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THEY ALL LAUGHED - PETER BOGDANOVICH. AME OU DESPREZE.

Feito em 1981, este filme foi talvez o maior dos fracassos de Peter Bogdanovich. Eu o assisti por volta de 2000, em alguma emisorra à cabo e o revi ontem, em dvd. Nos extras, antes do filme, há uma bela entrevista de Peter, feita em 2006 por Wes Anderson. Wes diz que They All Laughed é o mais Jean Renoir dos filmes de Peter, isso porque, como em Renoir, todos os personagens são boas pessoas ( com excessão do marido de Stratten, que mal se vê ), todos são gente que adoraríamos ter como amigos. Além disso, o filme tem apenas um fiapo de enredo, o que importa é a interação entre as pessoas. Aqui, como em Renoir, é mostrado que na VIDA NÃO INTERESSA AQUILO QUE FAZEMOS, MAS SIM A INTERAÇÃO ENTRE EU E VOCE. -------------- O que acontece de "ação" ? Na Nova Iorque de 1981, uma cidade que no filme parece um tipo de paraíso de vida e cor, três homens, detetives, espionam duas mulheres, suspeitas de traírem seus maridos. O que assistimos são as perseguições pelas ruas dessas mulheres, depois o encontro dos detetives com elas em hoteis e bares, restaurantes e taxis, e por fim o amor que nasce entre detetive e esposa infiel. Mas, observe, nada disso importa. Não há suspense ou surpresas, o que interessa ao filme é o amor, e somente o amor. Durante todo o filme as pessoas beijam, trocam de parceiro, riem, levam tombos, correm, fumam, vão para a cama e dão a volta por cima. Se voce deseja ação tradicional, voce irá odiar este filme. Mas se voce ama ver gente adorável "vivendo", voce vai usufruir de duas horas de belo prazer. É um filme onde voce mora, não assiste. ------------- O absurdo do filme é que ele tem um final trágico na vida real. Na época, Peter estava feliz e profundamente apaixonado pela ex poster da Playboy, Dorothy Stratten, que era casada. O filme tem a estreia de Stratten como atriz e SEU MARIDO NA VIDA REAL FAZ O MARIDO CIUMENTO QUE SÓ APARECE EM DUAS CENAS AO LONGE. Pois ele a mataria num acesso de ciúmes e Peter mergulharia numa tristeza que o marcou até o fim da vida. Nunca no cinema houve nada parecido com isso. Em absoluta falta de pudor ou senso de distanciamente, Peter, o amante, faz um filme onde John Ritter, alter ego do diretor no filme, se apaixona por Stratten, que tem um marido ciumento. É absurdo! Mas há mais: o filme tem Ben Gazzara, como outro detetive que investiga a infidelidade de Audrey Hepburn. No processo os dois têm um caso e se separam, ela fica com o marido. Pois bem... na vida real, Ben e Audrey, ambos casados, estavam terminando um caso doloroso entre os dois!!!! Vendo o filme, percebemos a emoção de Audrey ao viver na tela aquilo que ela vivia na vida, e com mesmo ator que ela amava. Sim meu caro, nunca se fez um filme assim...e o mais fantástico é: tudo é feito com leveza e humor. ( Dorothy seria assassinada ao fim das filmagens, antes do lançamento do filme, crime que matou qualquer chance de sucesso da obra ). O assassinato de Stratten daria tema a outro filme, STAR 80, de Bob Fosse, de longe o pior filme de Fosse, um drama pesado que ninguém entendeu porque foi escolhido como tema por Fosse. STAR 80 matou a carreira do seu diretor. Como se não bastasse tudo isso, o filme ainda tem no elenco o filho real de Audrey fazendo um belo latino tímdio, e as filhas de Peter fazendo as filhas de Ben Gazzara. E como uma taxista que vai pra cama sorrindo com todo homem que ela simpatiza, temos Patti Hansen, ex modelo, loura e muito alta, que um ano depois seria a senhora Keith Richards, papel que ela faz até hoje. Ela quase rouba o filme. Bastante masculina e muito bonita, ela tem carisma de sobra. Pena não ter seguido carreira. ------------------- Companheiro de geração e de turma de Copolla, Scorsese, Friedkin e De Palma, Peter teve uma carreira muito mais variada e, porque não dizer?, interessante. Eu amo os riscos absurdos que ele corre, o modo como ele ignora a moda cinematográfica da época, o mundo sem ódio e sem horror que ele sempre nos dá. Este não é um grande filme e talvez nem seja mesmo um bom filme, mas eu amo esta coisa que roda na tela. Tudo que posso dizer é OBRIGADO PETER.------------------------ ps: A TRILHA SONORA É TODA DE CLÁSSICOS AMERICANOS, GERSHWIN ETC....QUE BELA SURPRESA OUVIR, EM TODA A CENA NUMA LOJA DE SAPATOS, ROBERTO CARLOS CANTANDO "AMIGO!!!!!!! A MÚSICA INTEIRA ROLA ENQUENTO COLLEEN CAMP COMPRA SAPATOS. QUE LINDO!

O DIA EM QUE PLATÃO CALOU A BOCA

Eu percebi que o mundo havia regredido em 2012. Era uma aula de teoria literária e logo no início um aluno ergueu a voz. Bradou que era absurdo ainda se estudar Platão, pois Platão era branco, grego, europeu, de uma sociedade de escravos, portanto ele nada tinha de válido para alunos de hoje. Não consegui ficar calado e a discussão foi ridícula. Isso aconteceu na USP, curso noturno, e foi por isso que me transferi para a manhã, onde a censura é bem menor. ------------- Na época achei aquilo um ato isolado mas com o tempo entendi o que se passa desde então. É a NOVA CIVILIZAÇÃO, aquela onde a única força válida é o seu desejo. Tento explicar. -------------- Platão não pode ser aceito nesse universo novo porque para ser aceito é preciso que voce entenda que uma voz vinda de 2.500 anos atrás pode ainda ser universal. E ao aceitar isso voce precisa admitir a possibilidade de seu desejo estar errado. Ou pior, ser irrealizável. Pois a cultura, a alta cultura, sempre nos ensina a humildade. Para ler Platão voce precisa aceitar o fato de que um homem sem internet, sem TV, sem rocknroll ou RAP possa estar certo. Mais ainda, só aceita a cultura quem admite estar vazio, com fome, necessitado de sabedoria. O desejo não pensa jamais estar errado ( se é que pensa ), ele está certo em querer. Ele deseja e desejar é ter sempre certeza de um objetivo. É saber. Um saber pueril, tolo, básico, animal, uma eterna auto afirmação da vontade. ------------------- O aluno que odeia Platão está se colocando acima de toda uma cultura. O que faz com que ele faça isso não é o fato dele ter estudado Platão e ter percebido suas falhas, que são muitas, mas sim o fato de que esse aluno DESEJA que Platão nada signifique. Ele anula aquilo que não quer entender. Aquilo que não lhe parece útil para realizar seus desejos. --------------- Que desejos? Muitos, aparentemente muitos, mas na verdade apenas um: SER AQUILO QUE VOCE QUISER. É a civilização da DITADURA DE PETER PAN. --------------- Uma das mais bonitas frases do livro de James Barrie é quando Peter diz que basta imaginar para ser. Eu, se quiser imaginar, posso ser um escritor ( mesmo sem publicar nada ), um filósofo ( mesmo sem criar filosofia alguma ), Posso ser aquilo que minha fantasia-desejo declarar. Desse modo, nada se torna mais odiado e ofensivo que alguém que diga: NÃO, VOCE NÃO PODE. CRESÇA! ------------------ Essa civilização se torna deserta de adultos e de herois. Pois adulto é aquele que trabalha limites, que entende regras, que é realista. E o heroi é o que luta contra o impossível, e para vencer o impossível, o limite, é preciso que voce o entenda, que voce trabalhe contra tal limite. Nesse mundo infantil, uma pessoa pode ser sacrificada por dizer coisas óbvias, como que um filho só pode ser gerado por um macho e uma fêmea, ou falar que não existe sociedade ideal. Essas verdades irão ofender os desejos de quem quer brincar de pai e mãe ou quem vê na natureza uma sociedade do bem. ------------- Para alguém mergulhado em cultura ocidental como eu, a coisa é bastante ridícula. E perigosa. Pois o que vejo é o nascimento do momento em que toda cultura será reduzida ao utilitarismo infantil mais simples e óbvio. Livros, filmes ou música só será aceita se for útil para ajudar alguém que esteja precisando de "uma luz", uma luz para realizar seu desejo. ----------------- Desejo que é sempre uma fantasia rósea e sem perigo. ---------------- Por fim digo que nunca na história se falou e usou tanto a palavra amor. Crianças precisam de amor todo o tempo. Então vemos bancos que são do amor, cosméticos do bem, lojas que vendem amizade, fraternidade em anúncios de cerveja. É um amor bobo, vazio, castrado. É o amor da tia do jardim de infância pelo aluno. É o amor que finge anular o lucro, o comércio, o uso do desejo. Pode-se dizer que nunca fomos tão hipócritas.

