimos. ( E entre eles há dois anônimos amigos meus ). A cidade de SP surge em seus 3 momentos: a garoenta e cinzenta cidade dos anos 60, a doida e exagerada cidade dos anos 70, e a cidade ocupada de agora. No meio disso tudo, a cidade doente dos anos 80.
  Mario transou muito!!!! Se fazia muito sexo sem compromisso em seu círculo social. O período entre 77-83 é de puro desbunde. Há um certo clima cafajeste que pode deixar alguns espíritos puros ressabiados. Mas normal...não julgue aquilo que você nunca provou. O Brasil de 1980 era muito malandro. E ria. De tudo. Agora somos mais malandros ainda. E rangemos os dentes.
  Valeu.

terça-feira, 12 de maio de 2015

SO' GAROTOS....PATTI SMITH

A frase que revela a alma de Patti é dita quando ela diz que Robert não conseguia perceber o romantismo da febre, de se estar doente. Ela percebe. Patti é uma romantica. Rimbaud, Baudelaire, Rousseau são guias. Sua geração foi a ultima geração culta do rock. Depois existiram românticos, mas artísticos de verdade não.
O rock é coisa pura, energia sem razão. Isso é maravilhoso, isso foi único. Com Dylan o intelectualismo invadiu a coisa. Esse intelectualismo quase matou o rock, mas trouxe Zappa, Joni Mitchell e acima de tudo o VELVET UNDERGROUND. Patti nada tinha a ver com o mundo do rock. ComoLaurie Anderson, David Byrne ou August Darnell, sua praia é outra, a poesia. Patti poderia ser uma chata. Não é. Ingenua sempre. Uma pessoa adorável.
Sam Sheppard namorou Patti Smith! Isso é incrível! Para quem não lembra, Sam escreveu o roteiro de PARIS/TEXAS, fez o papel de Chuck Yeager em OS ELEITOS, e é marido de JESSICA LANGE desde os anos 80.
Não espere ler aqui sobre rock. Ele é sobre boemia. Sobre um casal apaixonado. Sobre o estranho Mapplethorpe e a boazinha Patti Smith. A Esta ira, e o modo como Rimbaud, Keith Richards e JESUS CRISTO guiaram a vida dessa menina sem igual.
O livro também mostra o contraste entre a década de 60 e a de 70. A primeira foi utópica, trágica e infantil. A dos 70 foi cínica, egocêntrica e centrada no culto às celebridades.
Eu lembro de quando saiu Horses. Causou surpresa por ser sem rótulo. Não era folk, nem hard, prog ou pop. Lançado em ano de transição, foi, ao lado de Born to Run, de Springsteen, disco do ano. Depois inventaram que ela era punk!???!!! Nunca foi! Patti ignora Stooges, MC5 E OS DOLLS. PATTI foi da mesma matriz de Lou Reed, arte, Andy Warhol, beats, cinema, franceses.
França... Faz falta essa influência boemia/Montmartre no rock de hoje. Ambição...
Devore o livro! É bom pacas!

