domingo, 1 de maio de 2011

A PRIMEIRA NOITE DE TRANQUILIDADE- VALERIO ZURLINI

Nós homens fazemos tudo por uma mulher bonita. A beleza de uma boca ou de um seio nos transforma em tolos, asnos ou em heróis e poetas. Mulheres são diferentes. Elas sabem zombar de bíceps ou de belos lábios masculinos. Elas sabem que atitudes são mais importantes que pernas bem feitas. Este maravilhoso filme de Zurlini TAMBÉM é sobre isso.
Existem filmes que são belos por seu argumento. Outros por suas imagens. Mas alguns poucos são belos por um personagem. É este o caso. Danielle, um homem melancólico, um perdedor consciente e proposital, feito com gênio por Alain Delon, é desses personagens que carregam um filme direto para nosso coração. Raras vezes se mostrou com tamanha beleza a saga de um homem sensível sendo massacrado pelo mundo moderno. O filme chega a provocar dor.
Delon é um homem que chega a Rimini. É um viajante, um ser calado, um estrangeiro em seu próprio país. Anda a esmo e vemos então que ele dará aulas num liceu. Estamos no auge do radicalismo italiano ( 1972 ) e de cara ele diz a classe que para ele "esquerda ou direita são iguais, talvez os fascistas sejam apenas mais estúpidos". Mas o filme não é politico ( ou é? ). Logo vemos que ele é casado e que sua esposa é infiel, fato que lhe provoca indiferença. Na aula ele sente atração por uma calada estudante, belíssima, e essa é sua perdição. Ela namora o playboy bad boy da cidade e é também uma prostituta. Delon/Daniele imaginará ser ela um tipo de alma para ser salva. Ele acabará encontrando aquilo que sempre desejou: a primeira noite de tranquilidade, o sono sem sonhos, a morte.
Nesse processo ele fará amizade com três malandros. A vida desses homens é carteado e prostitutas ( e penso em como o cinema americano é incapaz de exibir com naturalidade, sem crime ou neuras, essa vida tão masculina de bordéis e garotas de programa ). O filme tem cenas muito reais e bem feitas de boates e festinhas em apartamentos que mais se parecem com motéis. Nada é julgado e nada cai na chanchada, estamos longe do mundo de virgens de quarenta anos.
Ruas com chuva, um inverno que penetra a roupa, casas em demolição, pinturas e afrescos. Há uma cena chave em igreja onde existe uma pintura de Della Francesca. Delon, que é um professor de arte, descreve como aquela obra foi feita e o que ela significa. Na descrição da obra ( tão pequena, tão simples, tão sobre-humana ), vemos a descrição de Delon/Danielle, do que ele pensa ser a estudante/prostituta e mais: do próprio Valerio Zurlini, o mais delicado dos diretores da Itália. Uma cena perto do fim, em que ele e um amigo vão à casa abandonada é cena de antologia. A prova de que o cinema pode ser arte de nobreza viril.
Poucos filmes são tão tristes. Poucos são tão reais. Aqui a tristeza não é a tristeza da excessão. Não é o drama de junkies, de doentes terminais ou de bandidos de favela. É a tristeza de um homem que não possui conexões, que viveu e viajou demais, que descrê de tudo e que pensa, por um momento, ter encontrado uma fonte de vida nova. O que ele encontra é a tranquilidade. Para sempre. Eis um grande filme!

Um comentário:

Anônimo disse...

Cara esse filme tem tudo haver comigo pois eu me encaixo perfeitamente no perfil do personagem do Alain Delon do Daniele Dominici pois eu sou um homem muito sensível sentimental e emotivo eu sobrevivo nesse mundo fútil e medíocre em que nós vivemos hoje em dia é sem dúvida o meu filme favorito e o Valerio Zurlini tambem é o meu diretor favorito fez filmes fantásticos alem desse como Verão Violento e Dois Destinos!