O EROTISMO, CONCLUSÃO

Homens e mulheres vêm o sexo de forma diferente, e a maior infantilidade do mundo atual é querer crer que eles são iguais. Mesmo um trans, um ex-homem, mantém muitas características do sexo masculino, sendo a principal delas o modo como vê o erotismo. Mulheres são, nesse ponto, muito mais sutis, detalhistas, percebem o todo, enquanto o homem percebe apenas um detalhe. ------------- No relacionamento, homens tendem a recomeçar todo dia. Cada momento de sexo tem por objetivo parecer com o primeiro. Quando ejacula, é como se tudo zerasse. O romance, na visão masculina, o romance ideal, não teria passado, o estado de novidade, de surpresa seria eterno. Mulheres não querem isso. Elas observam, e secretamente estão o tempo todo testando o homem. Elas não esquecem, esquecimento seria imaturidade. O romance ideal, para elas, é uma longa história em crescimento dia a dia. Não importa a surpresa ou a novidade, o que importa é o acúmulo. A mulher guarda. ------------- Ao nos apaixonarmos nos tornamos eróticos. Desejo atrai desejo e é por isso que namorados recentes atraem pessoas ao redor. Ironia: quando mais atraimos pessoas, eroticamente, é quando menos as queremos. Cheios de desejo pelo amado ou amada, exalamos energia, vitalidade. Mesmo um amor sofrido, em seu começo, tem essa carga erótica que atrai. Triste ironia, isso passa. A rotina mata o amor do homem e a decepção mata o da mulher. Ao amar matamos o amor. O que era novo se torna flácido, os testes são abandonados. A relação continua por hábito, por medo, por esperança. --------------- Outra diferença: homens quando deixam de amar ignoram a mulher. Podem continuar a viver com ela, mas não sentem mais nada. A outra pessoa se torna um fantasma. Mulheres quando deixam de amar criam nojo. O homem deve sumir de sua vista. Sua presença a exaspera. --------------- As lembranças dos homens, aquelas de ex namoradas, contêm falhas. Eles recordarão apenas o que foi divertido. E dessas memórias, 90% são sexo. Já a mulher irá lembrar de tudo que não deu certo. E dessas memórias, quase nada é sexo. Se preciso for, ela fará um relatório detalhado de cada dia do namoro. Já o homem irá recordar do corpo da mulher. Do cheiro. E quase mais nada. ------------------- Homens amam com os olhos e só com os olhos. O amor faz da mulher feia, bonita. Ele focará algo de belo nela, nem que seja apenas um dedo ou uma orelha. O resto será ignorado. Na hora do erotismo, ele como que esquece dos defeitos dela. É tomado. Quase um transe. Após o gozo, cai na razão e vem a melancolia, o desejo de fugir. Mas, se apaixonado, ele logo recomeça o jogo. Um homem que ama é capaz de ficar horas e horas olhando o corpo da mulher que ele adora. Nada lhe dá maior prazer que o olhar. -------------- Já a mulher ama com a pele. Com o ouvido. Com o nariz. O que mais a seduz é o cheiro do homem. O cheiro do corpo e o hálito. Esse o primeiro teste. Se o cheiro não agrada, nada mais agradará. Depois a voz. Mulheres são seduzidas pela voz certa, o timbre grave, o falar correto. E afinal vem a pele, o toque, o calor do corpo, o envolver. Como se fosse uma casa, a mulher abre ao homem uma porta de cada vez. Mesmo tendo já dormidos juntos, mesmo já tendo feito tudo que há para se fazer, muitas portas podem ainda estar fechadas. Ela as abrirá quando quiser e se ele o merecer. Homens não são casas. São estradas abertas. ------------------------------- Por fim o ciúme. Não o neguemos, amar é ter ciúmes. Quem deseja sabe que o outro é desejado. Por instinto sabemos que amando deixamos ela mais linda, mais viva, mais forte. E ela sabe que com ela voce é mais atraente. Situação sem solução: eu a faço mais atraente, a faço porque quero que ela seja cada vez mais bela. E assim, eu faço com que os outros homens a desejem. Aí é igual para a mulher. Ela sabe que ele é agora melhor, com ela, e sabe que assim as outras o desejam, agora. A verdade: eu a quero para mim, mas me agrada, me excita saber que outros a querem. O erotismo tem sempre um componente social. Desejamos aquilo que tem valor. E quem dá valor são os outros, não eu. ----------------------- Por fim: erotismo é alegria, sempre alegria.