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

EU SEI PORQUE VOCE NÃO GOSTA DE ELTON....ELTON JOHN, A BIOGRAFIA, DE DAVID BUCKLEY

   Elton John é feio. Não a feiura que pode até criar um certo interesse, como a de Alice Cooper ou de Lemmy. É a feiura medíocre. O feio que voce mal nota que existe. Isso marcou toda a vida de Elton. Ele jamais aceitou sua aparência, sempre odiou sua imagem. Em seus melhores momentos ele relaxou e quase ficou bonitinho. Em seus piores ele se auto-zombava e no processo desacreditava sua música. Se vestia de pato, de Mozart, de rei ou de Liberace. Dizia para o mundo, eu sei, eu sou ridiculo. Os fãs se sentiam incomodados, o resto olhava e pensava: -eu sempre soube, Elton é um palhaço.
  Mas não foi sempre assim, tão evidente. Esse martírio, que sempre houve, mas que se intensificou nos anos 80, foi aditivado por muito pó e muito álcool. Como aconteceu com Rod Stewart, David Bowie e Paul MacCartney, dentre muitos, a década viu a credibilidade dos reis dos anos 70 derreter. A maioria por excesso de drogas, dinheiro e puxa sacos, alguns por tédio e outros por medo de envelhecer ( o que fez com que tentassem se fingir de adolescentes ). Bowie foi dos poucos que conseguiu se reerguer. Elton, para todos nascidos depois de seu auge, permanece como um tipo de bobo rei do pop brega. Nada mais distante da verdade. Assim como Rod, que entre 69/76 foi um grande artista do folk, do rock e criou algumas das melhores letras de todo a cena, Elton foi entre 1970/1977 um grande artista. E era levado a sério. Todos os seus discos, 14 até então, dois por ano, eram ótimos e algumas de suas faixas, 3 ou 4 por disco, eram geniais. Dentre seus fãs, John Lennon, Leonard Cohen, Joni Mitchell e depois Elvis Costello. 
  Improvável sempre foi a marca de Reginald Dwight, o nome de batismo de Elton. Filho único da baixa classe média, nunca se deu com o pai, piloto de avião. Se dava com as mulheres da casa, mãe e tias. Na escola adorava todos os esportes e era bom em tênis e crickett. Baixo, gordinho, ele se isolava com livros e o piano. Teve aulas de piano clássico, mas se interessava por rock, Little Richard, Jerry Lee Lewis, e aos 15 anos começou a tocar numa banda, a Bluesology. Profissionalmente. Era 1962. Ao mesmo tempo Elton se torna um dos maiores colecionadores de discos da cidade. Gosto que ele manterá por toda a vida, ele é capaz de dizer quem toca no disco de uma obscura banda punk de 1980. E mais, qual a gravadora, onde foi gravado e a ordem das faixas. É um fato que pouca gente sabe, mas Elton até hoje continua escutando tudo de novo que surge todo ano. É seu maior hobby. 
  Em 1963 ele vai trabalhar numa editora de música. Tem 16 anos. Continua na banda, de noite. Nessa editora ele pode escutar tudo o que ela publica antes de ser lançado. Isso fará com que Elton seja sempre o primeiro cara a escutar tudo o que os Beatles recém produziram, em primeira mão. Todo o aprendizado se dá nesses anos. Piano a noite em pubs, faixas novas e fenomenais de dia. 
  Em 1968 ele sai da banda. Na editora se une a um jovem poeta chamado Bernie Taupin. Essa será a maior dupla do pop depois de voce sabe quem. Bernie escreve poemas e os passa para Elton. Elton faz uma melodia sobre os versos. Estilo de composição mais dificil, rara, que para os dois funcionou. Ainda morando com os pais, e sem nenhum envolvimento físico, Bernie, que é dos cafundós do campo inglês, vai morar na casa da mãe de Elton. Ele se torna o irmão que ele nunca teve. Hetero convicto, nunca haverá nada entre Bernie e Elton. Que na época estava noivo. Uma conversa com o cantor Long John Baldry mostrou a Elton que sua verdade era ser gay. Ele rompe o noivado e ao mesmo tempo se lança ao mundo do rock.
  1970 tem o primeiro disco. Elton John tem a capa escura para disfarçar sua falta de sex appeal. O sucesso é absoluto. Fica 44 semanas nas paradas. Your Song se torna um clássico e o LP, cheio de arranjos orquestrais do grande Paul Buckmaster, é elogiado por colegas e por críticos. Nos próximos sete anos Elton será responsável por 3% das vendas de discos em todo o mundo. Percentual só igualado em 1984 por Michael Jackson e por mais ninguém. Serão sete LPs seguidos alcançando o primeiro lugar nos EUA ( só os Beatles conseguiram isso ) e mais de 14 singles entre os cinco primeiros postos. Ele fará duas excursões por ano, quebrará, junto ao Led Zeppelin, recordes de público, e se tornará mundialmente conhecido por crianças, velhos e roqueiros. Estará em todo canto. TV, cinema, jornais, tudo. Elvis, Beatles, Michael Jackson e Elton, são os únicos quatro reais fenômenos do rock, pois mesmo os Stones, Led, U2 ou Dylan jamais conseguiram penetrar em todas as classes e todas as idades.  Sete anos em que seus rivais foram todos batidos. Gente como Eagles, Pink Floyd, Bowie, Stevie Wonder, Neil Young, Stones. 