O EROTISMO - FRANCESCO ALBERONI

Leia a postagem abaixo antes de ler esta. ---------------- Seduzir para o homem não significa produzir na mulher uma sensação indelével. Significa ir para a cama. Isso não quer dizer que homens não apreciem o amor, a história do casal, a emoção que inebria. Isso significa sim que para o homem o amor passa, sempre, pelo sexo. Homens têm uma clareza sobre o que seja amizade e o que seja amor, que as mulheres muitas vezes não têm. A fantasia erótica masculina reside na cama. A fantasia feminina reside no mundo inteiro. -------------- O autor italiano fala de Foucault. Diz que o francês, como quase sempre, errou feio ao dizer que " no mundo gay masculino, a promiscuidade existe porque o namoro entre homens foi reprimido por muito tempo". Ora, diz Alberoni, mulheres lésbicas não são promíscuas com a mesma frequência que se observa no mundo gay. Porque? O motivo seria a condição do homem. Homens, heteros, sonham com mulheres que dizem sempre sim. Há no homem uma fantasia de que o sexo, o desejo, pode e deveria ser automático. Quem diz não é a mulher. O homem está quase sempre querendo desnudar, ver, conhecer, transar com a mulher. No mundo gay, onde dois homens se encontram, não há o componente feminino que diz quase sempre não. O homem se libera. O sexo se faz sem amarras. ------------- Claro que há casais gays recatados. Mas mesmo esses, em muitos casos, viveram uma inciação orgiástica. No sexo lésbico nada disso existe. Inclusive é enorme o número de lésbicas que vivem juntas toda uma vida com carinho, cuidado e proteção, mas não com aquilo que um homem chama de sexo. ------------- Será tudo isso fato? Tendo a concordar por aquilo que conheço entre meus amigos gays. Mas acho Alberoni mais incisivo quando foge do mundo do erótico e invade o mundo da sociedade como um todo. Por exemplo, quando ele diz que a diferença básica entre a sociedade americana e européia é que na América, é preciso e até se exige, que todos tenham um objetivo, um fim a ser alcançado. Na Europa esse objetivo é vago. Se valoriza mais o caminho que a chegada. Isso se reflete no erotismo. Entre americanos há pouco erotismo visível. Isso porque o sexo se torna uma meta, um goal, uma vitória a ser obtida. Na Europa se dá mais valor ao ritual, a conquista, o flerte. Não há clareza no que se quer, há apenas um querer que pode ser transitório. Na América compromissos são sempre firmados, mesmo que depois sejam oficialmente rompidos. Na Europa o compromisso pode mudar a qualquer momento. Há entre americanos o horror a mentira, e por isso o adultério é ainda muito mal aceito. Não se mente sob um contrato firmado. Esse modo objetivo e prático faz com que nos EUA exista algo que não há na Europa: o bairro gay, o bar de solteiros, o bairro de famílias. Se voce tem por ALVO o mundo gay, more onde tudo fica a mão. Se voce quer sexo casual, vá a um single bar. ---------------------------- Uma alfinetada do autor em FREUD ( pobre Freud, todo mundo anda o alfinetando )... sexo não é a base da vida. Sexo é apenas um meio que os humanos usam para obter o que mais desejam: TRANSCENDÊNCIA. Animais são dominados pelo impulso sexual. Humanos não, podem o controlar. Usam o erotismo, o amor e o sexo para tentar obter uma experiência significativa. Transcender a vida banal. No amor vive a promessa de se viver uma vida maior. --------------- Belíssimas páginas sobre a paixão amorosa. O modo como no começo do amor, e só no começo, nos tornamos maiores, mais vivos, mais inteligentes e atraímos todos porque somos profundamente interessantes. Nossa voz ganha brilho, nossa pele fica mais macia, nosso olhar seduz. Em estado de excitação, prometemos excitação para os outros e optamos por nos conter. Pelo amor somos fieis. ---------------- Um livro bom.

O EROTISMO, FANTASIAS E REALIDADES DO AMOR E DA SEDUÇÃO - FRANCESCO ALBERONI

O autor é ainda vivo. Tem 91 anos. Jornalista, sociólogo e professor. Lançou este livro em 1986. É um de seus mais vendidos livros. Mas, será que o que ele diz é ainda válido em 2021? ----------------------- Primeiro fato dito por ele: Em todo produto pornográfico masculino, em todo sonho erótico masculino, o homem é sempre um ser que seduz as mulheres por sua simples presença. No sonho do homem, as mulheres oferecem seu sexo sem que ele precise fazer nada. A mulher é, nesse mundo, um tipo de prostituta. Ela abre as pernas apenas porque ele está ali. Na verdade o homem vê a mulher, na pornografia, como uma espécie de homem-mulher. Ela age com a disponibilidade que o homem tem ao sexo. Pois não se engane, homens sonham com sexo sem ritual, sem exigências, sem o sim ou o não. É a mulher quem diz não. É ela quem decide. E em 99% das vezes ele escutará não. ---------------- Mulheres não gostam de pornografia ( ainda? será? ). Costumam rir de cenas pornô masculinas. Acham aquilo tudo tão absurdo, tão idiota que caem no riso. O equivalente ao filme pornô masculino, no mundo feminino, aquilo que as excita, é a novela de TV, a série romântica, o drama romântico, e o romance literário água com açucar. A mulher não espera mais um príncipe, mas no seu sonho "pornô", continua existindo o homem poderoso, o heroi ferido, o misterioso com um passado secreto. Observe que no mundo feminino não excita o que é rápido e objetivo. O que excita é o todo, o ambiente, o enredo, a história que anda e se desenvolve. Mulheres não se excitam com a visão do corpo fazendo sexo. Ela se excita com um cheiro, um toque, um som, e principalmente um enredo. ----------------- Isso porque o desejo masculino é como seu gozo. Ele vem em jatos. O homem se excita, atinge o gozo e então esfria, quer cessar tudo, sumir e repousar. Seu desejo e seu amor são fragmentos, que podem contar uma hsitória, mas sempre em forma fracionada. Homens amam o começo, o início, o conquistar, o conhecer. Seu desejo por infidelidade, que existe sempre, mas nem sempre se manifesta, é o desejo por algo que sempre começa, sempre é novo, pela caça. ---------------- O desejo da mulher persiste. Ela após o gozo continua quente, e após o coito deseja o abraço, o contato, o estar unido. Seu desejo, como seu amor, não é fragmentado, é uma história, um acúmulo, um progredir. Ela não ansia pelo novo, ela quer o seguro. ------------------ Mas o que eles querem? O homem quer um corpo. Por uma mulher bonita ele pode se forçar a ignorar todos os defeitos dessa bela mulher. A neurose dela será compreendida. O ciùmes suportado. Até a falta de inteligência será esquecida. Uma mulher realmente bonita será perdoada por tudo, até pela infidelidade. ----------- Já a mulher ama o poder. Basta observar que mulheres realmente bonitas se casam com quem tem algum tipo de poder ( não necessariamente dinheiro ). O político. O esportista. O milionário. O ator famoso. Mas também o homem mais popular do bairro. O chefe do crime. O palestrante de uma seita. O chefe religioso. A mulher se excita com o homem de poder porque ele tem história, mistério e autoridade. E também porque ele dá à ela algo que mora fundo em sua alma: a segurança contra o estupro. ---------------- Milan Kundera diz em um livro que Homens amam mulheres bonitas. Mulheres não amam homens bonitos. Amam homens que tiveram mulheres bonitas. ----------------- Há na mulher o medo do estupro. Sempre. Por isso o homem que mais a atrai é aquele que parece forte, intimidador, mas que ao lado dela é sempre suave, confiável, paciente. Ele afasta os estupradores, mas jamais lhe ameaça com violência. A aceitação, absurda, do marido violento, é a garantia de ser estuprada apenas por ele, e por mais ninguém. ------------------------ Continuarei a falar do livro em post próximo.

AMOR, MEDO, SEXO, DÚVIDA E MORTE

Antes de ler este escrito seria bom voce ler o que escrevi sobre A Rainha de Sabá abaixo. Procure. Rode uns 15 posts atrás. --------------- Fui educado para o amor. Crescendo em lar cristão, vendo os filmes que vi, as novelas e os livros que li, aos 12 anos eu já sabia muito bem qual era a sensação do amor. Uma deliciosa dor. Mãos suadas, calor no coração, borboletas no estômago. A amada era uma deusa. Promessa de paraíso na terra. Eu sofria muito. Muito mesmo. Mas sempre havia uma canção, um filme, um poema para me consolar. O mais legal de tudo era SENTIR UMA NOBREZA SENTIMENTAL nisso. Eu estava em ótimas companhias. Dante e Camões eram meus avôs. Amar era o diploma que me dava direito a me considerar bom e um humano completo. A razão aceitava essa situação. Tudo no mundo apontava para minha certeza. ---------------- O sexo dentro dessa vida era parte da nobre certeza. Por amar e por ser bom, pois o amor é sempre bom, o sexo era também bom. E até mesmo belo. O sexo era parte do amor, apêndice dele, Eros, deusinho sacana. Tudo muito bonitinho, higiênico e de bom tom. Minhas doces amadas eram irmãs espirituais de mim mesmo. Admiradas. -------------- Bom....se voce acha que este texto é para glorificar tudo isso voce realmente não me conhece. Pois sempre houve algo de podre nessa equação. Afinal, Dante amava uma menina de 9 anos e Camões era um sátiro. Uma das maiores tolices que um dia acreditei é aquela que diz que o AMOR como o conhecemos foi criado no século XII pelos menestréis da Provence. Belo modo de elitizar algo que sempre existiu. Ou voce acha que um azteca ou um celta não sentiam amor? E não falo do amor pelos deuses ou pelos filhos, falo do amor sexual. Sentiam? -------------- Há aqui um maldito puritanismo. É como se ao dizer que nosso amor fosse invenção de poetas nos livrássemos da carne. Pois agora vou te falar do inferno e ele vive na sua carne. E esse inferno é conhecido pelos homens desde antes da escrita. Ao contrário do amor romântico, esse amor não precisa de pena e de papel para existir. -------------------------- Dizem os partidários do amor-romance-inocente, que gregos e romanos NUNCA sentiam esse tipo de amor. Triste e burra confusão: eles não ESCREVIAM sobre esse amor. E não escrever não prova que não o sentiam. E posso dizer porque: Eu quando o sinto não consigo escrever sobre ele. Por que? Porque é um sentimento tão carnal e sanguíneo que a razão foge apavorada. Não há verso, tese científica ou esquema filosófico que dê conta dele. É um amor que ri da razão. --------------- Nesse amor voce não admira a mulher que te envenena. Voce a odeia. E a deseja. Ela não é como voce, ela nega aquilo que voce é. Existe para destruir todo seu passado e questionar toda sua certeza. No mundo só ela existe agora, e vem daí a morte. Pois assim como a morte, ela obscurece todo interesse que não seja ela mesma. O mundo se torna noite. Não há escrita. Não há dia. E voce sabe ser uma presa e não caçador. Voce é outro. ------------ Blake, Rimbaud, tentaram traduzir esse encontro para a língua escrita. Não conseguiram. --------------- Pois ela é um corpo. Ela é a vitória do corpo e portanto a vitória da vida. Contradição: ao encarar essa morte voce se faz mais vivo. Ela é uma perna e voce é sua mão. Ela é um cheiro e voce é um ouvido. O mundo é o corpo que ela exibe. Ela é só isso, carne, e sendo carne ela é REAL. Esse encontro te revela a REALIDADE DA VIDA. Uma fome e uma febre de querer comer. Tudo de ilusório que existe em todo amor inexiste neste encontro. Pois o que voce quer é aquilo que voce vê. Tudo que a vida promete é o encontro com ela. Homem e mulher em seu mais básico momento. A saga que movimenta a vida. ------------- No título eu escrevi a palavra dúvida. Não tenho a menor dúvida do que escrevo, mas esse encontro coloca em xeque tudo aquilo que voce é. Por isso ele é tão necessário e por isso essa Rainha de Sabá surge sempre de um reino distante do seu. Ela traz em si um mundo que voce desconhece. Ela tem perfumes, gostos e vozes que voce jamais ouviu antes. Ela era aquilo que voce temia ou desprezava, e que hoje é todo seu universo. Por isso a raiva, o ódio por ela. E por isso a abertura de um outro EU MESMO. ------------- Deixe-se.

O QUE VALE

   Postei um clip de John Lennon abaixo. E já aviso que este post é muito mais mal escrito que meu habitual. Lets go...
   John Lennon em seus melhores momentos é de uma simplicidade absoluta. Ao contrário de Paul, ele não é um melodista natural. E portanto, não tem a mania de Paul de harmonizar tudo, colocar uma coisinha a mais. Simples, porém...
   Um amigo me diz que a emoção em John era tão real que ele conseguia fazer algo de muito raro: passar emoção verdadeira em dois acordes. Isso acontece nos primeiros toques no piano em Jealous Guy. E acontece aqui. Os primeiros acordes de Watching the Wheels transmitem automaticamente a emoção que John sente. Acordes simples, emoção complexa. As teclas falam: O tempo passa. Nada é fácil. Mas vamos levando. Ele achou a paz.
  John Lennon envelheceria lindamente. O tipo de música que ele sabia fazer encaixaria perfeitamente em sua maturidade. Perdemos o cara que iria fazer as melhores canções sobre envelhecer.
  Quando a canção acaba me sinto aberto. E escrevo isto só pra dizer que o que vale é amar. Neste meu blog tenho falado de amor todo o tempo, caso voce não perceba.
  Filmes que amo, discos, escritores, lembranças de dias em minha vida plenos de amorosa memória. Todos esses amores são reais, mas nenhum se compara ao amor romântico, o amor por sua companheira. O amor por seu amor.
  Alguns artistas, poucos de fato, me fazem lembrar disso. Da centralidade do amor erótico. Yeats, Bryan Ferry, Keats...e John Lennon, um cara com o qual tenho uma relação de ódio-amor. ( Por sua vaidade e pretensão que tanto o estragou ).
  Já começo a racionalizar, o momento já passou.
  Este o modo de ser do amor. Ele passa. É impermanente. Mas deixa o rastro da memória. E a memória, queridos, é aquilo que nos constrói.

AMOR AOS 15 ANOS

   Um homem falando de futebol diz que o time que a gente ama aos 15 anos passa a ser o time que vamos amar a vida toda. Assim, as pessoas que hoje têm por volta de 50 anos vão sempre amar a tal seleção de 1982. Será?
 Lembro então de meus 15 anos e de meus amores nessa idade...
 O time sempre foi o Santos, mas como era fraco nesse tempo, só tinha Pita e João Paulo, eu admirava o Flamengo de Zico, Junior e Adílio, e a seleção francesa de Plantini, Tigana e Giresse.
 Pode ser verdade essa teoria, pois continuo achando que Bjorn Borg foi o melhor tenista do mundo, que a seleção de basquete da Iugoslávia era imbatível ( Petrovic e Kikanovic ), e que Gilles Villeneuve foi o herói da F1.
 Aninha não foi meu maior amor, mas é o amor mais bonito.
 Aos 15 meus discos favoritos eram Let It Bleed dos Stones e Viva do Roxy Music. Amava também, muito, o Physical Graffitti, do Led. Não sei se mudou meu amor. Foi nessa idade que comecei a ouvir Vivaldi e Mozart.
 Eu lia Dickens, Dostoievski e Thomas Hardy e meu livro do ano foi O Morro dos Ventos Uivantes.
 O filme que mais revi no cinema, no velho cine Gazeta e no Vitrine, foi Embalos de Sábado a Noite. E foi aos 15 que descobri Fellini e Truffaut, Cary Grant e Audrey.
 Usava cabelo longo e meu quarto estava atulhado nas paredes de fotos de surf e skate. Ir para a praia era a coisa que mais me dava prazer. Eu nem dormia no dia anterior.
 Amava chuva forte, manhãs geladas e o sol na cara.
 Andava a toa pelas ruas do bairro. E ficava entrando no mato fechado, só pra ver os bichos. Ainda havia bichos.
 Penso então que o homem tava certo. Posso ter tido amores maiores ou mais "sérios", mas aos 15 anos eles são pra sempre, nunca serão esquecidos ou desvalorizados.
 