  Bowie era seu grande rival. Porque de certo modo os dois corriam, no começo, na mesma raia. Rock glam agitado e baladas ao piano. Com uma grande diferença, crucial. Bowie queria ser um artista completo. Elton queria se divertir. Desse modo o público de Bowie era menor e fiel, o de Elton imenso, e infiel. Bowie podia se dizer bissexual. Seu público aceitava e até queria isso. Quando em 1976 Elton disse ser bissexual foi o começo de seu quase fim. A maior parte de seu público, conservador, o abandonou. 
  Elton diz no livro que Bowie nunca foi gay. Ele era um hetero que se fazia de gay para causar frisson. Já Elton era um gay que tentava esconder isso para não causar frisson. 
  Generoso, mão aberta, até os 28 anos Elton jamais havia se drogado. A partir daí ele se torna um caco. Cocaína e whisky. São os anos 80. Engraçado observar que ele nunca deixou de vender bem, o problema é que a inspiração se foi. A partir de 1979, e até 2002, Elton só lançaria albuns fracos e muito raramente algum single bom. Quanto aos shows, eles se tornaram forçados, frios, esquisitos. Sempre lotados, mas ao mesmo tempo quase constrangedores. Em 2002 ele grava The Captain and The Kid, enfim um grande disco. Os shows voltam a parecer mais reais. Ele para com as drogas, para com as fantasias, o piano volta a ganhar destaque. É um renascimento. Ele se casa, adota um filho, leiloa suas roupas mais ridiculas, e continua trabalhando ativamente em montes de instituições de caridade. É o mais dedicado dos astros de rock. Ele nunca discursa. ele vai e faz.
  Mas antes...
  Em 1971 exsitiam dois tipos de astro do rock: o glamuroso muito louco e o sofrido herói. Pelas músicas em seus discos ele poderia ser os dois. Mas no palco ele mudava. Se fantasiava para tentar esconder sua barriga, a careca e o rosto balofo. E ria, fazia piadas, pulava, conversava, festejava. Elton não tinha vergonha de ser feliz, de demonstrar prazer por estar num show. E, que ironia, isso destruia sua credibilidade!!!!!!
  Apesar de feio ele conseguia ser o maior dos astros. Mas os criticos começaram a não lhe levar a sério. Era como se um cara tão feliz não pudesse ser de verdade. Explico melhor...
  Lembro que no Rock in Rio de 1985, Rod Stewart cantou numa noite. E eu era fã de Rod ( ainda sou ). Só que aconteceu uma coisa horrível. Rod cantou Sailing rindo!!!! E eu escrevi em meu diário que Rod havia naquela noite destruído Sailing. Sailing era pra ser cantada com lágrimas nos olhos...
  Hoje sei que eu estava errado. Mas então foi minha reação. Rod Stewart perdeu a credibilidade comigo e só a readquiriu exatamente dez anos depois, quando o vi no acústico MTV. Com Elton se dava o mesmo. Ele brincava enquanto tocava Rocket Man, Ticking, Sixty Years e tantas outras. Baladas maravilhosas, de cortar o coração, lindas, tristes, e ele alí, vestido de pirata, rindo...O efeito no pessoal que o levava mais a sério era devastador. Era como se Morrissey cantasse How Soon is Now com o Village People, ou Dylan cantasse Like a Rollin Stone dançando no palco e feliz. ( Hoje eu acharia lindo, mas em 1975 isso seria inaceitável ). Rock era coisa séria, e Elton parecia não ser. 
  E não era. Era talentoso, genial até, mas sempre soube que subir num palco e poder cantar era um presente, uma sorte, uma alegria. Como parecer sofrer quando se fazia aquilo que mais se gostava? Elton era o mais anti-hipócrita possível.
  Poxa! Escrevi muito? É que eu amo Elton e este livro é muito bom. Mesmo para quem não gosta tanto, porque o autor, que já escreveu bios de Bowie, Bryan Ferry e até dos Stranglers, dá sempre uma geral no período. E nunca deixa de criticar os baixos, muitos, de uma carreira tão rica. A loucura do glam, a decadência do estúdio 53, os patéticos anos 80, o sucesso nos anos 90, a paz nos anos 2000. E o que fica é o fato de que Elton é sim um grande cara. Nada RocknRoll, um ET no meio, mas um grande cara. Fala-se de sua amizade com Lennon, com Rod ( que é seu melhor amigo ), e de suas coleções de arte. E a aventura de 1978, quando ele comprou seu time do coração, o Watfort, na quarta divisão, e o levou até a primeira e um segundo lugar...Eu tinha esquecido disso!
  Beleza de leitura.
  PS: Captain Fantastic de 1975. Esse talvez seja sua obra=prima. 
  Para quem quer quebrar o preconceito, aconselho The Tumbleweed Connection, de 1971.
  Divirta-se. E se emocione.