UMA QUESTÃO PARA QUEM QUISER SER QUESTIONADO

   A questão que faço é: No amor erótico, entre homem e mulher ( ou não ), há realmente o interesse pelo outro, o sentimento é aquilo que parecemos sentir, ou tudo seria uma fantasia?
   Falo de amor, do amor que diz 'Te amo", "Preciso de você", daquele que se dedica completamente. Ou seja, não falo da amizade ou do mero acordo de companheiros. Falo do amor que escreve romances e dita poemas. E pergunto outra vez: Nós o sentimos, todos sabemos do que falo, mas ele é de fato aquilo que imaginamos ele ser?
  Já me traí ao usar a palavra imaginação. Seria então um amor ao ego travestido em amor ao outro? Amaríamos na verdade aquele que sente o amor e na verdade o que nos seduz é estar dentro de uma narrativa?
  Ou o amor seria apenas um ajuste de contas, um modo de reviver e tentar purgar coisas vividas na infância? Sexo hoje é coisa simples, e dizer que o amor é um modo mais bonito de falar de sexo não me parece mais apropriado. O mundo mudou muito e o sexo é aceito como biologia, política ou direito, chama-lo de amor não é mais preciso.
  Acho.
  Mas o que ele, o amor que mata e faz viver, o que ele seria?

AS LIGAÇÕES PERIGOSAS - CHODERLOS DE LACLOS

   Houve um tempo, entre 1969 - 1980, em que as editoras lançavam livros luxuosas em bancas de jornal. Se você é mais jovem, deve pensar que estou falando dessas edições muito ruins lançadas neste século, já na agonia das editoras. Eu falo dos livros de capa dura, com títulos em ouro, páginas macias e leves, fonte clara e de bom tamanho, livros dignos de seus autores. Foi uma época maravilhosa para começar a ler, e lembro de uma nota de jornal, em que numa visita ao Brasil, um famoso autor de língua inglesa ficara espantado com os autores que eram vendidos em banca de jornal.
  Minha edição de As Ligações Perigosas é de 1979. E é digna de um livro tão delicioso. Dizem que ainda hoje, toda a psicologia amorosa do livro é válida. Penso que sim. Os movimentos do coração aqui descritos são eternos.
  Laclos foi conhecido como nobre e militar, não como escritor. Venceu batalhas e escreveu sobre elas. Passou ileso pela revolução. E como todo grande homem, ela não pertence apenas a seu tempo.
  De todo modo, Laclos esperava passar à posteridade como diplomata e general, é lembrado duzentos e cinquenta anos depois como escritor. Mas por pouco tempo. Este livro caminha a largos passos para o esquecimento.
  Esta obra contém três fatos da vida real que se tornaram tabu nestes tempos de faz de conta: Valmont seduz uma menina de 15 anos. Pedofilia. Todas as cenas de sexo são um tipo de estupro. E as mulheres se dão como servas ao homem que as seduz. Todos esses pecados são fato. É claro que me incomodam. Mas não é por não se dever escrever sobre eles que magicamente eles deixam de existir. Mas quero dizer que uma leitura mais profunda revela algo mais complexo, e bem mais atual...
  Merteuil, uma mulher, é personagem atemporal. Moderna. É uma mulher que tem prazer na cama e faz o que quer quando quer e com quem quiser. Ela é castigada ao final, mas esse castigo não convence. Laclos ama Merteuil. E ele conduz Valmont, numa campanha que parece tática militar, à uma derrota absoluta. Ciumenta, ela exige que ele seja dela, mas ele se apaixona por uma bobalhona, e Merteuil o destrói.
  Valmont é o Casanova francês, conquista pelo prazer de vencer, de dominar, de possuir. O amor não entra nessa batalha. Cada mulher é uma tropa a ser tombada. Mas ele é pego pela única que resiste. E se apaixona sem ter consciência de sua paixão. É fantástico ler como sua mente cria desculpas para sua demora, para suas exitações, para seus cuidados. Ele a ama, e não sabe que aquilo é amor. Mas Merteuil sabe, e odeia isso em Valmont. Ela se divertia com cada nova sedução dele, mas não pode perdoar o fato de ele ter a traído. No mundo dos dois todos os crimes são perdoados, menos a humanidade.
  A psicologia do livro é brilhante, a mente de Valmont e de Merteuil está viva em cada página. Mas só dos dois. Os demais personagens são apenas tipos, são uma espécie de motivo que faz com que os dois reajam. Há já uma pitada de romantismo na seduzida-culpada-sofrida Tourvel, mas o livro transborda iluminismo. Tudo é conduzido de forma racional. Quando surge a irrazão, pronto, eles afundam.
  Escrito em forma de cartas, vemos também como vivia a elite francesa por volta de 1770. As cartas eram trocadas às vezes até 3 vezes no mesmo dia. Voce remetia uma de manhã, recebia a resposta às duas da tarde, mandava outra em seguida, e ainda era lido pelo seu confidente de noite. Ele escreveria a resposta, enviaria, e de manhã voce já poderia ler outra carta. Dizem que na Inglaterra o correio era ainda mais veloz.
 

LEVE E SOLTO

   Leve e solto?
  Minha bagagem de vida diminuiu. Me livrei de vários livros e de toneladas de discos em vinil. Só não me livrei dos meus dvds porque ninguém os compra. Sim, não doei, eu vendi. Tenho provado o sabor da pobreza. Mas não é apenas isso.
  Deixei de escrever por meses aqui por estar completamente apaixonado. Não, não precisa parar aqui. Não falarei sobre paixão e muito menos ficarei a choramingar um amor impossível. Pois ele não é impossível e não é feliz. Muito menos triste. É paixão.
  Nossa mente ou nosso coração tem um limite. E a paixão ocupa tudo. Por isso ela tem um risco alto. Se a aposta não der certo voce perde tudo. E se sobreviver, terá de reconquistar os outros amores, seja livro, disco ou seus amigos.
  Eu ia escrever que a alma também tem um limite. Mas não consegui. Acho que a alma é ilimitada. Nem mesmo a paixão a esgota. Mas não sei. Bom tema para outro post.
  Diria que amor pode ser apenas alma. Mas a paixão é corpo. Há algo de profundamente corporal na paixão. Ela é nervos, sangue, vísceras, músculos. Por isso é mortal. Como tudo que é sólido, ela uma dia se desmancha.
  Mas a paixão pode ser ou se tornar alma, e então será amor. Corpo e alma. Ou somente alma. Então não se destrói, se modifica. Vira outra ou outras coisas, pois é etérea.
  Não estou nem leve e nem solto. Antes pesado. A bagagem foi aliviada de livros e discos, mas o peso da paixão cresce. Uma contradição: Eu sou apaixonado por ela e amo minha paixão.
  Uma das curas da depressão é não lutar contra a melancolia. Melancolia foi a tempos idos uma qualidade invejável. Dom dos mais nobres. Hoje é um mal. Isso faz com que todo melancólico não aceite aquilo que ele é. Ele se deprime por ser melancólico. Aceite sua melancolia e seja feliz.
 O que quero propor é: O mundo de hoje, que abomina a melancolia, por ser ela pouco ativa, aceita a paixão? Nosso século aceita somente o que é ativo, produtivo e afirmativo. Dei a resposta?
 Ame seu trabalho, ame seus filhos, ame seu hobby, mas por favor, não vá ser imbecil a ponto de se apaixonar.
  Ando lendo as histórias de Arthur e de Camelot. Não, não há paixão lá. Há compromisso. Lealdade. Código moral. Tudo aquilo que o apaixonado não segue. Não liga e não quer.
  Mas o que deseja o apaixonado? Permanecer apaixonado. Apenas isso.
  Como um drogado, ele quer a substância que o faz ficar exaltado. Corpo é química, respondido?
  Claro que não. Pois isso não responde o por que de minha paixão. Fosse apenas química eu trocaria ela por uma mais forte. Ou tomaria overdose de paixão. Mas não é assim.
  Conclusão possível: Falar da paixão a empalidece, mas não purga seu veneno. Leve e solto? Outros que voem por aí. Eu quero é mais.

 

AQUELE MOMENTO-VIDA EM QUE NÓS ESTAMOS COMPLETAMENTE AQUI E AGORA.

   Eu a desejo.
 E por isso sou agora um corpo. Porque ela é o único corpo que existe. Não há mais dúvida em mim. Eu sou minha pele. Meu sangue. Porque ela é mais que pele e sangue. É um universo completo.
 A vida se torna simples. Estou aqui. Sou um homem que deseja. Meu corpo grita por ela. Mas falemos dos lugares...
 As ruas passam a ser aquilo que são: caminhos. E o passado morre. O tempo é agora, uma corrente de agoras. Tudo leva à ela.
 Consciência do corpo. O apaixonado atrai porque o corpo passa a viver inteiro. Olhos, mãos e boca vivem sua vida em plenitude.
 O corpo vive apenas nos momentos como este: em paixão. No resto do tempo realizamos simulacros de paixão. Roupas, maquiagem, exercícios, brilho intelectual: tudo busca simular o estado de apaixonado. Tudo afugenta eros. Ele só vem quando não é chamado.
 O corpo sabe tudo. Anda pelos dias recolhendo prazeres doloridos. Ele sabe que a paixão termina sempre em morte. Morte do próprio corpo ou mortes várias, simbólicas, reais. E ele sabe, o corpo, que ele existe para isso: paixão.
 Eu a vejo e quero cheirar ela. Entrar nela. Viver dentro dela. Comer ela. Ser dela e ter ela como escrava. Ser como ela é. Fazer dela o que sou. Corporalmente. Eis a verdade da matéria. Fundir-se dois em um. O milagre.
 Durmo menos e não sofro por isso. Nem mesmo posso dizer que alguma coisa aqui é sofrimento. Estou desperto. A vida material, o agora, o preciso instante me é um amigo leal. Ando de mãos dadas com a vida.
 Não falo dela porque sua beleza jamais poderá ser expressa em palavras. O amante não embeleza a amada. Ele revela ao mundo a beleza que sempre foi dela. E nesse processo ele próprio se embeleza.
 Mas há o cheiro. O cio. O sangue no olho. Ela é ruim como uma matilha de lobos. Ela é a natureza real. Morte e parto. Comer e ser devorado. Ela é mulher. Basta de letras!

OS QUATRO AMORES - C.S.LEWIS

   Em edição com capa dura, bonita, este livro pensa a cerca de quatro formas de amor: o afeto, a amizade, o amor erótico e a caridade. Há uma decepção óbvia com o primeiro texto. Lewis parece não se animar com o afeto. Afeto seria o amor que une pessoas em interesse comum. É aquilo que nos faz ser gregários, sociais. Sentimento que nos faz precisar de alguém ou apreciar alguma coisa. É o amor que sentimos por animais, objetos, lugares, lembranças. O texto é parcialmente convincente.
   Isso não acontece com o que ele escreve sobre a amizade. Aqui Lewis beira a genialidade. Basta citar sua percepção de que a amizade é o amor menos prezado e valorizado pelo mundo moderno. Isso porque a associação de dois ou três amigos, faz deles seres à parte, fora do comum. Um tipo de amor sem ciúme e sem cegueira, a amizade dispõe os participantes lado à lado, prontos para observar e usufruir do mundo. O texto de Lewis é muito mais que isso. Ele consegue nos mostrar o porque da desconfiança de esposas, maridos e chefes em relação à amigos. Amor valorizado ao máximo no mundo antigo, desde o romantismo ele é desvalorizado. Por não ser trágico, perigoso, sanguíneo, a amizade tornou-se vista como um tipo de amor sem risco, sem narrativa e sem tragédia. Deixou-se de perceber sua nobreza. A grande sacada de Lewis: é, dos amores, o mais humano. Amor sem corpo, puro espírito. Pode-se viver sem amigos. Ele é uma escolha sempre, jamais uma necessidade.
   Belo é também o texto sobre eros. E, como os outros textos, Lewis faz uma coisa matreira, que seja: exibe o bem de eros para em seguida provar seu perigo. A amizade é nobre, mas pode se tornar soberba. Eros é lindo, mas pode virar crueldade. Eros não é animalidade, pois precisamos de uma única pessoa e não de qualquer uma. Lewis descreve o caminho que o amor-sexo percorre e seu crescimento quando unido à amizade.
  Por fim temos a caridade, e ela não é aquilo que voce imagina. Aqui Lewis se poetiza, cresce, e se cala ao fim. O livro, apenas 200 páginas, se encerra em clave celestial. Se levamos algum amor conosco para outra vida, quem pode saber?, esse amor seria o caridoso e não o eros ou a amizade. Não nos cabe saber qual de nossos amores é o caridoso. Não nos cabe saber qual deles seria o mais celestial.
  Sei que é um pequeno livro bonito.

ALEGORIA DO AMOR - C.S. LEWIS, UM ESTUDO DA TRADIÇÃO MEDIEVAL.