domingo, 28 de dezembro de 2014

CAPOTE, UMA BIOGRAFIA- GERALD CLARKE, TODAS AS BIOS DEVERIAM SER ESCRITAS ASSIM.

   A vida de Capote é uma das coisas mais interessantes que li. Na verdade, sua vida foi quase um milagre. Ele nasce no sul dos EUA em 1924. Naquele sul do racismo, do atraso, da violência, da falta de opções. O sul que, incrivelmente, dá também aos EUA as pessoas mais talentosas, toda a cor e inspiração do país. E dá Capote. 
  O pai era um malandro. Ladrão, golpista, mentiroso, folgado, vigarista. Os golpes que ele dava fazem do começo do livro uma comédia amarga. A mãe era outra golpista. Que se deu mal. Casou com o pai de Truman achando que ele fosse rico. Acabou com um vagabundo e um filho esquisito. A mãe adorava sexo. Era vulgar e promíscua. Filho único, o bebê Capote foi deixado de lado. Acabou na casa das tias solteironas. Depois voltou para a mãe. A mãe o quis não por amor, ela queria irritar o marido. Truman era deixado sózinho em hotéis. A mãe saía com seus namorados e ele ficava desesperado. O pavor do abandono sempre presente.
  O jovem Truman Capote era gay, claro. A voz nunca engrossou. A pele não teve barba. Media metro e meio de altura. E usava franja. Detalhe central, Capote jamais teve qualquer problema em aceitar sua homossexualidade. Ele, desde os 10 anos, usava imensas echarpes esvoaçantes, roupas coloridas, e abusava de trejeitos e de cenas e poses. Imaginem o efeito numa pequena cidade do sul em 1934. O pai o odiava e a mãe sentia uma mistura de vergonha e de raiva. Truman lia e escrevia. E logo aprendeu a seduzir, não sexualmente, humoristicamente.
  Voces devem conhecer alguns """Capotes"" de 2014. É aquele mocinho afetado, infantil, que fala como uma metralhadora, disparando frases inteligentes e engraçadas sem parar. As mulheres adoram esse homenzinho absurdo. Mimam, se abrem, riem com ele e nunca dele. Ele consegue ser alegre, agradável, confiável. Os maridos aceitam sua alegria e seu bom gosto. É a alma da festa. Conhece todo mundo que vale a pena. E, eis o milagre, todos passam a disputar a amizade de Truman Capote.
  Ele começa escrevendo contos, bem curtos, para a Harpers Baazar. Truman deu sorte. Em 1940/1950 toda revista prezava sua sessão de contos. A Harpers, em meio a modelos, dicas de cosméticos, fofocas e guias de casamento, publicava contos. Contos artísticos, literários. Truman começou sua fama lá. Se tornou o queridinho dos editores e foi para New York. Muito jovem ainda, 18 anos, começou a ser famoso. Truman Capote foi famoso antes de lançar seu primeiro romance. As editoras o disputavam. Logo ele era um fenômeno. Para o povo IN, ser amigo de Capote era o máximo.
  E nisso ele também teve sorte. A juventude de Capote foi aquela do último suspiro da aristocracia americana e européia.  Uma delicia ler sobre eles. Gente realmente rica, gente com dinheiro para jogar fora, gente segura de sua posição, gente com gosto e berço, elegantes ao extremo. Nesse meio Truman foi rei. Dos Kennedy aos Paley, dos Agnelli na Itália a Onassis, cruzeiros, villas, festas, jantares, ilhas, castelos. Recepções onde havia um criado para cada convidado,  a melhor comida, e todo um código de conduta, de educação, de bom tom. Uma nobreza delicada, discreta e muito, muito rica. 
  Talvez o auge de Truman, em felicidade, tenha sido Bonequinha de Luxo, Breakfast at Tiffany`s. O livro, e não o filme, traduz a vida da NY de então, dos que desejavam fazer parte daquele alto mundo, dos que quase chegavam lá e que viviam como se lá estivessem. Lançado em 1958, ele não é o melhor Truman, mas é o mais alegre, vivo, cheio de energia.
  Em 1966 ele faz a festa do século em um hotel de NY. São quinhentos convidados. As quinhentas pessoas mais ricas e chiques do mundo. Do dono da Ferrari à irmã da rainha da Inglaterra, do marajá de Rachipur ao xá do Irã. Dos Kennedy a Onassis. E ainda Andy Warhol, Brando, Lauren Bacall, Sinatra. Um grande baile de máscaras, homens de preto, mulheres de branco. E Capote, sendo cortejado, adulado. É o auge de sua vida. Depois, a queda.
  Ter aceitado, por dinheiro, escrever A Sangue Frio, destruiu sua escrita. Viver junto aos dois assassinos, passar quatro anos dentro daquele mundo, tudo isso fez com que o ato de escrever começasse a lhe parecer uma dor, uma pena a pagar. Depois do livro enteegue, Capote nunca mais escreveu com alegria. Álcool, drogas, exploração, sua vida virou um caos.
  Sexualmente Capote sempre foi regrado. Teve três namoros importantes e alguns casos sexuais.  Mas depois do 40 anos se deixou explorar por um namorado ambicioso. Mais surpreendente, era um homem comum, feio, pobre e inculto. Esse foi o sintoma do começo de seu fim.
  Em 1975 Truman Capote comete o maior erro de sua vida. Lança um livro onde escancara os podres dos muito ricos. Como consequência, ele perde TODOS seus amigos. Dolorosamente, sua amiga, Babe, a mulher mais fina, elegante e bela do mundo, lhe vira a cara. Nunca mais eles reatarão. Slim, outra grande amiga, ex-esposa de Howard Hawks e do milionário Leland Hayward, o ataca. Truman se torna um pária. Uma piada. Um morto vivo.
  Ele sonha em ser o Proust americano, em, como Marcel Proust, registrar a agonia de uma elite, mostrar de forma bela, ácida e poética, o final de um mundo, o fim de um sonho de beleza. Claro que ele nunca conseguiu, e esse plano, essa ideia de fazer o Em Busca do Tempo Perdido da América ( plano que outros acalentam em 2014 ), lhe destruiu todo o desejo de escrever. Figurinha fácil em programas de entrevistas na TV, frequentador do Studio 54, grande consumidor de cocaína e de bolinhas, Capote foi se tornando uma piada. Morre em 1984. Nos braços de uma de suas últimas amigas.
  O livro conta tudo isso e muito mais. E como toda boa biografia, as últimas 100 páginas são muito tristes e dolorosas. Os últimos vinte anos de Truman foram um desastre. E mesmo a festa do século parece agora uma despedida.
  Truman deveria escrever mais e viver menos. Calar mais e falar nada. Mas assim não seria Truman. Ele amava o sol, as viagens, as amigas, os livros. Não era muito culto, mas foi aprendendo com os amigos. Era engraçado. Conseguiu superar um começo de vida de pesadelo. Mentia muito. Exagerava tudo. Mas o autor publica apenas o comprovado, e mesmo assim é uma vida quase inacreditável.
  No final ele voltou ao inicio. Só, falido e desacreditado. Com apenas 50 anos ele já parecia um ser de outro século. E ele era. E sabia disso. 
  PS: Em 1984 um disco dos Smiths saiu com Truman Capote na capa. Faz todo o sentido. Morrissey deve ter entendido muito bem a morte do pequeno elfo americano.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