   Lewis vai contra as ideias de Denis de Rougemont. Para quem não lembra, Denis dizia que o amor cavalheiresco, aquele que inaugurou nosso modo de ver o amor ideal, foi uma espécie de sublimamento do amor cristão. A donzela amada posta como símbolo da donzela original, a Virgem mãe inalcançável de Cristo. Denis de Rougemont é engenhoso e seu livro se tornou um clássico. Mas Lewis vai em outra direção ( e não nos esqueçamos de que Lewis se tornou católico pouco depois de compor este livro ), ele diz que o amor romântico é uma ALEGORIA, uma forma de dar imagem e voz à um impulso erótico que sempre houve. O importante para Lewis é a criação da alegoria e não a invenção do novo tipo de amor. ( Estamos falando do século IX de nossa era ).
  Para expor sua tese, Lewis vai aos autores latinos tardios, autores que testemunharam a morte do paganismo e o nascimento do novo cristianismo. Na morte dos deuses pagãos, eles passaram a alegorizar o amor, a guerra ou a cobiça. Sai vênus de cena, sai marte, e nasce O Amor e a Guerra como personagens dotados de rosto e de voz humanas. A nova Afrodite pode ser Guinevere, Isolda ou a musa futura de Keats. A nova Afrodite pode ser inclusive chamada de Amor. Para Lewis, erudito amante das letras, o que influencia uma nova literatura é a própria literatura anterior. E dessa literatura nova surge um novo conceito e um novo modo de pensar.
  Este é um livro árduo, sua leitura não é simples e não o recomendo para leigos.

CORAÇÃO DEVOTADO À MORTE, O SEXO E O SAGRADO EM TRISTÃO E ISOLDA DE WAGNER. - ROGER SCRUTON.

   Kant, Schopenhauer, Auerbach, Nietzsche, Wittgeinstein, Freud, Merleau-Ponty, Foucault e Girard. Todos são citados várias vezes por Scruton e todos são, ao final, refutados pelo filósofo inglês. Refutados em relação aquilo de que se ocupa o livro, o erotismo e a morte. Uns mais outros menos, todos revelam algo de reducionista ao evitar o tema ou a aborda-lo de uma maneira que o descreve DE FORA e jamais de dentro. Scruton não tem medo. Ele não evita entrar no sentimento e no ato, na fantasia e naquilo que sabemos acontecer mas que não conseguimos entender. Roger Scruton aceita o não-saber. Para ele é isso o sagrado: fazer, aceitar, repetir, seguir, sem jamais entender. Saber que ali há algo que foge ao entendimento e que por isso pode ser puramente ilusório. Mas não parece ser. E por isso ele, o mistério, é confirmado em atos, objetos, lugares que são aquilo que precisam ser. Para Scruton o homem é sagrado. Por mais que o cinismo atual ria disso, ele é.
  Somos corpos reais que se percebem no limite da realidade. Enquanto corpo estamos no mundo, enquanto sujeitos estamos observando o mundo de um lugar que sempre nos parece fora da realidade corporal. É o que nos define como seres não-animais: olhamos para nós mesmos, analisamos o que somos e o que devemos ou não queremos ser ou fazer. Temos escolhas. Ao contrário dos bichos, estamos sempre decidindo, antecipando, planejando. Nosso corpo, real como é uma pedra, se move entre as coisas como ser que funciona por instinto. Nosso eu, colocado à parte do real, olha e tira ideias, cria e lembra.
  Dentro dessa verdade, o Amor-Erótico surge como o momento em que o corpo e o sujeito se unem em um só. Eu amo a pessoa que está naquele corpo. Ao contrário da pornografia, não é aquele corpo que desejo, o que desejo é quem está naquele corpo. A pessoa e o corpo se tornam um só para mim, e eu me torno um só para ela. E, contra a ideia de Freud, de que a paixão era nada mais que um tipo de fome ou sede, algo mecânico e animal, só aquela pessoa pode fazer por  mim o que faço por ela. Ela é insubstituível. Única em um universo.
  Scruton vai em frente e toca na escolha. Para ódio dos modernos, não podemos escolher a quem amar. Somos presos do acaso. Mas podemos escolher como amar essa pessoa que nos surge. E vem daí a ópera de Wagner. Scruton a disseca em texto e música. Lenda vinda da idade média, ela fala de um sobrinho que se apaixona pela mulher prometida ao tio. E ela o ama do mesmo modo. Tudo termina em morte e em vitória do amor. ( Contei a história de um modo bem simplificado ). O que Wagner mostra é que amor e morte são a mesma coisa. Todo amor verdadeiro só pode vencer se encontrar a morte. E essa morte é o modo que o amor encontra de durar para sempre.
  Wagner não acreditava em Deus. Mas amava o budismo. O amor era, para ele, o modo de se deixar dissolver no Nada e a morte se tornava assim uma libertação da ilusão. O amor de Tristão e de Isolda seria profanado se tivesse de viver em meio às exigências do mundo fútil e vazio do dia a dia. Para ele viver puro e perfeito ele precisa morrer.
  Scruton aceita isso e vai adiante. Para ele, esse amor não precisa de um deus para ser sagrado. No olhar que reconhece, na individualidade de cada amante, vive a eternidade da particularidade que só o sujeito pode ter. No amor e na morte o Ser se afirma como sujeito livre. Ele sai do mundo das contingencias, das obrigações, e passa a se mover no mundo das escolhas e dos riscos. Sim, ele não escolhe seu amor, mas como disse, ele escolhe manter esse amor no nível do AMOR CORTÊS, o mundo do amor que significa, que simboliza, que vai além. O amor que nega a fome, a pornografia. ( A pornografia é o desejo que transforma o amado em objeto desfrutável e intercambiável. Ela vive da dessacralização do amor e da ofensa ao corpo ).
  A música de Wagner, sagrada e prova de um eu criador, leva o ouvinte para dentro desse erotismo que, como todo erotismo, coloca os amantes fora do mundo real e dentro do mundo com sentido. Para o casal, só eles existem, só eles são vivos, só eles podem durar. Na morte eles dizem ao mundo que escolheram seu destino. Saíram do mundo dos fenômenos e adentram a liberdade. Deixam de ser dois e se tornam parte de um todo onde não há eu e voce.
  Qualquer um de vocês, se já amou de verdade, sabe do que falo. Por mais ateu, ou cínico ou frio que voce seja, sabe que no amor há a companhia da morte. O mundo inteiro morre para os amantes. O passado morre. O que existe é o amor e o medo de que ele se perca. Há um momento em que sentimos a proximidade da morte. "Se ela se for eu morro".
  Não se engane. Ela se foi e voce morreu.

LOST....PAIXÃO É QUANDO PODEMOS SER AQUILO QUE SOMOS...

  Querido Bryan
                                       Voce conseguiu de novo! LOST é uma canção linda, tão linda que parece sua. Sublime. A mistura de tristeza e de beleza, dor e prazer.
Mas não é só disso que quero falar. Voce sabe, quando a gente ama, se apaixona, a gente se torna aquilo que é de verdade. As pessoas acham que é o contrário, que a gente fica doido quando ama. Não! O nosso normal, o que somos aparece na paixão e só nela.
Então Bryan, voce cantou para tantos amores meus e eu te digo que mais um milagre aconteceu na minha vida! Se voce não fosse voce, eu pensaria que voce agora estaria achando que vou me casar. Mas voce me conhece porque é do meu planeta. Eu apenas a vi, falei com ela e senti, na hora de partir, que ela e eu somos um. E foi só isso. E isso é tudo.
Lost é a trilha desse momento, desta despedida impossível. Eu parto e fico. Ela fica e se vai comigo.
Eu a amo. E com ela, para o mal e para o bem, eu sou eu.
Só isso Bryan.
Espero vê-lo em breve.
Amor, de teu discípulo Anthony R.

BRINQUEDOS

   Algumas pessoas, intelectualizadas, gostam de dizer que brinquedos são ferramentas que nos fazem na infância aprender a lidar com a realidade. Eu prefiro pensar que brinquedos são atores que usamos para aprender a amar. Eles são meios que despertam nossa estética, são focos de nossa atenção, concentração e imaginação. Amamos sua cor, seu peso, sua sinuosidade. Viajamos em suas possibilidades e agarramos sua realidade. Na minha vida poucos amores foram tão fortes como os que senti por meus brinquedos. Abrir o pacote em que eles vinham embalados nada ficava a dever ao ato de despir uma mulher.
  Um elmo de cavaleiro medieval, branco, com uma cruz vermelha. O escudo e a espada acompanhavam, nas mesmas cores. Uma cidade toda feita em madeira, cidade do faroeste, as portas de vaivém do saloon, a casa do sheriff. Ainda sinto o cheiro da madeira.
  Uma locomotiva movida a pilha, que corria e fazia barulho de trem, piscava luzes coloridas.
  Um Fusca vermelho, de bombeiro, que batia nas paredes e voltava, escandaloso.
  Um enorme cachorro marrom de pelúcia, tão grande que eu me sentava nele, como se fosse um cavalo. Desse eu ainda sinto sua presença. Eu olhava sua cabeça, esperando ver sua piscada.
  A noite em que ganhei um Fusca vermelho, dessa vez um desses carrinhos em que se pode montar e andar com pedais. Ele tinha buzina, faróis que acendiam, volante. O plástico duro, frio. Eu olhava apaixonado a luz amarela dos faróis.
  Minha bicicleta, vermelha também, uma Berlineta Caloi, onde aprendi rapidamente a correr sem o apoio das rodinhas de segurança.
   Meus bonecos, pelos quais me apaixonei completamente, um elefante de borracha com chapéu de circo, meu Cebolinha, um cachorro cor de vinho com grandes orelhas caídas, um gato azul, dengoso, com eles eu montava histórias sobre a manhã.
   Tive um Autorama que logo queimou, tive um Forte Apache, uma Corrida Mágica.
   No fim da infância vieram os carrinhos Matchbox, o primeiro um carro de corrida laranja que eu não cansava de olhar.
   Fiz casas com blocos de madeira, o cheiro que eu sempre adorava, construí coisas inúteis com os Pinos Mágicos, pequenos blocos de plástico barato, mal feitos, que me deixavam doido de ansiedade.
   Atirei com pistolas que soltavam flechas com ventosas. Botei fogo em carrinhos de lata. Voei com aviões da segunda-guerra. Colei álbuns de figurinha com cola feita em casa, grossa e com cheiro tão bom que eu queria comer.
  Nos meus cenários, o porão, o quarto, o quintal, o campo aberto e sem muros, brinquei amando e amei brincando. Um exército completo com meus soldados americanos, até bazuca havia. Os tanques dispostos no chão de tacos de madeira, meus joelhos esfolados. Deus meu! Eu não parava de brincar! Com as revistas de minha mãe, com cabos de vassoura, com pedras no chão, na cama, na escola, sozinho ou com meu irmão.
  E depois na faculdade, fazendo peças de brinquedo, gravando videos à toa, inventando coisas pra amar.
  Talvez aqui exista uma bela frase: o amor, a gente inventa pra brincar...

O AMOR SE GUARDA DO TEMPO. CHRIS ISAAK- FOREVER BLUE

   ...Heminguay disse um dia que o ódio termina mas o amor é para sempre.
   Eu amo para sempre aquela menina e com ela eu amo este disco. Que foi e é sua trilha sonora. E Heminguay combina bem porque este disco e este amor tem cheiro de camisa de flanela e de eucalipto e ele é frio, é sopro de vapor e mãos que se esfregam. Touca de lã.
  Ela é frágil como se fosse feita de promessas dificeis de serem cumpridas. A voz de Chris é de cristal? Não, acho que melhor dizer orvalho. E ele canta o amor todo o tempo. Ele realmente crê no amor. E te digo amigo, neste mundo a gente tem de crer no amor e mais ainda, a gente tem de bradar e exercitar o amor. All the time.
  Como pode isso? É um milagre e o fato desse amor existir prova que milagres só acontecem para quem crê neles. Oh God! Eu crio no amor e creio nela. Porque ela é linda.
  Como é este disco com seus solos de guitarra curtos, delicados e viris, com sua luz de estrada de quem vai voltar. com sua tristeza esparramada, mas não desespero, porque desespero só vem para quem deixou de acreditar.
  Este disco me foi proibido por anos e anos. Doía demais escutar a trilha dela. E minha alma, saudosa, guardou esse disco como quem guarda cinzas. Agora ele toca porque chegou a hora de tocar de novo. Ela é agora como sempre foi. O amor guarda e protege do tempo da vida.
  Tão bom ouvir a voz de Chris novamente. E tocar o corpo conhecido que se encolhe.
  Ela é linda. E eu sou bom.

DE AMOR E DE AMAR

   Nunca e pudor em assumir um amor.
   Numa mesa de bar, ontem, eu conversava com alguns amigos e descobria que quase nenhum deles tem ou teve ídolos. Acho isso triste. Pior, pobre. Ter ídolos nos ensina a amar com paixão e assumir esses heróis nos tira, pra sempre, a vergonha de se apaixonar.
   Um cara se apaixona muitas vezes na vida. Umas paixões podem ser maiores, algumas duram mais, mas todas são de verdade. Não existe falsa paixão, assuma, mesmo o amor que voce sentiu por aquela menina burrinha e magrela em 1979 era real. E merece a nobre reverência da memória. 
  Estou misturando amor e paixão. Começo a perceber que ao separar uma da outra estamos diminuindo uma delas. As duas são alma e as duas são corpo. A diferença está apenas na cabeça. Nosso espírito voa, seja amor, seja paixão. São a mesma coisa. Pois amor sem sexo se chama amizade e a amizade eu chamo de amizade. Amor é paixão.
  Desde que me conheço eu caço. Vou atrás do amor e não consigo ser minimamente feliz sem ele. Pode ser com uma menina de 20 anos, uma mulher no auge dos 35. Pode ser platônico, tolo, ilusório, vaidoso, egocêntrico, generoso. Pode ser com poesia ou com raiva. O amor está sempre em minha mira. Eu o procuro. Necessito.
  E desde o momento em que nasci o assumi. Amava com ansiedade, com o coração aos pulos, com insônia, com febre e com alegria de explodir. Amava meus bichos, minhas trilhas, meus pais. Amava a escola, amava os Monkees, amava meu melhor amigo. Amava a loirinha com quem nunca falei, e a professora que imaginava nua. Aos 7 anos amava certos filmes de pirata, de guerra, de monstros. Amava meus brinquedos. Eu sentia o amor com a força que sinto hoje e o assumia, deixava ele crescer em mim, cultivava.
  Sim, isso me fez sofrer muito, chorar demais. Mas nada me define melhor que essa disposição para a paixão, para o grande coração. É o meu melhor e sem dúvida é meu pior. 
  O amor me toma de novo. E nunca importa muito por quem. Sério! Pois amor, quando vem, provocado por eu-mesmo e por quem me enfeitiça, envolve o mundo em seda. Amo aquela que me dá felicidade, e esse amor tinge de amabilidade e de cor tudo o que vejo e ouço.
  Amar é bom. E bom é o amor.