David Bowie - Panic in Detroit (Live 1976)



leia e escreva já!

David Bowie....'Lady Grinning Soul'



leia e escreva já!

UMA ESTÉTICA GAY....ALLADIN SANE E HONKY CHATEAU, BOWIE AND ELTON.

   Tenho 50 anos e não tenho filho. Nunca fui casado e gosto de filmes musicais. Gay? Well...até hoje nunca tive uma experiência homossexual e acho que morrerei sem ter. Na verdade nunca senti atração por homem nenhum, embora não me impeça de saber quando um homem é bonito. Mulheres me deixam confuso e excitado. Homens não. Isso me faz pensar que é provável que não seja gay. Porque falo tamanha bobeira? Por causa de dois discos que reouvi após bom tempo. Dois discos obviamente gays, com tudo que essa palavra possa ter de exata ou de puro preconceito. Existe disco gay? Existe arte gay? Existe alma gay? Um disco que fale do amor de um homem por outro é gay, mas é arte gay? A arte pode ser gay falando de guerra ou de um carro. O rock pode ser gay em forma de heavy metal e ser muito hetero em forma de disco music. Como definir?
  Meu gosto estético está muito moldado numa certa moda que havia em 1972/1974. Eu tive 9/14 anos no auge do glitter. Se aqui a gente tinha a onipresença dos Secos e Molhados, fora daqui era a coisa de Bowie e Elton. Os anos 70 foram incrivelmente bicha louca.Começam com Lou Reed e terminam com Blondie e Abba. No meio teve Queen e Roxy Music. 
  Quando penso do que realmente adoro em livros, música, cinema, há uma boa quantidade de arte feita por gays. Mas penso, qual a pessoa razoávelmente culta que não terá amores por Proust, Bowie ou Andy Warhol? 
  Em 1973 dois discos foram lançados quase juntos. E trombaram de frente com Dark Side of The Moon e Houses of The Holy. ( Mas também com Innervisions, For Your Pleasure e Billion Dolllar Babies ). ALLADIN SANE ( a lad insane ), é o disco sem direção, caótico, que Bowie lançou no auge da loucura Ziggy. Já foi chamado de ""ö disco que os Stones não lançaram""". Besteira. O disco, estridente, tem no piano de Mike Garson seu trunfo. Nunca se escutou piano tão sofisticado em disco de rock. Garson era do jazz e seu toque parece de cristal. Ele embeleza tudo o que toca, dá profundidade. E faz de uma faixa como ALLADIN SANE uma obra-prima. Assim como LADY GRINNING SOUL, que fecha o disco, outra obra-prima que gruda na sua vida e dá sentido a seu gosto. O clip que vi na época, JEAN GENNIE, mudou toda a minha vida. Levei um banho, na infância, de glitter e nunca mais me limpei dessa purpurina. Meus olhos se abriram para a beleza rocker e espacial, delicada e desafiante de Bowie, Ronson e de Angie. A capa do disco é icônica até hoje. Há ainda PANIC IN DETROIT com sua guitarra suja e LETS SPEND THE NIGHT TOGETHER, versão superior aos Stones. Anarquia pura.
  HONKY CHATEAU provou de vez que a herança dos Beatles era de Elton e não de Paul ou de John. Pop com rock e o dom de agradar a todos. Todos mesmo! Elton é oposto a Rod Stewart, seu rival naquele tempo. Rod parece feliz mesmo quando se estraçalha em jóias como Every Picture. Já Elton parece triste mesmo quando canta rocks felizes. Há algo nos olhos de Elton que sempre anunciam desencanto. Sua máxima obra-prima da beleza etérea e encantadora se encontra aqui, ROCKET MAN é uma das cinco maiores canções dos últimos 50 anos. Ela tem tudo, tristeza, esperança, desencanto, um refrão grudento, mistério, silêncio e efeitos esquisitos. E a voz de Elton, que vai crescendo com a melodia. A perfeição de forma e conteúdo. O album abre com Honky Cat, rock saltitante. O piano de Elton sempre foi percussivo, ele batuca nas teclas. I THINK I AM GOING TO KILL MYSELF é outra maravilha. Tem um dos mais bonitos refrões da carreira de Elton. E há MONA LISAS AND MAD HATTERS, uma outra obra-prima, mistura mágica de dor e de inocência.
  Elton caiu como uma luva numa era de inocência pervertida e de sonhos conspurcados. Era um tempo em que a canção romântica vendia como pão quente. Meninos de 10 anos escutavam baladas doces dos Carpenters e baladas azedas de Nilsson. E baladas perfeitas de Elton John, que era o alvo de todos os outros cantores. HERCULES, nome do gato de Elton, é como um sonho. Onde achar uma canção melhor?
  O segredo de Elton, e de Bowie em outro mundo e intenção, sempre foi o dom da beleza. Seus imitadores enfeiam aquilo que com os dois sempre parece perfeito, grego, apolineo. Os imitadores de Bowie, por melhor que fossem/sejam, sempre parecem desalinhados, quase feios. Os de Elton são banais. São pret-a-porter, nunca Saville Row.
  Talvez seja essa a coisa gay dos dois? Um interesse na estética, seja a do exagero cafona de Elton, seja a futurista de David. Ou não?
  Que importa? Música não tem sexo e nisso os dois são meus pais.
  Eu amo Elton John. E amo David Bowie.
 

domingo, 30 de novembro de 2014

1977-1969-2014-SEMPRE...

   Não lembro da loja. Sei que foi em Pinheiros. Na Teodoro Sampaio. Em 1977 ela era uma rua mais decente, ainda tinha algumas lojas bem legais e não existiam camelôs. A esquina com a Pedroso de Morais era bonita, tinha a doceira Docinho. Todas as travessas eram silenciosas, residenciais, ainda não havia comércio na Mourato e na Lacerda. Só a Fradique tinha movimento. Fazia sol, era fim de verão. Saímos do bar do meu pai e compramos dois discos. Abbey Road foi escolhido por ter Come Together. E Let It Bleed por causa da crítica que Ezequiel Neves havia escrito. Voltamos para o bar e ficamos esperando a carona de nosso pai. No escritório que ele tinha a gente rabiscou na porta a data e o nome dos dois discos. Essa porta, com os anos, acabou cheia de escritos. Esse foi o primeiro. 
  Na sala, ao sol, só na manhã do dia seguinte, a gente os escutou no 3 em 1 da Sharp. 
  Lembro que achei o lado 1 dos Beatles muito bom e o lado 2 decepcionante. Com o tempo adorei. O disco dos Stones achei esquisito. Não gostei muito. Meu irmão, que coisa, gostou dele de primeira. Numa manhã, inesquecível, em que ouvi Let It Bleed de meu quarto, enquanto Edú o escutava na sala a todo volume, descobri que aquele era o disco. 
  Existem discos que me são tão vitais quanto meus pulmões. Siren do Roxy Music, Led Zeppelin - Houses of The Holy, o Transformer, Pin Ups de Bowie.  Nenhum mudou minha vida como Let It Bleed mudou. Durante o resto de 77, e agora lembro que errei a data, ele nao foi comprado no fim do verão, mas sim em agosto, eu o escutei sozinho em casa, toda tarde, em frenética excitação. Estudava datilografia às 4 horas e sempre descia a rua até a escola cantando Let It Bleed. 1977 definiu a eternidade da minha mente, foi o alicerce, foi o acordar da infância, foi ver o mundo. O disco da capa do bolo e da roda foi sua trilha.
  Hoje, 28 de novembro de 2014, ele completa exatos 45 anos de vida. Em agosto foram 37 anos comigo. O mesmo vinyl errado ( o selo do lado A está colado no lado B ). Sulcos que me trouxeram blues, sexo, euforia, beleza, raiva. A guitarra de Keith nunca soou tão cortante, o timbre suave e ao mesmo tempo forte, cheia de silêncios, de respiros. A bateria nunca foi tão jazzy, Charlie em plena forma. E Mick, ainda longe da mania dos falsetes, cantando como Mick, um preto. É meu disco favorito? Não sei. É aquele que mais me traz lembranças fortes. 
  Em dezembro desse mesmo ano fomos à praia. No Caravan vermelho de meu pai fomos cantando, eu e meu brother. Ele cantava Country Honky e eu Let It Bleed. A Serra passava voando pela janela, o fim da tarde parecia uma festa e a praia teria gosto de vida. 
  Como voce pode notar, Let It Bleed é mais que um disco. Não há como falar dele apenas como música. Ele, como um terreno fértil onde coisas crescem e respiram pelos anos passados, solo úmido, solo rico, brota e traz frutos e sementes que se espalham dentro e fora de mim. 
  Se a música é a lingua do cosmos, este disco alicerça uma mansão estelar.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

EM 1977 O MUNDO VOAVA E IA ATÉ 2020.

   Em março de 1977. O ano de 1969 havia passado a oito anos, lógico. Assim como hoje, novembro de 2014, está distante oito anos de novembro de 2006. 
  Ou não?
  De março de 69 até março de 77 nós vimos: O fim dos Beatles e toda a carreira solo dos quatro. A invenção do Hard Rock e o auge e a decadência de Led Zeppelin, Deep Purple, Grand Funk, Bad Company, Black Sabbath, Alice Cooper etc. O auge e a velhice do prog rock. De Yes a Genesis. De Pink Floyd a King Crimson. Tudo isso não havia em 69. 
  O funk seria criado. Earth Wind and Fire, Funkadelic, Ohio Players, Kool and The Gang. E a disco já existia. Elton John já vivera seu império e já o perdia. Assim como Bee Gees, Abba, Peter Frampton, Marc Bolan e James Taylor. Stevie Wonder começava a ser passado.
  Lou Reed criara entre 71 e 75 sua obra. O Roxy Music já não existia. Tudo fora feito em 4 anos apenas, 72 a 75. David Bowie era Bowie, sua fase rock morrera. Estava em Berlin com LOW quase pronto. E Iggy tinha The Idiot já acabado. 
 Todo o rock alemão nascera em 69 e entrara em ocaso em 74. Assim como Kevin Ayers, que nascera em 70 e perdera a esperança em 75. 
 Rod Stewart e os Faces em quatro anos passaram de gênios a vendidos. Nesse tempo Eagles e Fleetwood Mac se venderam e se popularizaram. 
 Em 77 as novidades mais novas eram Clash, Talking Heads, Blondie, Patti Smith, Elvis Costello, The Jam, Specials, Bruce Springsteen, Ramones, Kraftwerk e os Sex Pistols. I Feel Love de Donna Summer e Giorgio Moroder era o futuro. ( Ele era no cinema Star Wars e Close Encounters. Rocky e Annie Hall ). 
  O escritor quente era Philip Roth. E Saul Bellow. Norman Mailer. Truman Capote. Updike. Gore Vidal. Na TV tinha Starsky e Hutch. As Panteras. Cyborg. Bill Cosby. Muppet Show. Casal 20. SWAT. Love Boat. Roots. 
  O homem fora a lua. O primeiro transplante de coração. Inventaram o PC pessoal. O Partido Verde é criado na Alemanha. 
  Mas esquece. Tou falando de música. Entre 69 e 77 apareceram e estouraram Tim Maia, Secos e Molhados, Raul Seixas, Rita Lee, Martinho da Vila, Novos Baianos, Fagner, Alceu Valença, Belchior, Fábio Jr, Made in Brazil, Banda Black Rio e as Frenéticas. 
  Kiss, Cat Stevens, Carpenters, Neil Young e The Band. JJ Cale e Queen. Todos fizeram seu melhor entre 70 e 77. E o Heavy Metal nascia ao lado do punk. Ao lado do techno. E o RAP se preparava no gueto. 
  Reggae se espalha em 72. Em 77 Bob Marley já fizera toda sua obra. 
  E então?
  Duas coisas:
  Primeiro eu vejo como a carreira no rock e no pop é efêmera. Com sorte são 4 bons anos. Se voce é excelente são 5. Gênios chegam a 10. Falo de relevância. Há quem dure 50 anos. Tendo apenas 8 de real valor. ( Sim, são so Stones. )
  Segundo que em contagem de tempo tipo seculo XXI, o período 69/77 equivale a uns 20 anos. Entre 2006 e 2014 lembro do auge e ocaso de um bando de cantoras e de algumas bandas que quase foram e não chegaram a ser. Mais, o que realmente mudou nesse últimos oito anos? Qual a novidade rock/pop? 
  Em março de 77 eu comprei Abbey Road e Let It Bleed juntos. E esses dois discos, que tinham apenas oito anos, pareciam ser então de 1810. Aliás em 2014 eles parecem ser mais novos que em 77. Em meio a Johnny Rotten e Paul Weller, Bowie e Eno; Paul e John, Mick e Keith, tinham voz de pré-história. 

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

VOCÊ, O GRANDE TIM MAIA.

   Descendo a rua de terra, um monte de caras e de vozes chegam até mim. As janelas estão abertas e por elas saem sons de choro, de riso, de panelas de pressão em ação. Cheiro de feijão e de bife fritando. Cachorro vadio, moscas, muitas moscas. Uma água suspeita corre rente a sarjeta que ainda é um plano para um dia ser feita. Meus pés em sandálias de couro sentem a dor das pedrinhas pontudas que insistem em entrar debaixo da sola do pé. Gente sobe, gente desce. Olha lá! Da rua dá pra ver a cama de uma tia. A pesada madeira marrom. Uma cama enorme, do tipo que nunca vai poder sair do quarto. E um rádio, pousado na janela, joga para esse céu sem fim uma canção.
VOU MORRER DE SAUDADE!
   Foi devagar. Os negros foram entrando no rádio e tomaram as telas de TV na sequência. Não eram mais negros de cabelo liso e de terninho cinza. Nem os bambas de camisa listrada e chapéu branco. Esses novos negros não choravam e nem faziam piada. Cantavam. E tinham cabelo de preto, voz de preto e raiva de preto. De todos eles ninguém era mais preto folgado que Timaia. Timaia era como eu o conhecia e ele era tão desafiador que eu sentia medo dele. Aos 8 anos eu temia o negão. Hoje, agora, não. 
  EU HAVIA ESQUECIDO MAS HOJE É O DIA DOS SANTOS REIS.
  1971 viu o dominio do negro folgado. Porque ele foi um susto. Um negão que botava toda voz no chinelo. Ouvir Timaia é bom, cantar junto é melhor ainda. O cara trouxe uma mistura de baião com soul music. De Bossa com Yeah Yeah Yeah. Ele vinha de Sam Cooke e de Estácio. O disco, o segundo dele, é curto e direto. Lindo como uma rua de terra cheia de crianças em manhã vagabunda de verão. Janelas abertas pras moscas entrarem. 
  Ninguém usa metais como ele, e no meio tem até um xilofone maneiríssimo! E uma sessão de cordas que antecipa a discoteque. Os violinos sibilam.... 
  E sim, tem a voz. Quente, suada, vagabunda. Uma voz que pode dizer toda bobagem, ela vai soar como lei. A voz surge, sem esforço, e toma conta de todo o espaço. Ecoa na cabeça, combina com a alma, lava tudo com lava de som. Queima. Sexo. 
  Um monte de anos depois este disco continua a esquentar. 
  Mágico ano da MPB.

sábado, 1 de novembro de 2014

GORDON, ELTON, NILSSON E A DOCE AGNETHA.

   Harry Nilsson era o melhor amigo de John Lennon. Entre 1971 e 1975 eles foram inseparáveis. Gravavam juntos, um participando do disco do outro. Seja dito, Nilsson fez sucesso por seu mérito. Era já famoso antes de topar com Lennon em NY. É dele o hit Everybodys Talkin, tema do grande filme Midnight Cowboy. Depois repetiu a dose com Without You, aquele sucesso choroso. Aliás Nilsson era um deprimido. Mesmo nesse clip que postei, a alegrinha Daybreak, a cara dele é de velório.
  Gordon Lightfoot é do Canadá. Terra de The Band, Joni Mitchell e Neil Young. E o Canadá é assim, mais americano que a América. Gordon fez sucesso nos idos de 69/76. Sempre folk. Sempre on the road.
  Preciso falar de Elton? Entre 70/77 ele fez um sucesso digno de beatlemania. É dos raros artistas que pode fazer um show de duas horas só com super hits. Aquelas canções que todos conhecem, dos 8 aos 88 anos, da faxineira ao mestre de filosofia. Como Paul. Me causa surpresa hoje ter causado surpresa em 1976 quando ele disse ser bissexual. Mais bandeira que ele só Barry Manilow. Um gênio. Sempre foi. O Cole Porter de minha geração.
  Eu ainda sou apaixonado por Agnetha. É a lourinha do ABBA. A saga dessa banda é muito fascinante. Em seu auge, entre 1973/1980, o povo do rock os ignorava. Abba não era rock. Esse foi o lado sujo dos anos 70, a segmentação ( nos EUA e Inglaterra. Aqui e no resto do mundo, incluindo Europa continental, tudo era uma bela mistura geral ). Sem solos de guitarra e sem cabelos rebeldes não havia chance de ser levado a sério. Até Elton era olhado com reservas. Assim como o Kraftwerk. Claro que os suecos não eram rock. Eles eram Pop, um maravilhoso pop ao estilo wall of sound de Phil Spector. A praia deles era a mesma dos Beach Boys. Das Supremes. The Miracles. As harmonias vocais, doces, são sublimes como cotton candy e a instrumentação tem aquele estilo "" todos juntos agora"" vigoroso que remete a Motown. E há Agnetha, a triste e doce Agnetha, a do sorriso triste....Uma fada nórdica em meio a banda que embalava bailes bregas e felizes de nossos pais. Doces suecos.
  Enjoy it.